69 - Sujo

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Eu tive um sonho muito estranho naquela noite. Me vi de volta na oficina do Owen, porém solto. A porta estava aberta, mas eu sentia medo, até que ele apareceu, sorrindo, com um prato repleto de carne nas mãos. Ele se aproximou e levou um pedaço daquela carne até a minha boca.

— Abre. – Fiz o que ele pediu, e ele inseriu o garfo com carne. – Bom garoto. – Ele acariciou minha cabeça enquanto eu mastigava, e eu fechei meus olhos, satisfeito. – Gostou?

— Sim. – Respondi, ainda de boca cheia.

— Imaginei que fosse gostar, é a sua favorita.

— Minha favorita? – Perguntei, antes dele colocar mais um pedaço na minha boca.

— Sim, é carne humana. – Parei de mastigar e o encarei enquanto o pavor tomava minha mente. Então cuspi. – Qual o problema?

— “Qual o problema”?! Você me dá uma pessoa pra comer, e depois me pergunta qual o problema?!

— Bem, você gosta mais do que os coelhos, né? Mais que os cachorros, também. Jesus disse que devemos comer Sua carne e beber Seu sangue, então você não está fazendo nada de errado.

— Não, isso é errado! De quem… De quem é essa carne? Quem você matou dessa vez?

— Eu não matei ninguém, já disse que não faço mais isso. Eles já estavam mortos quando os encontrei. Bem, acho que a mulher ainda estava viva, mesmo que a barriga dela estivesse completamente aberta… – Aqueles eram… Eram os meus pais?! – Mas eu não fiz nada. – Eu mal podia respirar enquanto ouvia aquelas palavras. Aqueles eram os meus pais! Eu precisava salvá-los!

Então eu corri até a porta, subi as escadas, talvez não fosse tarde demais. Mas as escadas pareciam intermináveis, e eu tropecei e caí no chão à minha frente. De repente, estava encarando um tapete persa e ouvindo uma risada atrás de mim.

— Você é muito desastrado. – Aquela voz… Eu nem precisei me virar para reconhecê-la. Era a voz do Karl. – Vamos, cadela gorda, se levante antes que me envergonhe na frente de todo mundo. Não que você já não faça isso apenas ao existir.

Me levantei, mas não para obedecê-lo. Fiz isso pra poder correr. Precisava correr para salvar os meus pais, mas, mais importante, pra ficar longe dele. Mas não importava quantas vezes eu tentasse, eu estava sempre tropeçando no pé dele, no que pareceu ser um looping infinito de desespero que ficava cada vez pior até que, de repente, meu pescoço foi capturado por uma corda. E eu fiquei pendurado.

Pude ouvir a Irmã Janice gritar, enquanto minha consciência se esvaía lentamente, e então uma voz masculina arfava no meu ouvido. No lugar da corda no meu pescoço, surgiu uma mão, e seu dono estava se movendo dentro de mim. Quem era, Karl? Não, ele tinha prazer apenas em me causar dor, nunca colocaria o próprio membro dentro de mim. Era o Grayson, ou talvez o Owen…? Não, ele era…

— Jeff? – Quando finalmente consegui ver seu rosto, fiquei confuso. Jeff jamais faria dessa forma. Ele era tão gentil…

— Você me ama agora, Elliot?

— Jeff, me perdoe…

— Acho que não. – Ele se aproximou e tocou os lábios no meu. Então, de repente, sua mão me apertou ainda mais, e os movimentos ficaram mais violentos. Aquele não era o Jeff. Quando ele parou de me beijar eu pude ver, era o Owen.

— Você me ama, não ama? – Concordei com a cabeça. Sim, eu o amava. Independente do quanto eu tentasse esconder aqueles sentimentos de mim mesmo, era impossível não amá-lo. – E bem no fundo, você sabe que eu tô certo. Você sabe que precisa descobrir o que estão escondendo de você. – Concordei novamente.

— Elliot, não o escute! – Ouvi minha própria voz ao meu lado, e olhei na direção de onde vinha. Realmente era eu, vestindo o Hábito, com uma Bíblia na mão e uma auréola sobre a minha cabeça. – Ele é o diabo, e você sabe que ele mente. Apenas siga vivendo uma vida pacífica, é o melhor a se fazer.

— O melhor a se fazer?! – A pessoa em cima de mim perguntou, e então eu percebi que não era mais o Owen. Aquele era… eu? O que?! – Viver uma mentira, se escondendo de si mesmo, é o melhor a se fazer? – Eu estava em choque, não tinha ideia do que estava acontecendo. Por que tinham dois de mim… Três, se contar comigo? Aquilo era tão confuso que eu chutei o “eu” sobre mim e comecei a gritar. – Seu filho da puta! – Ele tirou uma faca do mais completo nada e me esfaqueou na barriga. Gritei.

E então acordei, sem ar. Havia um nó na minha garganta, me sentia como se estivesse sendo enforcado. E então, notei que minha calça estava úmida. Eu me senti tão sujo… Não tinha um sonho como aquele fazia muito tempo. É claro, sou um padre, mas ainda sou homem, imortal porém ainda feito de carne, então eu me masturbava sempre que sentia que devia, normalmente uma vez a cada duas semanas, para prevenir distrações no meu trabalho e acontecimentos como aquele. Mas eu não estava sentindo vontade ultimamente, e eu tomava muitos remédios que diminuíam a libido, o que significava que algo como aquilo era mais que uma mera falha carnal.

Eu era sujo, ejaculei por causa de um pesadelo. Sei que não tive como controlar, mas ainda assim… Aquilo era vergonhoso. Mesmo que eu tivesse sido capaz de me limpar sem ser notado, estava envergonhado, pois sabia que Deus estava olhando por mim e Ele definitivamente acharia aquilo horrível. Eu tinha que mostrar que estava arrependido, então, após me vestir novamente, me ajoelhei em frente à cruz e peguei meu chicote.

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