Isabella narrando...
Às vezes, tento compreender a bipolaridade de Wesley, tentar entender sua grosseria, mas é algo que se me escapa. Como um ser humano pode ter duas faces? Ora ele é gentil, afetuoso, e noutras ocasiões se torna estúpido, ríspido, mal-educado. Como é possível demonstrar mais de cinco sentimentos em questão de segundos?
Quando Márcia me acordou no meio da madrugada para fazer curativos nele, não perguntei o que havia acontecido. Busquei a lógica em minha mente, mas ela não se fazia presente. Apenas pedi a Deus que não fosse algo grave. Fiz o curativo de forma simples, algo que aprendera nas aulas de primeiros socorros. Apesar de Márcia me ter tratado de forma ríspida quando abriu a porta, nada disse. Fiz tudo com paciência, com calma, movendo-me o mais devagar possível para não causar dor.
Uma sensação estranha, quase inexplicável, se apossou de mim ao tocar o corpo dele. Algo que, ao mesmo tempo, era bom e desconcertante percorreu minha pele, fazendo-me arrepiar por inteira. Sua pele era macia, mas fria, excessivamente fria. Tinha a impressão de que ele era feito de gelo por dentro.
Quando suas mãos me puxaram para cima, entendi imediatamente o que ele queria. Mesmo que também desejasse, neguei. Ele havia levado vários tiros de raspão e não podia fazer esforços. No entanto, a sua vontade foi mais forte que o meu discernimento. O que é proibido, de fato, tem uma atração maior. E eu me entreguei ao momento.
Sentir o corpo dele por completo novamente despertou mil borboletas no meu estômago, e, ao reviver aquele momento, lembrei-me da última vez, quando nos entregamos ao prazer como dois loucos. Se da primeira vez, senti uma timidez estranha, desta vez eu decidi ser diferente. Soltei-me, tomei o controle da situação, e o fiz de uma forma mais intensa.
Esqueci momentaneamente o hematoma que Rodrigo havia deixado em meu pescoço. Após o banho, deixei meu cabelo escorrer por trás dos ombros, até perceber que Wesley não tirava os olhos dessa região. Ignorando suas insistentes perguntas sobre quem havia feito aquilo, optei por não contar. Não queria mais problemas, nem queria relembrar os pesadelos do meu ex. Mas, quando percebi que ele queria apenas me ajudar, senti que era hora de ser honesta.
Eu esperava tudo de Wesley: que ele me xingasse, que se exaltasse. Menos me tratar como algo descartável, como se fosse uma mulher qualquer, disposta a se entregar a qualquer um. Eu não sou assim, nunca fui.
Nos últimos dias, algo mudou em mim. Minha aproximação com Wesley, as sensações confusas que me tomavam ao lado dele, as atitudes impulsivas que tomei... Tudo isso me fez perder o controle sobre o que sentia. Eu não sabia mais quem eu era diante dele.
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"Embaraçoso" não seria suficiente para descrever o que eu sentia naquela situação. Eu estava atônita, confusa. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Quando olhei para Matheus, a pessoa que sempre vi como alguém especial, alguém que me tratou com carinho e consideração, tudo mudou. Ele, que sempre foi simpático e descontraído, agora parecia algo distante, quase um estranho. Não pude entender o que aconteceu, mas uma onda de ciúmes me invadiu. O que ele fazia com a morena ao lado dele me incomodava de uma maneira insuportável. Nunca me deixara pegar Ágata no colo, mas quando outra pessoa o fazia, uma raiva silenciosa tomou conta de mim.
— Empata foda, irmão — disse Matheus, com um tom irônico. — Fala aí, Thay.
— Tranquilo, Theus — respondeu Thayane, sem se preocupar com a situação.
Wesley entrou no quarto, com aquele olhar cerrado e suas mãos carregando presentes. Colocou-os com um gesto de desdém em cima do sofá, como se fosse o último favor que me faria.
— Vim só deixar isso pra menor — disse Wesley, sem sequer olhar para mim.
— É... Obrigada — respondi, a voz baixa, cheia de desconforto.
— Agradecendo por quê? Não falei que o presente é para você — retrucou Wesley, com sarcasmo, como se quisesse me diminuir. A risada da morena ao seu lado fez meu estômago revirar.
— Morre com essa sua grosseria — murmurei, sem me importar se ele ouvia ou não, mas minha voz estava carregada de raiva.
— Vou subir pra minha goma, falou? — disse Wesley, batendo a mão com Matheus num gesto rápido. Já de costas, lançou o comentário com a mesma precisão de quem atira para acertar. — Só não esquece a camisinha, irmão... certas mulheres andam mais que moeda em mão de troco. Um descuido e pega coisa até no olhar.
O veneno estava disfarçado de piada, e o alvo era óbvio.
Engoli seco. Era claro que ele queria me atingir, provocar alguma reação. Mas eu não lhe daria esse gosto. Não ali, não com minha filha dormindo a centímetros de mim. Fingindo uma calma que eu não sentia, ajeitei com delicadeza o lençol sobre o corpo pequeno e frágil da Bárbara. Alguns segundos depois, a porta se fechou atrás dele, e o silêncio reinou no quarto, pesado como pedra.
— Não vai dizer nada? — Matheus soltou, com um meio sorriso, tentando disfarçar a mágoa com deboche. — O beijo foi tão ruim assim?
Respirei fundo. Senti o peso do momento pairando entre nós como uma nuvem espessa.
— Eu... eu não sei como começar — murmurei, desviando o olhar. — Esse beijo não devia ter acontecido, Matheus. Sei que correspondi, no impulso, mas... não significa o que você talvez esperasse. Eu te vejo como amigo. Meu melhor amigo.
Ele soltou uma risada seca, amarga.
— Amigo? — repetiu, com a ironia de quem escuta uma sentença. — Desde o início fui transparente contigo, Isa. Nunca escondi o que sentia. E mesmo sabendo que você tem uma filha, nunca enxerguei isso como obstáculo.
Tentei intervir, justificar, mas ele ergueu a mão levemente, interrompendo qualquer tentativa de explicação.
— Não precisa dizer mais nada — disse, com a voz firme, porém baixa. — Entendi o recado.
Levantou-se de súbito, como quem fecha uma porta por dentro.
— A gente se vê por aí — completou, antes de sair sem olhar para trás.
Desde aquela noite, não voltei a cruzar nem com Matheus, nem com Wesley. Não sei dizer se foi bênção ou castigo — só sei que o vazio que ambos deixaram reverbera em mim até hoje.
A vida retomou seu curso, como sempre faz: árdua, silenciosa, carregada de obrigações. Passei a maior parte dos meus dias naquele posto de saúde, ao lado da minha filha, contando histórias e arrancando, quando podia, um riso breve do seu rostinho cansado.
O médico informou que, dentro de uma semana, Bárbara receberia alta. Finalmente deixaríamos aquele quarto sufocante. Ela, porém, seguiria sob cuidados de terapeuta e psicóloga. Senti o alívio me atravessar como brisa: minha filha estava viva. E isso, por ora, era o bastante.
Deixem sugestões do que vocês querem que aconteça...
Isa está com ciúmes ou é Wesley que está?
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Meu Novo Recomeçar
Fiksi RemajaIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
