Não sei porquê, mas o abracei. O deixei chorar em meu ombro e acariciei seu cabelo enquanto ele soluçava. Aquilo era estranho, mas... Eu senti que era o único que poderia confortá-lo. Mesmo que ele tenha me ferido tanto, naquele momento eu não o odiava mais. Na verdade, vê-lo se agarrar a mim enquanto chorava me deixou... Contente. Eu finalmente tinha alguém que precisava de mim ao invés de ser aquele que precisava de alguém, e isso era satisfatório.
- Você está livre agora. - Falei, olhando em seus olhos.
- Estou...? Então por que dói tanto?
- Não sei. Porque você a amava, talvez?
- Não, eu não acho que seja isso...! - Me empurrou, esfregando o rosto. - Ainda tenho medo, ainda acho que ela vai sair daquele quarto e surtar ao nos ver tão próximos... Mesmo que a gente não tenha nada, eu não conseguiria explicar. Ela te mandaria embora e então me espancaria com qualquer coisa que visse pela frente, ou talvez mijaria na cama só pra eu ter o trabalho de limpar.
- Ei. - Coloquei minha mão em seu ombro. - Ela não vai fazer isso. Eu sei que é difícil, você se livra das correntes mas as cicatrizes não desaparecem. - Sim, eu sabia bem. Tive tempo pra refletir sobre o meu passado.
A chegada à idade adulta me trouxe um medo descomunal. Não lembrava de detalhes mas sabia que as minhas experiências fora do orfanato enquanto adolescente haviam sido péssimas. Mesmo que lá dentro também fosse terrível, era algo que eu já estava acostumado e nem mesmo enxergava na época o quão ruim aquilo era. O que esperava por mim lá fora?
Por isso, me inscrevi para o seminário. Ao estudar pra ser padre, eu não precisava sair de lá. Mas não durou muito tempo, sempre tive a sensação de que Deus jamais me aceitaria. Por isso, quando uns amigos do orfanato que haviam saído antes de mim se ofereceram para me ajudar a me estabilizar fora de lá, eu larguei o seminário ainda no segundo mês.
E assim, finalmente aprendi sobre o mundo além daqueles muros. Levou um tempo, mas eventualmente entendi que o que vivi lá dentro não era certo, que haviam abusado de mim, então senti ódio. Não aguentei mais ficar perto daquele lugar, ou mesmo de qualquer coisa que me lembrasse do meu passado, por isso me mudei para o Texas.
Ainda assim, não conseguia me relacionar bem com as pessoas. Eu saía com alguns caras mas ainda me punia por fazer isso, e ganhei 50 quilos em seis meses porque eu comia demais pra compensar o vazio dentro de mim, e logo nenhum cara se interessava mais por alguém como eu. Em certo ponto, me senti tão miserável que realmente pensei em voltar, mas então... Conheci Grayson. Ele me mostrou o que eu realmente queria viver e me amou apesar das cicatrizes, das crises, do meu peso e dos outros problemas. Ao menos, foi o que pensei.
Como achei que havia finalmente me encontrado, voltei a ter contato com os meus velhos amigos pois queria ajudá-los, eu sabia que eles precisavam ser livres tanto quanto eu, e já que eles haviam sido tão bons comigo eu queria ser bom pra eles também. Mas Grayson detestou aquilo. Ele sempre reclamava comigo, mas... Na frente dos outros, fingia ser um cara legal. Eu não conseguia entender, mas já havia aprendido a amar e aceitar pessoas hipócritas. Por isso, o amei. O amei, e passei a depender dele e de mais ninguém, até que... Ele se sentiu sufocado.
Eu já havia pedido diversas vezes para morarmos juntos mas ele nunca havia aceitado, mesmo que meu apartamento fosse apenas um lugar onde eu guardava as minhas coisas pois passava a maior parte do tempo com ele. Aquilo durou até ele dizer que teria que passar dois meses no Canadá por causa do trabalho. Eu me senti péssimo. Chorei tanto, o que aconteceria comigo quando ele fosse embora? Quem ia cuidar de mim? Quem iria estar lá pra me amar? Aquela foi a minha pior crise desde que o conheci, e pra tentar fazer eu me sentir melhor ele prometeu que moraríamos juntos quando voltasse... Mas então, depois de ir embora ele...
VOCÊ ESTÁ LENDO
Sawdust
HorrorApós afogar as mágoas na bebida por conta do término de seu namoro, Elliot Taylor acorda nu em uma oficina de marcenaria. Ele tenta lembrar o que aconteceu e, ao conhecer o belíssimo marceneiro, tira a conclusão de que dormiu com ele na noite anteri...
