O coro reverberava pela catedral, e o cheiro do incenso me envolveu quando o Bispo balançou o turíbulo sobre a Bíblia Sagrada, mesmo que eu não estivesse tão perto do altar. As palmas das minhas mãos, que estavam unidas em frente ao meu peito, transpiravam. Eu podia sentir borboletas no estômago, as batidas do meu coração soavam mais altas que o cântico de Gloria in exclesis Deo. Eu estava um pouco nervoso, claro, já que aquele era o dia em que finalmente deixaria para trás uma vida de pecados e passaria a me dedicar completamente a Deus. Bem, quase completamente.
Irmã Janice ainda estava lutando contra o câncer que, mesmo com todo o tratamento, acabou se expandindo para seus pulmões. Eu sabia que ela poderia morrer a qualquer momento por conta dos problemas respiratórios, mas também sabia que ela era forte, mesmo que seu corpo estivesse fraco. Fazia tempo que eu havia comprado uma cadeira de rodas, mas ela se recusou a usar até ser inevitável. Por conta da fraqueza em seus membros e falta de ar, ela não podia andar tanto.
Mesmo assim, não quis ser internada, e eu respeitei sua vontade pois também não queria que ela ficasse longe de mim. Queria estar presente quando a hora fatídica chegasse. Por isso, também precisava me dedicar à Irmã Janice, e essa era uma causa nobre e perfeitamente justificável.
Apesar de todos os problemas, ela insistiu em estar lá durante minha ordenação. Não pude ver um sorriso em seus lábios por conta da máscara que precisava usar para se proteger de possíveis infecções, mas dava pra perceber o quanto estava orgulhosa de mim ao olhar em seus olhos, e isso me deu força para responder quando o Vigário me chamou.
— Reverendo Elliot Taylor.
— Eis-me aqui. – Caminhei até meu lugar em frente ao Bispo, e esperei até ele chamar os outros rapazes.
— Reverendíssimo Pai, pede a Santa Mãe igreja, que ordeneis estes nossos irmãos para o ministério do presbiterado.
— Sabeis se eles são dignos?
— Segundo o testemunho do povo cristão e o parecer dos responsáveis que os apresentam, atesto que foram considerados dignos.
— Com o auxílio de Deus e de Jesus Cristo nosso Salvador, escolhemos estes nossos irmãos para a Ordem dos presbíteros. – O Bispo se levantou de seu assento, e nos encarou.
— Filhos caríssimos, antes de serem admitidos à Ordem dos presbíteros, deveis manifestar diante do povo o propósito de receber este ministério.
Quereis exercer sempre o ministério do sacerdócio no grau de presbítero, como zelosos cooperadores da Ordem dos Bispos, apascentando o rebanho do Senhor sob a ação do Espírito Santo?
— Sim, quero. – A resposta saiu automaticamente, e eu pude sentir meu coração se apertar no peito.
— Quereis exercer digna e sabiamente o ministério da palavra, na pregação do Evangelho e na exposição da fé católica?
— Sim, quero.
— Quereis celebrar com fé e piedade os mistérios de Cristo, segundo a tradição da Igreja, para louvor de Deus e santificação do povo cristão, principalmente no sacrifício da Eucaristia e no sacramento da reconciliação?
— Sim, quero.
— Quereis implorar, juntamente conosco, a misericórdia divina para o povo a ti confiado, cumprindo sem desfalecer o mandato de orar?
— Sim, quero.
— Quereis unir-te cada vez mais a Cristo, Sumo Sacerdote, que por nós Se ofereceu ao Pai como vítima santa, e com Ele consagrar-te a Deus para salvação dos homens?
— Sim, quero, com a ajuda de Deus. – E então, um por um, ajoelhamos em frente ao bispo. Na minha vez, ele segurou minhas mãos tal qual fez com os dois antes de mim, mas esboçou um sorriso ao invés de manter a mesma seriedade. Afinal, eu era o único ali que havia crescido sob sua supervisão, mesmo que indireta na maior parte do tempo. Ele devia estar orgulhoso, de certa forma.
— Prometes-me a mim, e aos meus sucessores, reverência e obediência? – Respirei fundo.
— Prometo. – Minha voz quase não saiu, não importava quantas vezes eu tivesse ensaiado, estar lá de verdade me deixou muito nervoso. Aquele era o momento que tanto esperei para ser libertado das tentações e perdoado pelos meus pecados. O momento em que minha vida ia mudar, pra sempre. Eu seria um novo homem.
— Queira Deus consumar o bem que em ti começou.
Após isso, me juntei aos outros para deitar em frente ao altar enquanto os cânticos e orações continuavam. Conforme a catedral entoava os nomes dos Santos, as lágrimas finalmente escorreram pelo meu rosto, pingando no chão de mármore sob mim. Eu não sabia o que estava sentindo.
Por mais que eu estivesse grato por me unir ao presbiterado, estava de luto pela vida que eu poderia ter tido. Mas… Será que eu poderia, mesmo? Acho que não. Deus me escolheu por um motivo, Ele não queria que eu vivesse em pecado. Ele me trouxe onde estou hoje… Não foi? Claro que foi, eu só estava vivo por Sua misericórdia.
A verdade é que, antes, eu vivia uma vida de incerteza, e é por isso que ainda tinha dúvidas. E já que eu tinha dúvidas, era melhor trilhar o caminho que foi preparado pra mim. Aquele que eu nunca devia ter abandonado. Deus me fez órfão para que eu pudesse ser criado no Cristianismo, pois de outra forma eu jamais teria seguido Seu caminho, e me deixou experienciar a morte para que eu voltasse para onde pertencia. É assim que Ele trabalha, misteriosamente.
Mas por que eu sentia que estava perdendo alguma coisa?
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Sawdust
TerrorApós afogar as mágoas na bebida por conta do término de seu namoro, Elliot Taylor acorda nu em uma oficina de marcenaria. Ele tenta lembrar o que aconteceu e, ao conhecer o belíssimo marceneiro, tira a conclusão de que dormiu com ele na noite anteri...
