77 - Viático

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Irmã Janice foi levada para a UTI. Eu tive que voltar em casa pra pegar seu véu, uma bíblia, e colocar meu hábito e depois disso fiquei no hospital, dia e noite, voltando pra casa apenas para tomar banho e trocar de roupa. Acho que foi a primeira vez na vida que perdi meu apetite. Me senti tão culpado… Se não tivéssemos tido aquela discussão, ela provavelmente ainda estaria em casa.

O cheiro dela logo ficou ruim demais pra eu aguentar. A última vez que senti um cheiro tão forte assim foi quando eu assisti o Vigário performar a extrema-unção de um homem que tinha apenas algumas semanas restantes, então eu sabia que ela estava à beira da morte… E acho que ela também sabia.

— Elliot… – Ela chamou, com a voz bem baixa, então eu tive que me aproximar pra poder escutar, mas o cheiro era tão ruim que eu era incapaz de esconder o nojo na minha face. – Quero que performe o viático.

— Não diga isso, você ainda irá viver por bastante tempo.

— Você sabe que não vou. Consegue sentir o cheiro, não? Estou morrendo… – Sim, eu sabia. Só podia rezar por um milagre, mesmo que minha fé estivesse abalada… Espera, eu podia fazer mais do que rezar.

— Não vai, se me deixar te ajudar.

— Não, querido. Já te disse que não quero isso.

— Mas-

— Eu disse que não.

— Por quê?

— Porque eu não quero que meu corpo pertença a alguém além do meu Senhor. Já me dói demais saber que você, junto a outras crianças que eles escolheram usar, não teve essa escolha. Por favor, respeite a minha vontade.

Eu estava em conflito. Dava pra entender do que ela tava falando, e eu não podia trair sua confiança mesmo que ela tivesse traído a minha… Mas eu também entendia o motivo pra ela ter feito aquilo, ela queria me poupar pois eu estava instável. Realmente não parecia que ela havia sido responsável pelo que aconteceu, então eu não podia culpá-la. Estava claro que ela me amava, tanto quanto eu a amava. Eu queria viver, mas não podia deixá-los tê-la também.

Com isso, aceitei seu pedido. Quando ela chegou ao ponto de não conseguir ficar acordada por mais de uma hora, pedi ao Vigário que me trouxesse tudo o que eu precisava. Foi impossível não derramar lágrimas quando ele colocou a estola roxa sobre meus ombros. Não estava pronto para aceitar que a mulher que me abrigou quando meus pais morreram, que cuidou de mim e me amou, apesar das minhas falhas, logo seria tirada de mim pra sempre. Eu não conseguia entender… Qual era a intenção de Deus ao decidir que ela teria esse destino?

— Tem certeza de que está pronto, Padre Elliot? – O Vigário perguntou, dando tapinhas nos meus ombros.

— Ela quer que seja eu, então irei fazê-lo.

— Certo… – Podia ver em seu rosto o quanto ele sentia pena de mim. Após me dar um abraço, colocou minhas mãos entre as dele. – Que Deus conforte seu coração neste momento, Padre. Estarei orando por você.

— Obrigado. – Respirei fundo antes de entrar no leito.

Eu não seria o único lá, é claro. As pessoas mais próximas a ela, como as Irmãs Annemarie e Abigail, duas das crianças, agora adultas, de quem ela cuidou, e o Vigário, também estariam lá, por isso eu precisava me manter forte. Irmã Janice me olhou, e eu pude ver um sorriso por trás da máscara de oxigênio. Ela não conseguia mais falar, mas sua última confissão já havia sido ouvida há alguns dias, então eu coloquei a cruz sobre seu peito e molhei meu dedão com o óleo.

— Que Deus a perdoe por seus pecados. – Falei, ao pousar meu dedão sobre seus olhos. – Por esta santa unção e pela Sua infinita misericórdia… – Minha mão se moveu para suas orelhas, nariz, boca… – …o Senhor venha em teu auxílio com a graça do Espírito Santo… – Então suas mãos e pés. – …para que, liberto dos teus pecados, Ele te salve e, na Sua misericórdia, alivie os teus sofrimentos. – Eu queria chorar, mas todos estavam ali, compartilhando da mesma dor. Precisava me manter forte, era meu dever como padre. – Amém.

Alguns dias depois, ela parou de respirar.

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