Capítulo 70

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Isabella narrando...

Despertei com uma dor aguda e persistente na parte inferior do abdômen. A madrugada fora implacável — não consegui fechar os olhos devido às falsas contrações que me atormentavam como ondas traiçoeiras. Só consegui adormecer brevemente ao romper da manhã, mas o pouco de sono não bastou.

Meu garotinho tampouco colaborou. Passou a noite inteira a se mover dentro de mim com energia e propósito, como se brincasse de me provocar, como costuma brincar Márcia. Só encontra calma quando o pai repousa a mão sobre minha barriga — é nesses momentos que ele parece reconhecer uma presença, uma paz.

Acariciei minha barriga com as unhas, desenhando leves círculos, e, em resposta, três pequenos chutes. Um sorriso escapou-me pelo canto dos lábios. Levantei-me com cautela, como quem carrega um tesouro precioso — estou no sétimo mês de gravidez, e a qualquer movimento, há um mundo inteiro que se desloca dentro de mim.

Peguei o celular sobre o criado-mudo. Eram sete e meia da manhã. Precisava despertar Bárbara para a escola, mas antes disso, troquei algumas mensagens com Wesley. Estamos há dois dias sem nos vermos. Ele se envolveu com questões delicadas da gerência do morro e teve de permanecer por lá. Não o cobrei. Não insinuei deslealdade. Confio no homem que escolhi. Escrevi apenas para saber como estava, se precisava de algo.

Caminhei até o banheiro, cumpri os rituais da manhã e tomei um banho morno, tentando devolver leveza ao corpo que já começava a pesar mais do que o habitual.

Enrolada na toalha, fui até o armário. Escolhi uma calcinha violeta e vesti. Em seguida, tomei para mim uma blusa de Wesley e uma de suas calças de fato de treino — o conforto, mais do que nunca, tornou-se prioridade.

Saí do quarto, conferi se as meninas estavam bem e fui à cozinha preparar o desjejum delas.

Foi decisão de Wesley tirar Ágata do morro e trazê-la para viver conosco. A presença dela na nossa casa é paga com o dinheiro que consegui economizar com esforço — ele até quis contribuir, mas recusei. Os tempos em que vivia de "favor", por não conhecer nada e estar em fuga de um ex-companheiro psicopata, ficaram para trás. Hoje, olho ao redor e sei que tudo ao meu redor foi conquistado com o suor do meu corpo e da minha coragem.

Preparei a refeição com carinho e, logo em seguida, fui acordar Bárbara, depois Ágata.

Enquanto Bárbara tomava seu banho, eu dava banho em Ágata. Vesti-a com delicadeza e prendi seus cabelos em dois pequenos coques — o famoso "Maria Chiquinha" que tantas crianças usam com encanto. Retornei então à cozinha.

— Bárbara, já calçou os sapatos? — chamei, da porta.

— Estou passando batom — respondeu, trocando as palavras em sua doce linguagem infantil.

— Deixa o papai saber disso — brinquei, sorrindo —. Venha comer logo, senão vamos nos atrasar.

Seu "batom" era, na verdade, um simples hidratante labial que Juliana lhe comprara no dia anterior. Na minha época, bastava um pouco de cuspe ou creme dental da Tandy e nos sentíamos prontas.

— Estou pronta, mamãe! — anunciou, fazendo pose na entrada da cozinha.

— Que princesa linda é essa, meu Deus! — exclamei, e ela sorriu, orgulhosa. — A maninha está linda também, não está, Ágata?

Ágata sorriu e bateu palminhas, tentando articular suas primeiras palavras.

Enquanto Bárbara se sentava para comer, comecei a alimentar Ágata com a papa. Quando o relógio marcou oito e vinte, saímos de casa. A escola de Bárbara ficava logo em frente ao nosso apartamento — uma benção para quem carrega uma barriga que já não permite grandes deslocamentos.

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora