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Wesley narrando...
Já era por volta da meia-noite quando decidi encerrar o churrasco. A fumaça pairava no ar como um resto de euforia, e as vozes, antes tantas, se calavam aos poucos. A maioria já havia ido embora. Restavam apenas os moleques, Juliana e minha prima, jogados pelos cantos como sobras de uma noite que já não prometia mais nada.
No andar de cima, Bárbara e Ágata dormiam. Isabella, no entanto, estava na cozinha — sozinha, calada, afastada. Havia algo no jeito dela, uma espécie de silêncio denso, feito de coisas não ditas. Um incômodo que eu não sabia nomear.
Na sala, a conversa girava em torno de Kevin. Ele falava de Thayane com os olhos em brasa e a culpa latejando por dentro. Tinha batido nela, a expulsado da favela diante de todos. Agora, arrependido, se agarrava ao próprio desespero.
— Vocês não entendem — disse ele, com a voz baixa, quebrada. — A Thayane é a mulher da minha vida. Sem ela, tudo perde o sentido. Mas ela teve que deitar com aquele desgraçado...
— Tu ainda insiste nisso? — perguntei, cansado. — Vai correr atrás de quem te traiu? Se respeita.
— Logo tu falando, né? — rebateu ele, com uma ironia seca. — Dois dias atrás dizia que mulher nenhuma te derrubava. Hoje quase quebrou o GH só porque elogiou a Isabella.
— Não fala do que tu não sabe — respondi, tentando disfarçar o incômodo. Me ajeitei no sofá.
— Tá escrito na tua cara — disse Yuri, sorrindo. — Tu tá na dela.
Eu não respondi. Era verdade. Isabella me atravessava por dentro. Tinha uma calma que me feria, uma força que me puxava pra fora de mim. Ela merecia outro homem. Alguém limpo, longe do sangue, do risco, da vida que eu levo. Mas se ainda assim quisesse ficar, eu não seria quem a afastaria.
Márcia se levantou e foi com Juliana até a cozinha. A sala silenciou por um instante. Então falei:
— Localizamos o Rodrigo. Tá escondido no morro do Acari. Rael tirou ele do galpão.
— Mas como, se tinha uma porção de moleque vigiando? — questionou KP, franzindo a testa. — E por que o Rael se meteria nisso? O que ele ganha protegendo o Rodrigo?
— Isso ainda não sei — respondi. — Mas vou descobrir.
— Tem que pegar esse filho da puta — comentou Kaique, com a voz baixa e firme. — Marcar ele de perto. Se vacilar, foge de novo.
— Amanhã mesmo vou checar todas as câmeras de segurança. Alguma coisa vai aparecer. Ele com certeza foi filmado de algum ponto. Mas vamos ter que invadir aquele morro. Rael vai me pagar por isso.
— A gente não pode invadir assim, de qualquer jeito — disse Yuri, ponderando com calma. — Da última vez perdemos gente. Foi prejuízo. Isso precisa de planejamento.
— O Yuri tem razão — acrescentou KP, com um leve aceno de cabeça.
— Eu não tô ligando pra isso — falei, sentindo a raiva crescer dentro de mim. — Se tiver que pegar geral e meter bala, eu faço. Cansado dessa palhaçada.
— Só não esquece da mercadoria — alertou Yuri, olhando diretamente nos meus olhos. — Daqui a dois dias, ela chega, nada pode dar errado. Nem polícia, nem rival pode saber. Tudo tem que correr em silêncio absoluto.
Aquela carga era coisa grande. Grande mesmo. Meio milhão em maconha, cocaína e heroína, vinda direto da Colômbia. Cento e quarenta e sete munições. Duzentas e quarenta armas pesadas.
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Meu Novo Recomeçar
Teen FictionIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
