57 - Vinho

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Após Ben soprar as velinhas, esperei os convidados irem embora para ajudar na limpeza. Neste tempo, Dona Shirley me deu um pouco do quentão pra eu provar. Apesar de estar muito saboroso, não podia beber muito, já que ia dirigir. Tomei apenas alguns goles, mas comecei a ficar tonto quando meu copo ainda estava pela metade. Não seria educado jogar fora, mas também não acho que deveria beber mais. Aquele vinho barato era um pouco forte pra alguém que não se embebedava há mais de 5 anos, além de ter tido seu organismo resetado algumas vezes. Vi Owen bebendo também, com o copo quase vazio.

— Aqui, fique com isto. – Cheguei já enchendo seu copo com o meu quentão.

— Valeu, eu acho. Mas por que está me dando isso?

— Porque eu vou dirigir.

— Ah, sim. Já tá indo embora?

— Daqui a pouco. Vou ajudar a arrumar as coisas, mas não posso voltar tarde pra casa.

— Tá bom… Não vai me dar um beijo de despedida?

— Que?! Você bateu a cabeça ou algo assim? Por que eu te beijaria? – Riu.

— Só queria ver a sua cara… Apesar de que eu realmente gostaria de um beijo.

— Para de maluquice. – Ele continuou sorrindo, que irritante. Mas isso não significava que ele era de todo ruim… – Mas eu tenho uma coisa pra te dizer.

— O que?

— Vi os móveis que você fez, estou orgulhoso.

— Orgulhoso? Do que?

— Você tá mostrando esse lado altruísta que eu não conhecia.

— “Altruísta”? – Pareceu confuso.

— Sim. Você fez móveis pra ajudar o pessoal da ocupação, né?

— Não, eu nem pensei nisso. Só dei a eles pois, sem as ferramentas certas, não consigo achar meu trabalho bom o suficiente pra vender. – Sério, ele tava sendo modesto ou…? Aliás, será que ele sabe ser modesto?

— Então por que fez tanta coisa?

— Hm… Quatro motivos. – Me deu o copo pra segurar enquanto contava, pois sua outra mão segurava um enroladinho de salsicha. – Primeiro, eu precisava ver se ainda tinha alguma habilidade depois de tanto tempo sem fazer nada, e acho até que eu tô bem se considerar as condições que tenho agora. Segundo, eu tô sempre entediado, então preciso de uma distração. Terceiro, fica mais fácil ignorar os fantasmas, mesmo que eles façam com que eu me machuque quando querem atenção… E quarto, impede que eu mate aquele filho da puta do Pablo sempre que ele me enche a paciência. – Ergui uma sobrancelha. Ele não tava falando sério, tava? Não, o Pablo não era o tipo dele.

— Você quer mesmo matá-lo, ou…?

— Não vou fazer isso, ok? Porque eu preciso dele, porque ele é maior que eu, e porque eu provavelmente vou acabar não me livrando dele caso vire um fantasma. Mas, ao menos, posso imaginar. – Ah, então ele realmente não mudou em nada, né? – Posso pegar uma tábua e cortar no meio, imaginando que é ele.

— Ok, melhor parar. – Pedi, mas ele me ignorou. Seus olhos brilhavam, me dava medo…

— Fico imaginando a expressão de horror que ele faria quando eu o desmembrasse, o sangue quente correndo entre os meus dedos… – Que nojo. Encarei o copo que eu estava segurando. Sangue… Tinha a mesma cor. Minha boca aguou, e eu nem estava com fome. – As tripas caindo ao cortar a barriga dele… – De repente, levei o copo à minha boca e bebi num gole só. Não era o mesmo gosto do sangue, nem um pouco parecido, mas ao menos tinha algo em minha boca. – Você tá bem?

— Sim, tô ótimo. Tchau. – Tinha que sair dali antes que tentasse mordê-lo.

Fazia muito tempo desde a última vez que tive vontade de consumir carne humana. Desde que fui internado, eu acho? Não, acho que senti uma outra vez, quando um corpo mutilado apareceu na TV enquanto eu via as notícias. Mas isso tinha acontecido há dois anos, e agora que ele havia me feito imaginar eu não conseguia tirar da minha cabeça. Fui até a cozinha e acabei pegando outro copo de vinho, na esperança de que matasse minha sede de sangue. E até que ajudou um pouco… Mas eu acabei ficando completamente bêbado.

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