Minha vida ficou muito agitada depois da ordenação. Antes eu nem mesmo me dedicava tanto aos estudos, já que minha criação fez as escrituras ficarem gravadas na minha mente, mas agora eu tinha que passar a maior parte do meu dia no orfanato, onde foi escolhido que eu ficasse por já estar acostumado com o ambiente. O resto do meu tempo era dedicado a cuidar da Irmã Janice, e eu nem podia ter boas noites de sono pois toda vez que ela tossia eu ia ver o que era, mas aquela era uma rotina que eu já vinha tendo há meses.
Devo admitir, quando me disseram que eu teria que ficar no orfanato, fiquei nervoso pois sabia que precisaria entrar na capela, à qual eu vinha evitando por todos esses anos. Mas… Quando finalmente entrei, me senti um idiota. Eu estava evitando aquele lugar por nada, nem mesmo tinha a mesma aparência que eu me lembrava. Parece que fizeram uma reforma, as paredes agora eram brancas ao invés de bege, os bancos foram trocados e até o altar havia sido modernizado. A única coisa que mantiveram foi a cruz.
Eu nem mesmo me senti mal com a sala atrás do altar, que se manteve do mesmo jeito, com exceção das paredes pintadas. A mesma mesa, as mesmas estantes cheias de livros velhos… Alguns eletrônicos, como o computador e a impressora, haviam mudado desde que eu era criança, mas isso era esperado com a evolução da tecnologia.
Eu me lembro que costumava ajoelhar em frente àquela mesa e ler a Bíblia enquanto chicoteava minhas costas. Aquelas memórias me assombraram por anos… Mas agora que voltei a este hábito, sinto que tive uma reação exagerada. Claro, a dor devia ser pior por eu não conseguir me regenerar tão rápido, mas ainda assim… Que estúpido.
E agora, ao invés de me ajoelhar em frente à mesa, estava sentado de frente para o computador, checando os arquivos das crianças que eu tinha que cuidar. Eu era responsável pelas orações e ensinamentos da Palavra para crianças acamadas ou com deficiência, mas era difícil lembrar de todas elas tão rápido, então decidi estudar seus arquivos.
— Diego Santiago, deixa eu ver se lembro… – Minimizei a tela. – Dez anos de idade, Síndrome de Down… – Abri o arquivo novamente para conferir. – Quase, ele tem nove. – Continuei lendo o arquivo, era bem detalhado, apesar de não ter muito sobre aquela criança em particular. Certas crianças, por outro lado, tinham arquivos muito longos, com muitos detalhes, alguns descrevendo as incontáveis vezes que seus pais tentaram reaver a guarda, outros contando sobre como foram parar no sistema.
Algumas tinham histórias muito piores que a minha… Haviam crianças com um histórico de abuso horrendo, coisas que ninguém jamais imaginaria que poderia acontecer com alguém tão indefeso, e tinham fotos de como elas estavam quando chegaram ao orfanato. Havia um bebê com o corpo coberto de feridas… Eu tive que fechar o arquivo dela, pois comecei a chorar tanto que nem conseguia ler. Pra crianças como ela, o orfanato era um paraíso.
Eu só podia rezar para que ela não crescesse traumatizada, além de pedir perdão a Deus pelas vezes que culpei o orfanato pelos meus problemas. Comparado com a maioria daquelas crianças, minha vida não foi tão ruim, mas eu fui ingrato enquanto tudo o que fizeram foi cuidar de mim o melhor que podiam.
Aliás, será que eles ainda mantinham meu arquivo? Será que estava no computador, ou era físico? Talvez, se eu lesse, poderia esclarecer algumas coisas sobre a minha infância, sobre o incidente com os Neumann… Será que eu realmente queria saber daquilo? Será que a minha vida não tava indo bem o suficiente do jeito que tava? Talvez fosse melhor não arrumar problemas… Então eu tentei ignorar aquela vontade. Consegui, por uma semana. Mas aquilo estava me consumindo. Toda vez que eu usava aquele computador, me pegava encarando a pasta com o ano do meu nascimento.
— Ai, Senhor… Será que devo? Bem, Deus não me daria acesso a esses arquivos se não devesse, né? – Cliquei na pasta para abrí-la, mas meu coração estava acelerado. – E se isso for um teste…? – Rolei a página, devagar, hesitantemente procurando pela letra T. Havia apenas uma criança além de mim, nascida no mesmo ano que eu, cujo sobrenome começava com aquela letra, e esta estava antes de mim na ordem alfabética, então eu não tardei a encarar a pasta com meu nome. Soltei o mouse e fiz o sinal da cruz. – Deus, me perdoe se estou caindo em tentação, mas neste momento sou incapaz de discernir se esta é a Tua vontade ou do inimigo. Sei o que ler sobre o meu passado pode me causar, mas também sei que, para me ajudar a não ser mais afetado por ele, devo encará-lo… Assim como Tu me fizeste encarar as memórias atreladas a este lugar. – Com isso, abri a pasta.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Sawdust
TerrorApós afogar as mágoas na bebida por conta do término de seu namoro, Elliot Taylor acorda nu em uma oficina de marcenaria. Ele tenta lembrar o que aconteceu e, ao conhecer o belíssimo marceneiro, tira a conclusão de que dormiu com ele na noite anteri...
