Capítulo 74

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Wesley narrando...

Faltava apenas um dia para o aniversário de minha filha. Bárbara irradiava uma felicidade difícil de conter — ia completar cinco anos, e sua empolgação era tamanha que contagiava até os mais cansados. Ajudava a mãe nos preparativos com uma dedicação encantadora, entre fitas e laços de princesa, enquanto se divertia estourando balões e roubando doces da cozinha quando ninguém olhava.

A casa estava tomada por uma movimentação vibrante. Vozes ecoavam do andar de cima, risos se misturavam à música que saía do rádio antigo, e cada canto parecia pulsar com a antecipação da festa. Todos estavam ocupados, todos conversavam, mas eu... Eu permanecia em silêncio, recolhido na sombra de mim mesmo, como se aquilo tudo me atravessasse sem me tocar.

Isabella e eu discutimos diversas vezes por isso. Ela me pressionava com perguntas, tentava invadir o meu silêncio com a insistência de quem ama e teme. Mas eu não queria falar. E esse meu silêncio virou abismo entre nós. Foram três dias de distância, de olhares desviados e corpos que dormiam juntos, mas não se tocavam. Só voltamos quando um de nós cedeu — como sempre acontecia.

Ela desconfia. Sente a ausência que cresce dentro de mim, o vazio que me distancia até mesmo do que mais amo. Quer entender o que estou escondendo, mas não posso dizer. E não é por covardia. É porque eu conheço a mulher que tenho. Isabella, quando tranquila, é ternura em forma de gente. Mas, quando perde o eixo, torna-se tempestade. E se soubesse do que está por vir, tentaria impedir com a própria vida.

Como dizer a ela que, dentro de vinte e quatro horas, talvez eu já não esteja mais aqui?

A iminência da morte não me assusta. Já a conheci de perto, já dancei com ela pelas vielas da favela. Não temo por mim. O que me inquieta é a possibilidade de deixá-los — ela e as crianças — desprotegidos. São eles o que me resta de humano. E jurei, diante de Deus e de mim mesmo, que ninguém os tocaria. Quem ousasse, pagaria com a vida.

A dor não vinha da ameaça em si, mas da decepção. Nosso relacionamento estava sólido, enfim limpo das mentiras e das interferências. Estávamos construindo uma história com bases firmes. Mas o Comando não perdoa. Mesmo conhecendo toda a verdade, escolheram me culpar. Alegaram que eu deveria ter previsto o golpe, que me faltou malícia, que fui um ingênuo. E, por mais que doesse, eu sabia que havia verdade nisso.

Matheus — aquele que eu chamei de irmão — foi quem me traiu. Ele que caminhou ao meu lado nos primeiros passos dentro do tráfico. Me apresentou ao Chapadão, aos homens que hoje me cobram explicações. Nunca imaginei que, um dia, ele fosse invejar meu progresso. Mas é sempre assim: quando o parceiro vê você com um pouco mais, com algo que ele não tem — mesmo sem saber o quanto você sangrou por aquilo — ele se transforma. E te destrói por dentro.

Naquela noite, entrei na cozinha sem fazer barulho. Isabella estava de costas, bebendo água. Vestia uma camiseta minha — uma verde escura, larga, que em seu corpo se tornava quase um vestido. Estávamos sozinhos. As meninas haviam dormido na casa de minha prima, e aquele silêncio raro me deu a certeza de que, se fosse a última vez, eu queria que ela se lembrasse do toque e não da ausência.

Aproximei-me devagar, com passos silenciosos. Encostei meu corpo ao dela, enlaçando com cuidado seus braços e repousando minhas mãos sobre sua barriga que já se desenhava cheia. Seu corpo estremeceu ao sentir minha presença, e o copo escorregou de seus dedos, estilhaçando-se no chão como um sinal.

— Desgraçado... filho da puta — murmurou entre um riso nervoso e um suspiro — Vai assustar sua tia, Wesley — completou, com a mão sobre o peito.

— Está devendo pra quem, preta? — sussurrei, sorrindo de lado ao me aproximar mais.

— Pro seu pau, seu idiota — respondeu, fingindo uma braveza que seus olhos não sustentavam — Você sabe que eu odeio quando chega assim, feito sombra.

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora