Capítulo 42

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Rodrigo narrando...

O desprezo que nutro por ela — e por aquela criança que insiste em existir — é de uma natureza tão sombria e abjeta que chega a me parecer inominável. Talvez soe insensato, talvez mesmo insano, mas basta ouvir o eco de seu nome ou o timbre de sua voz para que um ímpeto quase incontrolável me domine: o desejo de agarrá-la com força, como outrora, de reviver os dias em que a violência me parecia o único idioma possível entre nós.

Há em mim uma ânsia secreta de enclausurá-la num quarto escuro e gélido, submetê-la a todas as formas de suplício que minha mente corrompida pode conceber. E quanto àquela criança — ah, aquela criança — o ímpeto de silenciá-la para sempre, de extinguir sua presença com um golpe, não raro se confunde com o próprio pulsar da minha existência.

Sim, muitos diriam que sou um monstro, um homem perturbado, um infame que se atreveu a levantar a mão contra sua mulher — e contra uma filha que sequer lhe pertence. Mas a verdade, ainda que grotesca, é que eu me tornei aquilo que sempre temi: uma réplica fiel do meu pai. Herdei dele não apenas o sangue, mas também a fúria, a incapacidade de conter os demônios que me devoram por dentro. E embora o mundo jamais compreenda, eu sustento razões que julgo legítimas para desejar a ruína dessas duas figuras que um dia fizeram parte do meu lar.

A dor delas não me comove. Antes, serve-me de sustento. Alimenta-me como o pão dos dias miseráveis.

Fui criado sob os cuidados dos melhores empregados que o dinheiro pôde comprar. Cresci em mansões majestosas, estudei nas mais prestigiadas escolas da elite paulista. Nasci abastado, sim, mas nunca desejei viver à sombra do patrimônio de meu pai. Sempre almejei conquistar, com minhas próprias mãos, aquilo que julgasse digno de mim.

Carolina Bettencourt de Albuquerque... Ela era a mulher da minha vida. Distante, sim, pelas exigências de sua carreira internacional, mas quando presente, fazia do tempo ao meu lado uma devoção. Apeguei-me a ela de maneira visceral. Era a única a me proteger das garras severas de meu pai, cuja frieza transformava cada gesto em julgamento. Ele jamais me ofereceu o calor de um afeto — apenas regras e repreensões.

Aos olhos da sociedade, éramos o retrato da perfeição. Um casal exemplar, uma família de comercial de televisão. Ninguém suspeitava da violência silenciosa, das traições sussurradas entre as paredes da casa.

Vi Isabella pela primeira vez quando ela era apenas uma menina de oito anos. Morena, de olhos escuros e penetrantes, com um sorriso que desafiava qualquer definição. Mesmo tão jovem, havia nela uma beleza inquietante, quase celestial. Era filha do sócio do meu pai — a família vinha com frequência à nossa casa.

Mas com o tempo, a relação entre os patriarcas se deteriorou. Jonas perdeu a paciência com as falhas de Francisco, e não tardou a demiti-lo. Naquela mesma noite, o homem, embriagado e transtornado, invadiu nossa casa armado. A discussão foi violenta. Eu estava em meu quarto, mas os gritos me arrastaram até a sala, onde testemunhei o irreversível: aquele homem não tirou a vida de meu pai, como pretendia, mas a da única pessoa que verdadeiramente me amava — minha mãe.

Era jovem, mas compreendi, naquele instante, o significado da morte. Compreendi também que jamais voltaria a ouvir sua voz, jamais sentiria seu toque. Fechei-me para o mundo. Tornei-me pedra, silêncio. E ali, entre os escombros da minha infância, jurei vingança.

Os anos passaram e fui me moldando: por fora, um homem de sucesso, diretor de uma das joalherias da família; por dentro, um campo minado. E foi nesse cenário que a reencontrei — Isabella. Ela havia se tornado mulher, mas mantinha intacta aquela beleza fulminante. Seus traços estavam vivos na minha memória como se nunca tivessem partido.

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