Capítulo 16

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Isabella narrando...

Quando meu relógio marcou seis e meia da manhã, abri os olhos com uma disposição rara. Um sorriso escapou antes mesmo que eu pudesse pensar em qualquer motivo — e, pra ser sincera, acordar cedo nunca foi minha especialidade. Sempre achei que o sono mal dormido tem o poder de estragar o humor do dia inteiro. Mas, desde adolescente, aprendi que quando a gente tem um objetivo, até o cansaço tem que esperar. Prioridade é prioridade.

E talvez hoje fosse um daqueles dias em que a vida promete mudar.

Juliana iria comigo até a escola que fica algumas casas abaixo da de Wesley. Iríamos matricular minha pequena Bárbara na educação infantil. Depois disso, era a minha vez — entregar currículos, bater em portas, buscar alguma oportunidade entre lojas, hotéis... o que viesse.

Levantei com cuidado, sem fazer barulho, para não acordar a Bárbara. Era cedo demais pra uma criança da idade dela — se acordasse agora, ia querer descer pra sala e colar os olhos na televisão. Entrei no banheiro, fiz minhas necessidades, escovei os dentes e tirei meu pijama de malha. A água quente do chuveiro caiu sobre mim como um abraço demorado, e, por alguns minutos, deixei que ela lavasse também a ansiedade que eu carregava.

Saí do banho enrolada numa toalha branca e fui até o armário. Escolhi um vestido simples, leve, preto. Nos pés, a minha Melissa laranja — aquele toque alegre que quebra qualquer sobriedade. Depois de me arrumar por inteira, saí do quarto em silêncio e segui para a cozinha. Dona Paula sempre chega às oito da manhã pra cuidar da comida, mas hoje... hoje eu queria fazer.

Resolvi tentar, pela primeira vez em muito tempo, preparar aquelas panquecas americanas que aprendi quando trabalhava na lanchonete. Ainda me lembrava da receita — ou ao menos, achava que sim.

Enquanto reunia os ingredientes — farinha, açúcar, fermento... — liguei o rádio. Nada de Spotify, celular ou playlists: virei "moderna" do jeito antigo. Despertador no relógio e música direto da rádio.

— Vai, malandra, an an... Ê, tá louca... — cantei, aquecendo a frigideira, mesmo sem ser fã de funk. Nunca gostei muito por causa dos palavrões, mas aquela música da Anitta... confesso, tinha o seu charme. E meu Deus, como aquela mulher consegue ser tão linda?

Entre uma cantoria e outra, fui virando as panquecas com ritmo. Quarenta minutos depois, a mesa estava cheia: mais de vinte panquecas douradas, do jeitinho certo.

O silêncio da cozinha foi interrompido pelo choro agudo de Ágata. Ouvi passos pesados na escada, e logo Wesley entrou, com a cara amassada de sono e os olhos ainda vermelhos. A menina estava em seus braços, chupeta na boca, grudada no peito dele como um filhote inseguro.

Ele me olhou de cima a baixo, com aquele olhar frio de sempre, e fez um leve aceno de cabeça. Interpretei aquilo como um "bom dia".

— Bom dia — respondi, tentando manter a leveza na voz.

Alguns minutos depois, todos desceram para o café, e Dona Paula chegou às pressas, já reclamando do relógio que a enganou.

Mais tarde, já eram quase duas da tarde. Bárbara estava vestida: parte de cima branca, parte de baixo listrada. Calcei sua mini Melissa e penteei com paciência os seus cachos longos.

Juliana, com a garrafinha de cerveja quase vazia na mão, ainda se espreguiçava no sofá. Eu decidi buscar meu laço de cabelo, esquecido no quintal desde a tarde anterior.

— Te achei — murmurei ao pegá-lo, em cima de uma cadeira de metal. Já ia descer quando ouvi aquela voz grave, familiar.

— Isa...

Virei. Matheus estava do outro lado, com um baseado apagado entre os dedos.

— Nem vi você por aqui — comentei, caminhando até ele — Achei que estava na sala com o Wesley.

— Tava na vontade de relaxar, tá ligada? Mas não gosto de fumar perto dos menor — disse, apagando o baseado.

— Faz bem — respondi, quando a voz de Juliana cortou o ar.

— Ô ISA, MEXE ESSA RABA! Tô cansada de te esperar! — ela gritou, fingindo estar irritada.

— Bom, eu vou indo, Theus. Até logo — sorri, virando de costas.

— Aí, morena... Tá gata com essa roupa — disse ele, piscando.

Balancei a cabeça em negação, mas com um sorriso preso nos lábios. Pra um traficante, Matheus era surpreendentemente gentil.

Hoje era domingo. Amanhã seria o primeiro dia de aula da Bárbara. Graças a Deus — e à amiga da Juliana — conseguimos matriculá-la em tempo integral. Isso me daria espaço pra continuar procurando emprego, enquanto ela estivesse segura, estudando, vivendo como criança deve viver.

Ontem, em complô com a Márcia, Bárbara me arrastou cedo pro asfalto pra comprar os materiais escolares. E, sinceramente? Eu não sei o que foi pior: andar naquele sol escaldante do Rio de Janeiro ou ouvir as duas discutindo porque a mais nova queria tudo da Peppa e a mais velha jurava que Barbie era mais estilosa.

— Bárbara, para de pular nessa cama e deita pra dormir — falei pela milésima vez desde que ela saiu do banho.

— Mas mamãe... — tentou argumentar, mas logo a cortei.

— Bárbara um, Bárbara dois, Bárba... — E antes que eu pudesse terminar, ela já havia parado e deitado. Sabia bem que, se insistisse, ia ficar sem ver a tal porquinha do inferno.

Depois de quase quarenta minutos entre historinhas e cantigas, ela finalmente dormiu. Estava animada pra ir à escola, conhecer novos amiguinhos, ter com quem brincar. Afinal, quase não saíamos de casa, e sua única "companhia" era Ágata — e isso só quando Wesley não estava.

Olhei o relógio mais uma vez. Marcava três e quarenta e dois da madrugada. Eu havia acabado de fazer Bárbara dormir depois de mais um de seus pesadelos.

Essa situação já me deixava angustiada. Assim que arrumasse um emprego e recebesse o primeiro salário, iria levá-la a um psicólogo. Rodrigo podia estar longe, mas as marcas dele ainda insistiam em nos seguir.

Quando o sono começava, enfim, a pesar nas pálpebras, ouvi o choro fino de Ágata vindo do quarto ao lado.

Me preparei pra levantar e acudir a pequena, mas parei no meio do gesto ao ouvir a porta do quarto dela se abrindo...

Boa noite piranhas 😘

De agora em diante os capítulos serão escritos e postados por mim e pela maravilhosa Gabs_GreyPrior

#meta_de_sempre

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