Isabella narrando...
Era sexta-feira, e mesmo sem saber o motivo, parecia que eu tinha esperado a semana inteira por esse dia, embora fosse apenas mais um dia comum, sem nada de especial.
Já passavam das 20:00 e eu estava dando banho na Bárbara. Era o terceiro do dia, porque essa menina não se cansa de mexer em tudo que vê, nem se preocupa com sujeira. Fico impressionada com a energia dela.
— Bárbara, para de mexer a cabeça, senão não vou conseguir tirar esses nós! — tento pentear os cabelos dela com cuidado.
Bárbara tem o cabelo igual ao meu, mas com um detalhe: os meus cachos são mais definidos, menores e com mais volume. Preciso cuidar para que não embolem, passar os produtos certos para não ficarem presos, mas ela não está nem aí. Na hora do banho, me olha com aquele olhar de arrependimento.
Minutos depois, a tiro do banho e a visto no seu pijama da Minnie, e a mando colocar os chinelos.
— Vamos comer, vem — ela me segura pelas mãos e descemos para a sala de jantar.
O jantar de hoje era feijoada preta com arroz, tapioca e salada. Foi a Paula quem preparou. Ela trabalha como babá, mas adora cozinhar. Sabe fazer a comida com carinho.
Todos já estavam à mesa, só faltavam eu e a Bárbara. Márcia estava com uma espécie de sacola na cabeça, uma máscara para hidratar o cabelo, porque iria ao baile. Na favela, toda sexta e sábado o baile rola — são os dias mais agitados e barulhentos da semana.
— Mamãe, ó a titia Márcia! — Bárbara diz, rindo e apontando para a tia.
— Tu me respeita, pingo de gente! — Márcia responde, mostrando a língua para a minha filha, enquanto tenta fazer o papel de durona. Mas Bárbara, com aquele jeito de criança, nem ligou.
Eu comecei a servir a comida no prato de Bárbara e, em seguida, me servi. Wesley estava do outro lado da mesa, com a filha nos braços, como sempre. Paula estava lavando os pratos.
Cortei a carne para a Bárbara e comecei a comer em silêncio, enquanto Márcia falava sobre o que iria vestir para o baile.
— Tu não vem? — Márcia perguntou.
— Não, não quero ir. Estou super cansada, e não sou muito fã de baile — respondi, tentando não parecer rude, mas também não queria me expor. O olhar de Wesley sobre mim era frio, e senti um calafrio quando nossos olhos se cruzaram.
Meu corpo se arrepiou. Aquele olhar... Eu sabia que ele não gostava de mim e muito menos da minha filha. Ele podia ser educado na superfície, mas o fundo do olhar dele não mentia. A sensação era a de estar sendo observada por uma fera. Rapidamente, ele desviou o olhar e voltou a se concentrar em Ágata, como se nada tivesse acontecido.
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Já passava da madrugada, e o som da música do baile ainda ecoava pela casa. O funk proibido estava tão alto que parecia que o chão tremia. Wesley e Márcia já tinham saído fazia tempo.
Márcia estava linda, ousada como sempre. Tinha uma beleza rara, um corpo que muitos invejariam. Confesso que até eu sentia uma pontinha de inveja. Meu desejo era ter pelo menos metade dos seus seios... Mas, bem, quem não tem o que fazer, inveja o que não pode ter.
Ouvi batidas na porta do meu quarto. Me cobri até a cintura e mandei entrar.
— Já estou indo, e a Ágata está dormindo — Paula disse, com um ar de cansaço. — Queria pedir um favorzinho.
Apoiei as mãos na cama e me impulsionei para sentar.
— Pode falar — disse.
— Sei que o Wesley deixou claro que não quer que ninguém se aproxime da Ágata, mas... se você puder ficar de olho nela durante a madrugada, seria grata. Ela sempre acorda querendo a mamadeira.
Eu balancei a cabeça em sinal negativo, sem querer me envolver.
— Eu não quero arrumar problemas com ele, Paula. O Wesley deixou claro que não quer nem eu nem minha filha perto dela — expliquei, embora, no fundo, não me custaria nada dar uma mãozinha.
Se o Wesley fosse mais gentil, mais razoável, talvez eu nem pensasse duas vezes. Ágata é tão doce, uma fofura. Não entendo como alguém tão frio e distante pode ser pai de uma criança tão maravilhosa.
Paula suspirou profundamente.
— Entendo, mas... Por favor, se puder...
— Não, Paula. Não vou fazer isso — respondi, agora firme. Eu sabia que isso poderia me trazer problemas. Wesley tem um olhar gélido, e eu sou só uma visitante na casa dele. Márcia, minha filha e eu estamos sob a proteção dele, e, para um traficante, ele tem sido mais generoso do que seria de se esperar.
Paula olhou para mim por um momento e então deu um longo suspiro.
— Vou indo... Boa noite — ela disse, e fechou a porta atrás de si.
Eu voltei a me deitar, mas não consegui dormir. Fiquei deitada, em silêncio, escutando a música, pensando no que tinha acontecido. Por mais que tentasse me convencer a descansar, algo me inquietava.
⸻
Fui acordada por um choro fino e alto vindo do quarto da Ágata. Não era só um choro, era um grito. Olhei para o lado e vi Bárbara dormindo com o dedo na boca. Olhei para o relógio no criado-mudo: 04:30. Esperei alguns minutos, na esperança de que o choro parasse ou que Wesley fosse até o quarto dela, mas o choro só piorou.
💬 Deus me proteja das garras do diabo 💬
Bufei, inconformada por ter que quebrar minha promessa de não me meter mais com a pequena. Saí do quarto descalça, vestindo uma camisa de dormir e uma cueca box feminina.
Respirei fundo três vezes antes de entrar no quarto da Ágata. O ambiente estava calmo, o berço dela no canto esquerdo, e o quarto era um verdadeiro conto de fadas. Ele é frio e distante, mas, no fundo, é claro que ele cuida bem dela.
Seu rostinho estava vermelho de tanto chorar, e ela parecia se engasgar com o próprio vômito. Sem hesitar, a tirei do berço e comecei a bater suavemente nas suas costas até que o choro parasse.
Afastando o rosto dela do meu ombro, encarei sua face: uma belezura. Algo me irritou profundamente — como Wesley pode ser tão irresponsável? Deixar uma criança de 1 mês sozinha enquanto vai curtir um baile? Faltava juízo.
Tirei as roupas dela e preparei um banho morninho. Ela não merecia ficar suja. Minutos depois, a enrolei na toalha rosa e branca e fui até o armário para escolher um body confortável para ela.
Ela me observava com atenção enquanto eu cuidava de tudo.
Desci para a cozinha, com Ágata nos meus braços, e preparei a mamadeira. Ela já não chorava mais, agora brincava com meu colar de ouro enquanto eu esquentava o leite. Depois, comecei a dar a mamadeira para ela.
Quando ela terminou, fiz ela arrotar e a deitei novamente nos meus braços. Balanciei para lá e para cá até ela pegar no sono.
Foi quando escutei a porta da rua se fechar, seguida de alguns barulhos vindo da sala. Por um segundo, minha respiração travou, mas logo voltou ao normal.
Boa noite povo 😍
Vamo ⭐ e 💬?
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Meu Novo Recomeçar
Genç KurguIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
