Capítulo 2

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Isabella narrando...

Passar a madrugada inteira naquela cadeira do hospital foi uma tortura. Estava exausta, com olheiras profundas, minha barriga não parava de roncar, e no silêncio da noite, meu estômago parecia gritar. Não havia comido nada, meu rosto estava igual ao de um zumbi, e para completar, estava descabelada e de pijama.

Quando vi o Rodrigo com a garrafa na mão e minha filha desacordada no chão, sangrando, não consegui pensar em mais nada. Meu instinto de mãe falou mais alto do que qualquer raciocínio lógico. Saí correndo, sem parar. Foi só quando fui lavar o rosto no banheiro do hospital que percebi como estava vestida. Foi aí que entendi por que todos me encaravam com espanto.

Não ter notícias da minha filha estava me destruindo por dentro e por fora. Eu tinha vontade de entrar naquela sala e obrigar aquele doutor a me dar notícias.

Márcia: Isa, vai comer alguma coisa na lanchonete, você precisa se alimentar.

Isabella: Eu não vou conseguir comer. Nada vai passar pela minha garganta. — Dou um longo suspiro. — Ainda não creio que isso está me acontecendo, Márcia. Eu não entendo o porquê de tanto sofrimento. Nunca fiz mal a ninguém, nunca desejei mal a ninguém. Só queria ser feliz, terminar meus estudos, ter meu trabalho, ser dona do meu próprio nariz e construir a família que sempre sonhei. — Desabafo, com lágrimas nos olhos. — Você não sabe o quanto me doeu ver a minha filha sendo abatida por aquele monstro. Só porque fui comprar arroz para o jantar, Rodrigo se descontrolou, me bateu e jurou acabar com a minha alegria. Ele deu socos e chutes nela, partiu uma garrafa de vinho e machucou a cabeça da Bárbara. Eu não pude fazer nada, estava desmaiada pelos chutes que recebi. Acordei minutos depois... — Confesso, de olhos fechados, relembrando a cena toda.

Márcia: Meu Deus... — Sua boca forma um "O" de surpresa. — Eu sabia que Rodrigo era covarde, mas não a esse ponto de bater numa criança inocente, na própria filha! Ele é um monstro, merece sofrer até a morte. — Diz com raiva. — Ouve, Isabella, não sei se você vai concordar, mas eu tenho uma solução. — Ela diz.

Isabella: Qual?

Márcia: Deixar São Paulo e começar de novo. Você ainda é jovem, tem tempo de ser feliz e fazer sua filha feliz. Bárbara não merece o pai que tem, e você não merece um companheiro tão escroto e covarde. Eu também me cansei da vida aqui em São Paulo. Não quero mais ficar na casa dos meus pais, a convivência está insuportável. Aquele meu primo que vive no Rio me convidou para ir morar com ele. Vem comigo! — Ela diz, e eu fico confusa.

No momento em que iria lhe responder, o mesmo médico de ontem aparece na sala com um bloco nas mãos.

Médico: Parentes de Bárbara Ferreira?

Eu e Márcia nos levantamos imediatamente e caminhamos até ele.

Isabella: Sou a mãe dela, doutor. Por favor, me diga como minha filha está! Onde ela está?

Médico: Se acalme, senhora, vou explicar tudo, mas na minha sala, por favor. — Pede.

Várias coisas passaram pela minha cabeça. Fiquei imaginando o pior. Minha princesa só tem 4 anos e já está passando por todo esse trauma...

Chegamos à sala do doutor. Ele nos manda sentar e checa algumas coisas no computador. Dá um longo suspiro e começa a falar.

Médico: Eu não sei o que aconteceu com sua filha, mas a pequena deu entrada no hospital com ferimentos graves na cabeça e no corpo também. Tivemos que deixá-la na sala de observação para analisar melhor os ferimentos. Durante a madrugada, precisou ser levada à UTI para uma cirurgia de emergência. Sua filha estava sofrendo uma hemorragia, pois perdeu muito sangue, o que dificultou bastante a situação. — Começo a chorar. Sinto a mão da Márcia apertar a minha. — A cirurgia durou 3 horas, tivemos que limpar bem o machucado com cuidado, porque se trata de uma criança. Ela levou 7 pontos na cabeça, e, graças a Deus, está fora de perigo, mas ainda está fraca e com um pouco de febre. Isso é normal. — Um alívio se instala na minha alma.

Isabella: Posso visitá-la?

Médico: Sim, pode. Mas deve ter cuidado, porque ela não pode se esforçar. Precisa tomar remédios quando sentir dor, deve evitar esforços, principalmente na região da nuca e por conta do seu problema de respiração. A Bárbara sofre de asma, vou passar alguns remédios para isso.

Eu já desconfiava disso, até cheguei a levar ela ao médico, mas disseram que era apenas fadiga.

Depois de conversar com o médico, saí da sala destruída por tudo o que ouvi, mas aliviada por saber que minha princesa não corre mais perigo. Ela ficará internada por uma semana na UTI e, depois, receberá alta quando estiver totalmente curada.

Márcia ficou na sala de espera enquanto eu fui ver a minha filha. Assim que vi o quarto nº 34, meu coração bateu forte, não queria vê-la naquela situação. Abri a porta do quarto e meus olhos se encheram de lágrimas. Senti um aperto no peito e mal conseguia respirar. Bárbara estava com um grande curativo na cabeça, só dava para ver as pontas dos seus cabelos. Ela mantinha os olhos fechados, e seu rosto estava vermelho. Ela havia chorado.

Caminhei em passos lentos até a cama, tentando segurar o choro. Ela é um anjo, ama sorrir, não merecia tudo aquilo! Mas prometi a mim mesma que, quando ela saísse do hospital, tudo seria diferente. Eu não tinha mais nada a perder.

Isabella: Ó, meu amor, desculpa a mamãe... — Me sento à beira da cama e pego suas mãos pequenas. — Eu gostaria de ter feito tudo diferente, de ter criado você em um ambiente de paz e amor, mas não tive coragem de fugir! Fiquei sem chão quando vi você com os olhos fechados. Senti falta do brilho do seu olhar. — Fungando. — Mas a mamãe promete de dedinhos que tudo será diferente a partir de hoje. Vou cuidar de você e dedicar meu tempo a você. — Digo, como se ela entendesse tudo aquilo.

Bárbara começa a abrir os olhos devagarinho. Assim que me vê, abre um sorriso lindo, o sorriso que só ela tem.

Bárbara: Por que tá chorando, mamãe?

Só de ouvir sua voz, a tristeza e o fracasso desapareceram instantaneamente.

Não digo nada, apenas pego sua mão delicadamente e beijo sua mão.

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora