Ler aquele PDF estava me deixando ansioso. Minha vida era uma mentira, eles me manipularam e me transformaram num experimento. Eu não sabia o motivo e nem mesmo fui capaz de descobrir, pois estava chorando tanto que as minhas lágrimas não me deixavam ler… Mas eu não tinha tempo pra isso, então era melhor parar de chorar, a Irmã Janice logo chegaria em casa e eu teria de encará-la. Eu não ia conseguir fingir que nada aconteceu, mas não queria fazer isso agora, precisava entender tudo antes de falar com ela. Então peguei meu notebook e fui até o carro.
Mas pra onde eu deveria ir? Não seria seguro visitar ninguém envolvido com a Igreja… Talvez um dos órfãos que cresceram comigo? Não, eu só tinha contato com aqueles que ainda são cristãos, então eles poderiam acabar falando com alguém. Pensei em todas as pessoas possíveis, mas nenhuma parecia certa. Talvez eu devesse ir a algum café… Mas então, eu poderia acabar me encontrando com um conhecido, e eu não deveria ler sobre isso em público, menos ainda perto de alguém que não sabe sobre a doença.
Quando me dei conta, já estava estacionando na frente da ocupação. Sim, só tinha uma pessoa que poderia entender, mas eu não queria encontrá-lo, pois teria que admitir que ele estava certo. Então fiquei dentro do carro, observando o quanto aquele lugar havia mudado desde a última vez que estive lá, até alguém bater na janela.
— Irmão Elliot, é você mesmo? – Aquilo me assustou, mas logo reconheci quem era, mesmo não lembrando o nome dela. Era uma das mulheres que morava lá, então baixei o vidro.
— Há quanto tempo! Já fui ordenado, então pode me chamar de Padre Elliot.
— Sério?! – Ela pareceu impressionada, olhando pra mim de cima a baixo, e com isso percebi que saí de casa com a roupa que eu estava usando. Era verão, então eu estava vestindo shorts e uma camiseta, que eu só usava em casa por mostrar muito do meu corpo. Eu acabei por colocar a mão sobre as pernas, numa tentativa falha de cobri-las.
— Desculpa, eu tava limpando a casa e saí com pressa…
— Não se preocupe, ninguém liga pra isso aqui. Esse lugar mudou muito desde que você nos deixou…
— Percebi… Tem muita pichação agora, né? Não está tão bem conservado.
— Sim, você deveria ver a parte de dentro. Tá pior ainda.
— O que aconteceu?
— Bem, depois do aniversário do menino, Shaniqua voltou pro marido, então a Dona Shirley faleceu…
— Sério? Ah não, que Deus a tenha. – Falei, fazendo o sinal da cruz. Eu a colocaria nas minhas orações mais tarde. – E quanto ao Pablo? Era ele que mantinha tudo do jeito que era…
— A imigração pegou ele e a mãe dele. Depois disso tudo desmoronou, as pessoas boas começaram a sair e os drogados apareceram… Eu vou embora semana que vem, não aguento mais. – Ah, aquilo era tão triste… Aquele lugar era como um oásis no deserto para aquelas pessoas. Será que era minha culpa? Talvez, se eu tivesse ficado com eles, eu pudesse ter impedido…
— E quanto ao Ow…. Daryl? – Duvido que ele ficaria num lugar assim.
— Ah, aquele cara? Ele tá sempre dizendo que vai embora, mas nunca vai. – Sério? Será que ele… Não, ele não esperaria eu voltar, né? – Acho que, já que ele é muito amigável, as pessoas não mexem com ele, mesmo que ele fique puto com a maioria delas. – Não mesmo. Que burrice da minha parte, pensar que ele ficaria por minha causa.
Suspirei, olhando pro meu notebook. Será que eu deveria mostrar a ele ou manter segredo? Será que ele ia querer me ver? Será que ia querer saber? Mas eu não tinha mais em quem confiar… Não que eu devesse confiar nele, mas ele tinha o direito de saber, pois também era uma vítima dos Neumann. Eu só o infectei pois eles me infectaram…
— Ele tá aqui agora?
— Acho que sim. Tá bem quieto, então ele não tá trabalhando, mas não o vi sair.
— Ótimo. – Peguei meu notebook e saí do carro. – Ainda no mesmo quarto?
— Sim.
Conforme eu adentrava o local, percebi que ela não havia exagerado quanto ao fato de estar pior do lado de dentro. Junto ao vandalismo, tudo cheirava a mijo e maconha, haviam garrafas vazias de bebida e cápsulas de cocaína espalhadas pelo chão, e um bando de drogados usando crack num canto. Estavam nos próprios mundos, rindo e dançando sem música. Aquilo era tão triste, e eu só pude rezar por suas almas enquanto subia as escadas. Respirei fundo antes de bater na porta.
— Vá embora! – Ouvi sua voz vindo do lado de dentro, e meu coração disparou. Era ele mesmo!
— Owen, eu… – Gaguejei. – Sou eu. – De repente, ouvi seus passos apressados na direção da porta, e então o som de algumas fechaduras antes dele abrir. Nos encaramos por um longo momento. Ele estava do mesmo jeito que era quando nos conhecemos, tão bonito… E não estava usando uma camisa, então eu podia ver seus músculos. Ai Deus, me perdoe. Olhei pra baixo, envergonhado.
— Você não tinha virado padre? Eu vi a cerimônia e tudo mais…
— Você viu?
— Sim, fiquei curioso. Mas eu não tava te perseguindo nem nada, ok?
— Tá, até parece…
— Enfim, já desistiu? Como você tá vestido desse jeito, aposto que sim.
— Eu só tava fazendo faxina, é meu dia de folga e eu só uso isso em casa! Eu ainda sou um padre, então me respeite e pare de olhar pro meu corpo!
— Vai ser difícil, você é gostoso demais… Mas o que te fez sair com tanta pressa?
— Vou te mostrar. – O empurrei pra poder entrar. O lugar não parecia tão diferente do que eu lembrava, fora a parede de gaiolas de madeira cheias de coelhos. Tinha um deitado na cama também, e era grande e gordo, com seus pelos brancos cheios de manchas marrons. – Isso é um coelho de estimação?
— Sim, o nome dela é Jennifer. Ela é fofinha, mas morde e grita muito. E olha as pintinhas, é como se fosse você no formato de um coelho. – Mas o que…? Ele estava mantendo aquele coelho só porque o lembrava de mim? Aquilo era meio… Fofo. Mas também assustador, por que ele não podia simplesmente me esquecer? Bem, não era como se eu conseguisse esquecê-lo também…
— Coelhos são comida, não bichos de estimação.
— Ei, eu não sou tão insensível. – Falou, pegando o coelho no colo pra poder se sentar. E então eu notei, em sua mesa de cabeceira, um cinzeiro com um cigarro aceso, o qual ele prensou no vidro para apagá-lo… Não era tabaco, por conta do cheiro e do formato. Eu já tive meus tempos de baladeiro e, mesmo sempre odiando drogas, sabia o que era.
— Isso é maconha?
— Sim. Quer um trago?
— Você tá chapado? – Perguntei, ignorando a provocação.
— Não. Eu nunca entendi como as pessoas conseguem ficar doidonas, maconha é uma droga tão fraca. Só me deixa um pouco mais calmo, daí eu consigo lidar com os fantasmas sem entrar em pânico e posso dormir melhor… Mas acho que eu devo ser diferente, a maioria das drogas não me afeta. – Então ele tá se drogando… Eu não deveria ter vindo, o que mais eu poderia esperar de um cara como ele? – Enfim, o que você quer me mostrar?
— Quer saber? Vir aqui foi um erro. – Me virei. – Não dá pra confiar num drogado.
— Ei, peraí! – Ele segurou o meu braço, bem firme, pra eu não conseguir puxar de volta. – É sério, foi só meio baseado e isso nem é o suficiente pra alterar uma pessoa normal. Eu fumava muito mais que isso quando era adolescente e parei com muita facilidade, então acredita em mim, não sou um viciado.
— Isso é o que um viciado diria.
— Eu sei, mas eu não sou. Veja bem, se eu estivesse drogado eu estaria falando contigo dessa forma? – O encarei. No tempo que eu ia pra balada eu estava sempre bêbado demais pra notar, mas durante o meu trabalho de caridade pude conhecer muitos viciados, falei com várias pessoas que estavam sob efeito de drogas. Naquela época eu conseguia identificar facilmente e, honestamente, ele não parecia chapado… – Sei que é importante, ou você não teria vindo aqui vestido desse jeito, ainda mais agora que é padre. Então, já que é você, eu quero ouvir.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Sawdust
HorreurApós afogar as mágoas na bebida por conta do término de seu namoro, Elliot Taylor acorda nu em uma oficina de marcenaria. Ele tenta lembrar o que aconteceu e, ao conhecer o belíssimo marceneiro, tira a conclusão de que dormiu com ele na noite anteri...
