62 - Caixa

48 10 2
                                        

Owen pegou as roupas na secadora e eu chamei um carro de aplicativo pra levá-lo de volta pra ocupação, e ele não falou uma palavra enquanto esperava. Não posso dizer que não fiquei incomodado com aquilo, mas é óbvio que ele estaria chateado. Depois de cuidar de mim enquanto eu estava bêbado e ter que me trazer pra casa, ele teve que dormir na garagem. Aquilo era péssimo, por que a Irmã Janice faria isso?

- Ele já foi? - Ela perguntou assim que voltei pra dentro de casa, depois de mandá-lo embora.

- Sim.

- Tem certeza?

- Tenho, eu esperei o carro ir antes de entrar.

- Ótimo. Agora vamos conversar.

- Claro, vou preparar o café e a gente pode conversar enquanto comemos.

- Não, senta aí! - Seu tom foi altivo, e eu não pude não obedecer, me sentando na poltrona em frente a ela. - Você não vai comer nada, vai ficar de jejum.

- Hã? Por quê?

- E você ainda me pergunta por quê?!

- Perdão, Irmã. Não fiquei bêbado de propósito! Eu nem bebi tanto, o vinho estava forte demais!

- Sim, falaremos disso mais tarde. Primeiro preciso que me explique sobre Owen Hart. - Ah. Então ela realmente o reconheceu. - Você me disse que usou proteção pois ele não queria ser infectado, então como ele está vivo?

- Por acidente. Ele entrou em contato com os meus fluidos corporais antes mesmo de saber sobre a doença, acho que foi inevitável.

- Por quanto tempo vocês tem se encontrado?

- Eu não tenho "encontrado" com ele, foi coincidência ele estar vivendo em uma das ocupações que eu sou responsável por ajudar.

- Coincidência?! Você acha mesmo que aquele homem viria lá do Texas pra se instalar no seu local de trabalho por coincidência? Aposto que ele tem te perseguido faz tempo... - Me perseguido? Não era o que parecia quando o encontrei. Ele ficou muito surpreso. Ou será que fingiu? - Isso se você não estiver junto com ele nisso tudo.

- Não estou! Olha, ele não faria isso. Por que ele me perseguiria?

- Pelo amor de Deus, Elliot, você ainda se pergunta isso?! Depois de tudo o que aconteceu, você ainda tem alguma dúvida? Será que você esqueceu que ele é um serial killer, que perseguia suas vítimas até ter uma chance de atraí-las?

- Não esqueci, é só que... Ele mudou, eu acho. Ele disse que não vai mais matar.

- E você acreditou! - Pausei, pensando. Será que eu realmente acreditei nele? O jeito que ele falou sobre o Pablo me fazia duvidar...

- Enfim, ele não pode me matar. Você sabe disso.

- Ele ainda pode te torturar, física e mentalmente. Mesmo quando ele não está por perto, é o que ele faz.

- Então o que eu deveria fazer? Eu já pedi pra ele ir embora, mas ele não foi.

- Chame a polícia, deixe que eles resolvam.

- Eu chamo a polícia pra pegar um homem morto?! Eles jamais acreditariam em mim, ainda mais por eu ter sido internado numa clínica psiquiátrica por vê-lo em todo lugar!

- Já parou pra pensar que talvez realmente fosse ele?

- Isso foi antes dele ser executado, não tinha como ser ele. Enfim, Owen não fez mais nada pra me machucar. Pelo contrário, ele cuidou de mim ontem.

- Por Deus, por que está inventando desculpas?

- Não tô inventando nada.

- Você ainda o ama, Elliot? - Suspirei. Será que eu deveria dizer que não, só pra ela calar a boca? Mas aí eu estaria mentindo. E ela sabe quando eu minto.

- Nunca deixei de amar. - Ela bufou, e se levantou de repente.

- Eu tenho sido boazinha demais com você. - Pegou sua bengala e começou a andar de volta pro quarto.

- Espera! - Corri para ajudá-la a andar, mas ela me empurrou.

- Me deixa, eu não sou inválida! - Mesmo assim, a segui até o quarto. - Eu disse que o diabo ia fazer de tudo pra te tentar agora que está próximo de atingir a santidade. - Abriu o guarda-roupas, tentando pegar algo na prateleira de cima.

- Você também me disse que essa doença era uma benção, e que até uma pessoa má que foi infectada com ela é digna de perdão. - Tentei ajudá-la, mas ela estapeou a minha mão.

- Então era dele que você estava falando?! Se eu soubesse, nunca teria dito aquilo.

- Apenas Deus pode julgar, e se o julgou digno de receber este milagre, então eu acredito que ele mereça uma segunda chance!

- Talvez mereça, mas longe de você! - Finalmente alcançou a caixa, mas não conseguiu continuar segurando e a deixou cair, espalhando o conteúdo no chão.

- Ai Jesus, você deveria ter deixado eu te ajudar. - Me ajoelhei pra pegar os objetos no chão, era um monte de coisa aleatória. Uma cruz, uma estátua de anjo quebrada, um pen drive com uma etiqueta escrito John 11:25... Ela bateu na minha mão antes que eu pudesse tocá-lo. - Deixa de ser teimosa!

- Eu posso fazer as coisas sozinha! - Falou, tirando o pen drive do meu alcance, mas eu insisti e peguei a caixa, que estava de cabeça pra baixo. Foi aí que eu vi o que ela estava procurando.

- Irmã... Por que... - Gaguejei. - Por que você tem isso?

SawdustOnde histórias criam vida. Descubra agora