Quando voltei pra casa naquela noite, por mais que eu tivesse abalado com o que aconteceu, ainda segui os protocolos. Deixei meus sapatos do lado de fora e corri para o banheiro pra colocar minhas roupas pra lavar e tomar um banho antes de fazer qualquer outra coisa. E assim, deixei as lágrimas caírem junto com a água morna que escorria pelo meu corpo.
É difícil acreditar que eu havia agido daquela forma, neguei um beijo e consegui enxergar sua manipulação pra poder escapar dela. Mas se eu tivesse ficado lá por mais tempo, não sei se acabaria caindo na dele. E eu sinto como se eu não tivesse dito tudo o que precisava dizer, tinha tanta coisa guardada em mim que eu nem conseguia colocar em palavras... E nem sei se devia, na verdade, pois ele encontraria uma forma de me atingir. Ele já fez isso. Owen tinha razão, eu estava vivendo uma mentira mas não via nenhuma saída. Eu não sou mais uma pessoa forte, estou tão cansado...
- Elliot? - Irmã Janice chamou de fora do banheiro, batendo na porta.
- Precisa de alguma coisa? Se quiser usar o banheiro, a porta tá destrancada.
- Não, só queria saber como você estava.
- Estou bem, já vou sair. - Me apressei pra sair logo do banho. Ela estava lá, sentada no sofá e me encarando.
- Não saia do banheiro sem roupa. É inverno, você pode pegar uma gripe. - Era fofo ela dizer aquilo mesmo eu já sendo um adulto... E mesmo sabendo que eu não fico doente.
- Não vou pegar gripe. - Falei, correndo pro quarto.
- Mesmo assim, você não deveria expor seu corpo por muito tempo. Deus está te observando.
- Deus sabe que eu apenas esqueci de separar meu pijama. - Eu estava procurando nas gavetas, mas não conseguia achar. - Onde é que tá?
- Você sempre esquece, então eu coloquei no banheiro. Não viu?
- Não. - Voltei ao banheiro pra poder procurar, mas não encontrei. - Onde você colocou?
- Em cima da máquina de lavar.
- Ah. Achei que estivesse sujo, então botei pra lavar. Vou ter que dormir só de cueca.
- Cubra seu corpo.
- Já tô botando o roupão, por Deus! - Finalmente saí do banheiro e me sentei no sofá ao lado dela. - Ué, quando que a Irmã Annemarie foi embora? Eu não a vi quando cheguei.
- Você estava demorando muito, eu disse a ela que poderia ficar sozinha.
- Mas não deveria! Você não pode ficar sozinha assim, e se precisar de ajuda pra alguma coisa?
- Não precisei. E você chegou logo depois, não teve problema algum.
- Não faça isso de novo, por favor.
- Então não chegue tarde sem avisar. Aliás, por que demorou tanto?
- Eu tive que resolver algumas coisas.
- Tem a ver com o motivo pra você ter chorado no banho?
- O que? Eu não tava chorando!
- É claro que tava, se olhe no espelho!
- Ugh... - Virei o rosto, tentando esconder. - Ai, tô com frio nas pernas.
- Aqui, se cobre. - Ela jogou um cobertor sobre mim, que eu nunca havia visto antes.
- Você que tricotou? É bem quentinho...
- Sim, dá pra usar como cobertor ou capa, é bom nesse inverno.
- Fez pra mim?
- Claro.
- Obrigado.
- Mas não fuja do assunto, por que estava chorando? - Suspirei. Será que eu deveria dizer a verdade? Não, se ela soubesse que o Owen estava vivo, seria um problema.
- Os gatos da colônia... Tem alguém matando eles.
- Desde quando você se importa com animais, Elliot?
- Eu tô me tornando uma pessoa melhor, tá? Eles são criaturas de Deus, assim como nós!
- É melhor parar, você não pode virar vegetariano.
- Eu sei! - Deixei meu corpo cair para o lado, lentamente, pra poder deitar em seu colo. - Mamãe...
- Sua mãe está no céu.
- E você continua sendo minha mãe. - Ela suspirou, sabendo que não poderia me convencer do contrário. - Pode me fazer cafuné?
- Se não quer contar o que aconteceu, tudo bem. - Falou com rispidez, mas seus dedos começaram a acariciar minha cabeça. - Apenas pare de ser um bebezão. - Eu ri, a forma como ela agia era engraçada. Acho que éramos meio parecidos, de certa maneira.
- É que eu estive pensando... Como você diz, Deus me abençoou com a imortalidade, né?
- Sim.
- Mas eu não fui o único a recebê-la.
- Como você pode ter certeza disso?
- O Owen... - Não, era melhor não contar. Não agora, e talvez nunca. - Ele tinha muita informação sobre isso.
- Ah, tem razão.
- Então... Será que ainda é uma benção se a pessoa que recebê-la for má?
- Eu vivo te dizendo, Deus age de maneiras misteriosas. Você foi visto como mau por muitas pessoas, e aposto que ainda é. Mas você mudou, não é?
- Sim, acho que você tem um ponto. - Será que tinha?
Será que eu realmente mudei, ou só estava me escondendo novamente? Será que eu estava vivendo uma mentira, como o Owen disse? Quem eu sou de verdade, afinal...? Não, eu não posso pensar nesse tipo de coisa, foi um dos pensamentos que me fizeram enlouquecer no passado. Apenas ignore. A pessoa que eu sou hoje é quem eu preciso ser, e isso é suficiente.
Quanto ao Owen, será que ele era capaz de mudar pra melhor? Era difícil entendê-lo, pra falar a verdade. Quando eu fiquei trancado em sua oficina ele parecia ser bem mais sério, mas ele estava sob muito estresse naquela época. O vi amolecer um pouco depois da morte de sua mãe, e acho que a forma que ele age agora significa que ele está de bom humor. Bem, ele também havia mostrado esse traço de sua personalidade durante o meu julgamento, mas tudo o que ele disse pareceu tão falso... Sei lá, pensar nisso é muito confuso, mas eu posso estar achando que o conheço quando na verdade não é bem assim.
Mas se tinha uma coisa que parecia genuína, e que não tinha razão pra não ser, foi o que ele disse no dia da execução. Então talvez ele tenha mudado, mesmo que só um pouquinho. Pode ser que ele tenha aprendido sobre sentimentos, e talvez... Talvez ele realmente me ame, mesmo com sua forma torta de amar. Será que esse era o amor que eu sempre procurei...? Mas um relacionamento entre nós dois era impossível.
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Sawdust
TerrorApós afogar as mágoas na bebida por conta do término de seu namoro, Elliot Taylor acorda nu em uma oficina de marcenaria. Ele tenta lembrar o que aconteceu e, ao conhecer o belíssimo marceneiro, tira a conclusão de que dormiu com ele na noite anteri...
