Ao olhar para a enorme quantidade de subpastas, uma para cada ano da minha estadia no orfanato, decidi começar do começo. Afinal, passei doze anos sob os cuidados deles e não tinha ideia de quais poderiam ter alguma importância. Então comecei por lá, pelo ano em que ingressei naquele lugar.
Fui encontrado no deserto, o carro do meu pai havia caído de um penhasco, próximo a uma estrada de terra e longe das rotas principais. O único motivo para terem me localizado foi o mesmo que me levou àquela situação: Meu pai estava fugindo da polícia por conta de uma acusação de tráfico de drogas. Ele morreu rápido, tendo o pescoço quebrado após ser jogado pela janela. O homem responsável por me tornar órfão provavelmente nem havia sentido dor, diferente da minha mãe.
Ela havia sobrevivido por três dias, pendurada dentro do carro, de cabeça pra baixo, com as ferragens mantendo-a no lugar ao atravessar sua barriga. O sangue que caía lentamente daquela ferida foi a única coisa que me ajudou a sobreviver por tanto tempo, mas ela também sofreu uma fratura no crânio que a fez durar menos do que deveria. E então, pelos cinco dias que se seguiram após sua morte, eu não soube o que fazer. Eu era muito pequeno… Não tinha como saber. Mas meu corpo tentou permanecer forte, consegui resistir até finalmente ser encontrado, mas estava tão debilitado que precisei passar seis meses no hospital.
Haviam fotos de como eu estava quando me encontraram. Meu corpo era esquelético, com a barriga inchada e olhos fundos. Meu rosto estava cheio de sangue seco e minhas partes estavam muito sujas, pois eu não tinha mais força o suficiente pra baixar minhas calças e fazer minhas necessidades, e tudo aquilo havia atraído insetos que começaram a consumir a minha carne. Tive infecções severas na bexiga, uretra, intestino, estômago, boca, garganta, pele, em todo lugar. Eu não tinha dentes, eles haviam caído mais cedo pois minha gengiva havia se retraído. Provavelmente cheirava como um cadáver.
Graças a Deus, não conseguia lembrar de nada daquilo. Enquanto eu lia, tive a sensação de ser sobre outra criança, mas isso não significava que aquela dor não estivesse marcada em mim. Os médicos não achavam que eu ia sobreviver, estavam surpresos por ainda estar vivo quando me encontraram, mas eu me recuperei aos poucos. Ainda estava muito magro, mas minha pele parecia mais saudável, meus dentes permanentes começaram a crescer, e logo fui capaz de comer comidas sólidas. Eu podia falar, podia andar, não precisava mais de fraldas, mas não mantive memória alguma sobre o que aconteceu. E assim, recebi alta e fui levado ao orfanato.
Me lembro do banquete de boas vindas, sim. Depois de tanto tempo comendo comida de hospital, aquilo era sensacional, mas depois a minha alimentação passou a ser porcionada. Agora eu tenho consciência de que temos uma nutricionista pra cuidar da dieta das crianças, para que todas estejam saudáveis, mas naquela época eu odiava. Eu costumava roubar comida do prato das outras crianças, e se elas tentassem brigar comigo eu as mordia. Comecei a rir ao ler aquele relato, era a minha cara fazer aquele tipo de coisa.
Parece que tive uma infância normal depois disso… Dentro do que se pode definir como normal para um órfão que assistiu a morte dos próprios pais. Claro, além da compulsão alimentar, eu tinha terrores noturnos, chorava muito e fazia muita pirraça. Mas fora aquilo, era normal. Eles apenas anotaram que eu tendia a socializar mais com as meninas e a brincar com brinquedos de meninas, o que era esperado. Infelizmente, aquele foi o principal motivo pra eu ser rejeitado pelas famílias adotivas. Mas não o único.
Lembro de uma vez, quando estava sob os cuidados de mais uma família católica tradicional. Eles moravam em uma vizinhança tranquila, então eu podia brincar com as crianças na rua. Eu tinha uns dez anos, acho. Os meninos costumavam andar de bicicleta, mas eu não sabia, e mesmo se soubesse não iria com eles. Como de costume, estava brincando de amarelinha com as meninas quando o grupo dos meninos surgiu na colina.
— É melhor a gente ir pra calçada. – Falei, assim que notei os meninos cochichando e rindo. Por ter sido criado com muitas outras crianças, eu tinha uma malícia que elas não tinham. Só de olhar, soube que eles iam aprontar alguma.
— Hein? Por quê? – Mas antes que elas pudessem reagir, eles já haviam nos alcançado, usando a velocidade de suas bicicletas pra levantar as saias das garotas. Elas gritaram, envergonhadas, e eu fiquei puto. Então, quando o último menino passou por mim, o empurrei.
— Ai! – Reclamou, mas se levantou rapidamente e começou a socar meus ombros. – No que você tava pensando, rolha de poço?!
— No que vocês estavam pensando?! Jesus não gosta de meninos que desrespeitam meninas!
— É, e Jesus também não gosta de bichinhas! – Ele me empurrou com mais força, me fazendo perder o equilíbrio, então o segurei pelo calcanhar para fazê-lo cair, pulei em cima dele e começamos a brigar.
Lembro de ter arrancado uma mecha enorme de seu cabelo, e de ter deixado várias mordidas nos braços dele… Daí, fui mandado de volta pro orfanato de novo. E de novo, e de novo… Até que eu nem era mais escolhido, pois passei a ser visto como problemático mesmo que eu só estivesse tentando defender a mim e as pessoas que eu gostava. Então os Neumann apareceram. Mas… Não tinha nada sobre eles no meu arquivo.
Sendo sincero, por mais que fosse estranho, eu não estava surpreso. Sabia que eles tinham comprado o silêncio de todos sobre o que aconteceu, então com certeza não haveriam registros. Mas o que mais me intrigava era a nota na pasta na qual esses registros deveriam ficar:
João 11:25
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Sawdust
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