Capítulo 3

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Isabella narrando...

Meus dias não foram fáceis. Minha rotina, antes cheia de sonhos e planos, agora se resumia a hospital e exames. Apenas à tarde eu ia à casa dos pais da Márcia, trocava de roupa e logo corria de volta ao hospital.

Em momento algum deixei minha filha sozinha. Acompanhei cada passo de sua recuperação. Era angustiante ver minha menina, com apenas 4 anos, sendo cercada por médicos e enfermeiras todos os dias. Ela chorava, ora de medo, ora de dor. A cicatriz na sua cabeça ainda não havia se fechado por completo, e só uma mãe sabe o quanto é doloroso ver a própria filha sofrer.

Mas hoje, graças a Deus, ela finalmente teria alta. Ao fim da tarde, poderia descansar um pouco, e Bárbara, finalmente, teria paz.

Naquela manhã, acordei cedo. O sol mal havia aparecido, e eu já estava a caminho de minha antiga casa – uma casa que agora não era mais meu lar, e eu esperava jamais voltar a ser. Esperei que Rodrigo saísse para o trabalho e, com o coração apertado, subi. Se eu cruzasse com ele ali, não sabia quem sairia vivo dessa história. Eu ainda me consumia com a raiva de não ter recebido nenhuma notícia dele, nem para saber como a filha dele estava. Aquilo me deixava ainda mais furiosa, pois me mostrava que ele não se arrependia de nada.

Rodrigo... Ele era o homem de poder e riqueza, herdeiro das três lojas de joias mais caras do Brasil, advogado respeitado. Nos conhecemos quando eu ainda trabalhava na lanchonete à noite. Todas as tardes, ele e seus amigos vinham, sempre no mesmo horário, e eu, com minha rotina repetitiva, fazia quase os mesmos pedidos. Ele sempre teve seu charme inegável. Seu corpo fazia derreter qualquer mulher, e eu, uma jovem simples, acabei me apaixonando cegamente por ele. Mas eu não sabia que, por trás daquele homem, havia um monstro.

Ele me fez acreditar no amor, me fez sentir coisas que eu nunca imaginara que uma mulher poderia sentir. Jantávamos juntos, trocávamos flores, chocolates, promessas e vivíamos noites de amor. Eu acreditava, de verdade, que vivia um conto de fadas. Aprendi a ser uma Isabella mais exigente, a viver intensamente. Mas, como diz o ditado, a alegria do pobre dura pouco.

Com o tempo, Rodrigo começou a mostrar sinais de violência, ciúmes e agressividade. Tudo mudou do dia para a noite. Depois de um ano de relacionamento, me mudei para a casa dele, com a esperança de que algo mudaria. Mas tudo só piorou. Com ele, eu conheci o inferno.

As agressões começaram, e eu suportava, acreditando que nada poderia ser pior. Até o dia em que fui violentada por ele. Mesmo sendo sua namorada, me senti um lixo, me senti usada, repugnante ao ponto de não conseguir me olhar no espelho. A depressão tomou conta de mim. Ele destruiu minha vida.

A única coisa boa dessa história foi a minha filha, Bárbara. Eu acreditava que com a vinda dela, ele mudaria, mas ele se tornou ainda mais cruel.

Você deve estar se perguntando: por que não denunciei? A resposta é simples: em um país onde um advogado respeitado tem mais voz que uma mulher comum, quem acreditaria em mim?

Revirei a casa, peguei minhas roupas e as de Bárbara, colocando tudo em uma mala. Procurei nossos passaportes e documentos necessários. Olhei para a aliança de compromisso que ele me deu e, com um último suspiro de coragem, a deixei sobre o criado-mudo. A partir daquele momento, eu não era mais casada. Era uma mulher livre, leve e decidida a fazer tudo por minha filha

...

Com as roupinhas de Bárbara, que ela usou durante o tempo no hospital, colocadas na mochila da Dora, o médico entrou no quarto e sorriu gentilmente.

– Aqui está o papel de alta da Bárbara – disse ele, entregando-me o documento. – E esses são os remédios que ela precisará tomar durante um mês. Um deles é só em caso de dor de cabeça, anotei isso ao lado. – Ele fez uma pausa, como se buscasse palavras de conforto.

– Muito obrigada, doutor – respondi, com a voz embargada, enquanto ele assentia e se retirava.

Saímos do hospital de mãos dadas. Bárbara caminhava à minha frente, sorrindo para todos, mas também reclamando da fome. Nem parecia que, por dentro e por fora, ela ainda carregava marcas profundas da violência. A cabeça dela estava envolta por uma faixa e seu rosto ainda exibia hematomas, mas, de alguma forma, ela já havia melhorado consideravelmente.

– Mamãe – ela parou e me olhou com os olhos cheios de vida, como se o mundo fosse novo, como se nada tivesse acontecido.

– Fala, meu amor – respondi, agachando-me para ficar na altura dela.

– Eu não quero ver o bicho-papão – ela disse, referindo-se a Rodrigo, com uma expressão de medo, e aquilo me perfurou o coração. Ela sabia, de alguma forma, o que ele nos causou.

Senti uma pontada forte no peito. A dor de saber que minha filha estava traumatizada, de que ela cresceu vendo sua mãe ser agredida e tendo um pai que não valia nada, um covarde, me esmagava. Mas prometi a mim mesma, e a ela, que nunca mais permitiria que ninguém nos fizesse mal.

– Não se preocupe, meu bem, o bicho-papão não existe mais – disse, com a voz firme, embora por dentro me sentisse fragilizada. – Agora, vamos ser eu, você e a titia Márcia.

Os olhos dela brilharam.

– Titia Márcia sempre rouba meus doces! – fez um bico, e eu não consegui segurar a risada.

– Ela está de regime, filha, nada de chocolates e sorvetes por enquanto – brinquei, tentando suavizar a tensão.

E, embora o caminho à frente ainda fosse incerto, aquele momento parecia ser o começo de um novo capítulo. Um capítulo onde, finalmente, eu poderia ser a mãe que Bárbara merecia, e onde a liberdade seria nossa companheira.

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