Matheus narrando...
As coisas não saíram como o previsto. Deixamos escapar informações cruciais, detalhes que pareciam insignificantes à primeira vista, mas que acabaram por minar toda a estrutura do plano. Tudo desmoronou, e eu precisei improvisar, costurar o que restava com as próprias mãos, na raça.
Desde o início, ficou claro: maltratar, humilhar, levantar a mão contra ela ou, pior, tentar tomá-la à força... isso jamais fez parte do acordo. Era inaceitável, um limite que não se atravessa. Por isso me afastei. Não apareci. Não compactuei com aquela sujeira.
Isabella não era para ser tocada. Ninguém deveria encostar nela. A função dela era simbólica — um gatilho para a queda de Wesley, o verdadeiro alvo. Era ele quem devia sofrer, sentir na pele o gosto amargo da perda, e, no fim, morrer. Mas Rodrigo... aquele imbecil perdeu o controle.
Depois do sequestro, o plano era simples: pegar a Bárbara ou a Ágata no Chapadão. Eu ainda tenho meus contatos. WL não teria escolha. Seria o morro pela vida delas. E eu conheço bem aquele desgraçado — ele não teria coragem de arriscar.
Mas Wesley foi rápido. Rápido demais. Fez alianças, moveu os peões certos e agiu com frieza. Escondeu Bárbara e Ágata entre os soldados mais leais do morro. Ele pensou antes da gente. Foi estratégico. Inteligente.
E então, quando vi KP correndo mata abaixo com a Isa nos braços, senti algo que queimou por dentro: raiva e ciúme. Eu sabia que ela estava machucada, frágil, mas mesmo assim, eu queria estar no lugar dele. Eu queria ser o homem que a salvava.
Kevin é meu amigo. Mas por ela... por ela eu faço tudo. Não hesitei. Mirei nas costas dele e atirei.
Eu ia fugir com Isabella. Sair do morro, do Rio, do país se fosse preciso. Queria uma nova vida ao lado dela. Sei que posso fazê-la feliz, dar a ela o melhor, cuidar da Bárbara como se fosse minha filha. Ser mais homem que Wesley jamais foi. Por ela, eu abriria mão do Chapadão. Recomeçaria do zero.
Foda-se quem acha que isso é loucura. Que é doença. Isso é amor, tá ligado? Amor de verdade. Coisa que nunca senti por mulher nenhuma desde o sumiço da Leila, no tempo em que a gente ainda se via escondido. Isabella não é uma mulher qualquer. Ela é a mulher.
Dirigia concentrado, os olhos presos na estrada, enquanto Isabella se debatia no banco ao lado, tentando soltar as cordas que prendiam suas mãos. Minha paciência já roçava o limite.
— Para quieta, porra! — gritei, e ela se assustou. — Colabora comigo, amor... a gente já tá chegando — completei, num suspiro longo, tentando suavizar a voz.
Estávamos a caminho de uma casa que eu mantinha em Copacabana, escondida num canto esquecido pelo tempo, cercada de mato e silêncio. Antes de fugirmos, eu precisava resolver algumas pendências. Pegar a Bárbara, por exemplo.
— Amor? — ela riu, debochada. — Amor é o caralho, Matheus. Eu confiei em você. Considerei você como um irmão, meu melhor amigo... e olha o que você fez comigo! Eu tô grávida, passando mal desde a madrugada, e você me sequestra?! — a voz dela tremia de revolta. — Você é igualzinho ao Rodrigo e ao Rael. Farinha do mesmo saco. Nojento. Escroto. Sem caráter.
Soltei um riso seco. Aquilo me feriu, mas não dava pra mostrar.
— Você não sabe o que tá falando, Isabella. Eu não sou, nem nunca serei como eles. Sabe por quê? Porque tudo o que eu tô fazendo é por você. Eu quero a sua felicidade. Quero ser o homem que te dá prazer. Faço isso por amor, enquanto eles te destruíram por ódio.
— Me poupa, Matheus. Você não sabe o que é amor. Não ama ninguém. Nem a si mesmo. Eu te falei desde o começo que o único homem que eu amo é o Wesley. Com todos os defeitos, com todas as merdas, é ele que eu amo. Talvez eu tenha errado ao corresponder aquele beijo... talvez tenha te dado esperanças. Mas você poderia ter seguido em frente. Você é desejado, Matheus. Qualquer mulher te quer. Você merece alguém que te ame de verdade... que cuide de você. Me deixa ir, por favor — disse ela, quase num sussurro, a voz quebrada.
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Meu Novo Recomeçar
Teen FictionIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
