Capítulo 37

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Wesley narrando...

Ali, sentado no sofá empoeirado, o fumo denso do baseado se elevava em arabescos diante dos meus olhos absortos quando a porta rangeu, abrindo-se com estridência.

— Acha que isso aqui é capela, irmão? — arrojei, mas ele nem ao menos ergueu o rosto.

Matheus permaneceu em pé, os punhos cerrados como esculturas de inquietação.

— Você anda tão pensativo, oscilante e distante... Vai me dizer que virou viado? — perguntou, a voz retumbando no ar carregado de fumaça.

Ergui o dedo médio num gesto de desprezo refinado.

— Criatura é quem devasta a própria família. Agora, se orienta — resmunguei, o tom frio como lâmina.

Ele escancarou um sorriso irônico.

— Ora, chefia, se estressou à toa... Mas, pra constar, meu apreço não é pelo mesmo gênero — disse, com risinho solto — prefiro o feminino, se é que me entende.

Mantive-me em silêncio, acendendo mais um trago, deixando o calor do baseado queimar até a brasa. Fechei os olhos e as memórias me abraçaram: aquela noite febril com a menina dos olhos de fogo, o suor misturado ao prazer intenso, os seios firmes moldando minha boca enquanto ela arquejava de desejo. Nunca vira mulher tão habilidosa em desenhar sussurros de êxtase — sua pele, um convite, e eu, um devoto em prece carnal. Saí dali exausto, mas livre de qualquer promessa.

Ao romper da madrugada, deixei Matheus no comando da favela e lancei-me ao asfalto para ritualizar o resgate dos quatrocentos milhões. Reencontrei cada centavo que me pertencia nas biqueiras que gerencio, mostrando aos acomodados que aqui não há caridade. Em seguida, ronquei o motor em direção ao ponto combinado com QM, um charco de silêncio onde a traição se esconde.

Quando parei em frente ao carro dele, fiz piscar as lanternas duas vezes — sinal de quem detém o volante. Quatro Molas desceu, porém o saco de dinheiro não o acompanhava.

— Beleza, WL — murmurou ele, coçando o queixo com nervosismo — esconde­-sei a grana na velha casa no matagal. Do jeito que saí da cidade, uma viatura me pegou de raspão; tive de tomar cuidado, afinal, são quatrocentos milhões.

Percebi, então, que a paciência, este fio tênue, chegara ao limite. Voltei-me devagar, a voz baixa ganhando ares de ameaça velada:

— Para com esse papo, QM. Nunca ninguém te seguiu — pisquei com desdém —. Mostra logo o dinheiro ou some.

Ele engoliu seco, apoiando-se no capô.

— Pô, deu um mal-estar... Vou buscar já, espera aqui — disse, retirando-se em direção ao mato.

Abri a porta do carro, deslizei a mão pela cintura e peguei minha .40 e o canivete, guardando-os discretamente, enquanto os olhos seguiam cada passo dele em meio à penumbra.

A trilha serpenteava pela mata, engolida por sombras densas e o silêncio tenso da madrugada. Quatro Molas tagarelava como se buscasse na própria voz um escudo, mas cada gesto seu era uma denúncia: coçava a barba sem parar, espiava os arredores com olhos inquietos, assobiava sem ritmo, batia as palmas nas coxas como se tentasse dispersar o nervosismo. Eu permanecia calado, olhos atentos aos movimentos — o corpo dele falava mais do que a boca.

Já próximos da tal casa abandonada, ele parou de súbito. Curvou-se, as mãos pressionando o abdômen, e soltou um grunhido rouco de dor.

— Pó pera aí, me deu uma dor no estômago, vontade de vomitar...

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora