73 - Confiança

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Depois de comer, passei o resto do dia deitado na cama dele, junto com a Jennifer, olhando enquanto ele trabalhava em alguns móveis. Aquilo me trouxe memórias, de quando fiquei em sua oficina. Ainda que eu não estivesse acorrentado, e sabendo que poderia sair a qualquer momento, mesmo com ele lá, as diversas trancas na porta contribuíam para a sensação de estar privado de liberdade.

Mas qual liberdade? Minha vida era uma mentira, eu fui usado esse tempo todo. Não só pelos Neumann, mas pela Igreja também. Eles sabiam o que os Neumann queriam e permitiram que me adotassem… O quanto será que pagaram por mim? Não apenas compraram o meu silêncio sobre o que o filho deles fez comigo, compraram meu corpo inteiro, pois o vírus que carrego é propriedade deles. Me enoja saber que ainda estão me mandando dinheiro, mesmo que eu tivesse pedido pra pararem. Estão me pagando pra ser submisso.

Mas o que mais me doía era o fato de que a Irmã Janice sabia de tudo. Ela me entregou pra eles como se eu fosse gado, deixou que fizessem isso comigo e agora finge se importar… Sim, ela só tá me usando pra ter alguém pra cuidar dela. Não, isso seria terrível, ela não faria isso. Mas mesmo que ela realmente me ame, continua mentindo. Ela continua escondendo isso de mim, dizendo que essa doença é um milagre de Deus, mesmo sabendo que não é. É uma maldição dada pelo próprio demônio, e tais demônios são os Neumann. Todos eles.

Meu coração estava doendo muito, minha garganta apertava. Eu não conseguia parar de chorar e, mesmo me ouvindo soluçar, Owen continuou trabalhando. Ele não tentou me confortar, nem mesmo olhou pra mim, pois não se importava. Mesmo sabendo que ele me amava, sabia também que ele não faria nada que não fosse do próprio interesse… E, sinceramente, aquele tipo de amor era muito mais honesto do que o que eu pensei ter encontrado.

Eu não sabia mais o que pensar, então, após chorar bastante, acabei adormecendo. Quando acordei novamente, já era noite, e Owen cutucava minha bochecha repetidamente. Eu conseguia sentir o clássico cheiro de hambúrguer, e logo percebi que ele estava segurando uma sacola com a logo da lanchonete mais famosa do mundo.

— Toma, comida. – Me sentei, pegando a sacola.

— Obrigado. – Conferi o que era, vendo um dos maiores hambúrgueres do cardápio, junto com uma porção grande de batatas fritas. Ótimo, ele sabe que eu como bastante.

— Não coma na cama, tá escuro demais pra ver a sujeira e eu não quero acordar com uma barata na minha cara.

— Ah, ok. – Me sentei na mesa com ele, onde havia uma vela acesa. – Hambúrguer à luz de velas, essa é nova.

— Nosso primeiro jantar juntos foi melhor, não foi? Apesar de que a gente mal comeu. – Corei, mas tentei ignorá-lo. – A gente pode repetir a parte do sexo, se você quiser.

— Cala a boca! – Ele riu, sei que falou aquilo apenas pra me provocar. – Aliás, como conseguiu dinheiro pra comprar esse hambúrguer?

— Não consegui, você que pagou.

— Que?! Como…?

— Reconhecimento facial. Se quer que seu celular fique seguro, coloque uma boa senha.

— Aff, você é um babaca…

— Não se preocupe, não vi seus nudes nem nada do tipo.

— Por que eu não tenho!

— Pois é. Só tem porcaria cristã no seu celular, entediante.

— Não fique olhando as minhas coisas…

— Eu só queria me divertir um pouco, mas não rolou.

— É isso que dá meter o nariz onde não é chamado. – Riu.

— Bem, ao menos tô me divertindo agora.

— Como assim?! – Ele deu outra risada, mordendo o hambúrguer. – É pecado rir da cara de um padre!

— Tá, tá, coma seu hambúrguer, padre. Aliás, você não vai dormir ao meu lado cheirando como um maratonista. Coma logo pra gente ir tomar banho antes da academia fechar.

— Olha quem tá falando, seu cabelo tá molhado de suor! E quem disse que eu vou dormir contigo?

— Prefere ficar no chão? É uma cama de casal, tem espaço o suficiente.

— Não tô preocupado com o espaço, o problema é essa sua mão boba que fica me tocando onde não deve.

— Pra um padre, você tem a mente muito suja.

— Suja?!

— Sim, eu já disse que não vou te tocar se você não quiser.

— Como se eu pudesse confiar em você…

— Se não pudesse, você nem estaria aqui.

— Você sabe que é a única pessoa com quem eu posso falar sobre esse assunto.

— Sim, eu sei. Por isso tinha certeza de que você iria voltar. – Não falei mais nada, pois não queria que ele continuasse se gabando, mas eu sabia que ele tinha razão.

Owen definitivamente era mais esperto que eu, sua racionalidade o fazia enxergar o mundo sem a névoa das emoções, então ele costuma notar coisas que eu não consigo. Ele percebeu que estavam me enganando e eu, mesmo sentindo que algo estava errado, só acreditei quando tive provas. Então, sim, a única pessoa digna da minha confiança era ele.

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