Foi difícil convencer as crianças a não nos seguirem até o carro, percebi que Owen estava ficando irritado com a teimosia. É claro, ele estava com fome, e a fome nos deixa com raiva. Se eu as deixasse nos seguir, iam acabar sabendo do coelho e já era a comida, certamente o transformariam em um bicho de estimação. Então, lembrei o que a Irmã Janice costumava fazer quando não podia nos dar a atenção que queríamos, nos fazendo brincar de pique-esconde.
Enquanto elas corriam pra se esconder, eu e Owen fomos pro carro. De início, ficamos em silêncio pra que as crianças não nos seguissem, mas quando saímos… Continuamos em silêncio. Aquilo era tão esquisito, eu tinha que dizer alguma coisa.
— É… – Comecei. – Eu não tenho te visto por aqui ultimamente.
— Pois é, eu arrumei um bico. – Ah, então não foi por causa do que eu falei?
— Sério? Isso é ótimo! De que?
— De segurança, numa boate.
— Olha, até que combina contigo.
— Você acha? – Passei a caixa com o coelho pra ele enquanto pegava o resto da comida que eu havia trago, e o bicho começou a chutar. – Nossa, esse é brabo!
— Toma cuidado pra ninguém perceber. Mas enfim, mesmo não sendo muito grande, você é bem forte.
— Hm… Devo ser.
— Dá pra me ajudar aqui? As caixas de suco são pesadas.
— Claro. – entreguei a ele a sacola com os sucos, e ele as pegou sem esforço algum enquanto eu estava quase morrendo com o peso.
— E você gosta desse trabalho?
— Não, é um saco. Eu só fico lá parado olhando pra gente bêbada, esperando algum babaca entrar numa briga pra eu ter uma desculpa pra estrangular alguém…
— Estrangular?!
— Ainda não tive essa oportunidade. Além disso, nesse tipo de lugar eu nunca sei quem tá vivo ou não, então nem dá pra trabalhar direito. Noite passada eu vi um maluco tentando ir pra área VIP e fui lá falar com ele, daí ele simplesmente atravessou o meu corpo. Pareceu que eu tava morrendo de novo, daí eu acordei no escritório com gente à minha volta, dizendo que eu tive um… Ataque de pânico…? Sei lá, não lembro de porra nenhuma, mas acho que perdi o emprego.
— Que horror, sinto muito por isso ter acontecido com você… Mas você ainda vê fantasmas, é?
— Sim. Mas é bom ter você por perto, pelo menos os três patetas desaparecem.
— “Os três pate-” Que?
— Você sabe… Número um, quatro e… Treze? Quatorze? Você conta como um deles ou não conta? – Ugh, quase esqueci que ele é um serial killer, e que fala sobre isso como se estivesse contando itens de uma lista de compras. Mas Deus deu uma segunda chance a ele, né…? E se ele consegue ver os fantasmas de quem matou, se o estão fazendo sentir alguma coisa, mesmo que seja medo…
— Então você tá sendo assombrado pelos fantasmas das suas vítimas? – Sussurrei antes de voltarmos pra dentro da casa. – Vamos deixar essas coisas na cozinha.
— Ok. Então… Isso, acho que eu tô sendo assombrado.
— Não acha que pode ter algum motivo pra isso?
— Claro que tem. Eles estão se vingando, tentando me enlouquecer.
— Quem está se vingando de quem? – Dona Shirley perguntou quando entramos na cozinha.
— Não é nada, Dona Shirley. – Não podíamos deixar ninguém saber, então tentei mudar de assunto. Percebi que ela estava cozinhando algo no fogão à lenha improvisado, e que cheirava bem. – O que é isso? O cheiro é tão bom!
— Ah, é quentão. É uma receita de família, costumávamos fazer bastante no inverno… – A mão que segurava a colher começou a tremer um pouco, e ela usou a outra para tentar pará-la.
— Deixe-me ajudar. – Tentei pegar a colher de pau de sua mão, mas ela me deu um tapa.
— De jeito nenhum, se eu não fizer isso sozinha não vai ter o mesmo gosto!
— Certo. – Sorri, gentilmente. Ela estava se esforçando tanto pra se manter ativa pelo máximo de tempo possível, eu não podia atrapalhar. – Vou experimentar mais tarde, parece ser muito bom!
— Não sabia que padres podiam beber. – Owen comentou. Por que ele ainda tava lá? Já era pra ter subido pra comer.
— Posso beber moderadamente. E eu ainda não sou padre.
— Tá, mas não vá ficar bêbado. – Riu. – Ou pode acabar pelado no meu quarto de novo. – Sério?! Que tipo de humor é esse?
— Não faz piada com isso, não tem graça.
— Olha, parece que o Irmão Elliot costumava ter uma vida agitada. – Dona Shirley riu. Ela não fazia ideia da situação e com certeza estava pensando uma coisa que não tinha nada a ver com o que realmente aconteceu. Bom pra ela.
— Eu tô pra perguntar isso a algum tempo… – Shaniqua, que também estava na cozinha junto com outras mulheres da ocupação e mais algumas vizinhas, começou. – Vocês dois já se conheciam? – Owen e eu nos encaramos. Eu estava constrangido, e ele parecia estar pensando no que dizer.
— Mais ou menos. – Respondi.
— Melhor que ninguém. – Owen falou, ao mesmo tempo. Shaniqua franziu a testa, estranhando, mas antes dela conseguir falar alguma coisa, a caixa com o coelho se mexeu. – Merda! – Ele a segurou, empurrando a tampa pra ela não abrir.
— O que tem aí?
— Um rato. – Falou, sem pestanejar. As mulheres começaram a reclamar.
— Eca! Tira esse bicho daqui! – Uma delas disse.
— Eu vou. Você vem comigo, Elliot?
— Tá. – Assim que saímos da cozinha, suspirei aliviado. – Salvos pelo coelho.
— É, seria uma merda ter que continuar aquele papo.
— Mas por que você disse aquilo?
— Aquilo o que?
— Sobre nos conhecermos melhor do que ninguém. Nós não nos conhecemos, foram só três semanas.
— É, mas foi bem intenso. Ambos estávamos sem nossas máscaras, então mostramos um pro outro quem somos de verdade.
— Não, nós não nos conhecemos e ponto final. Você me parece uma pessoa completamente diferente daquele cara calado que tava sempre com raiva.
— Sério? Eu não acho que eu tenha mudado alguma coisa… Quanto a você, eu tô te achando calmo até demais.
— Eu tô tratando dos meus problemas mentais, só isso.
— Nem, você tá é sofrendo lavagem cerebral. – De novo com isso? Que saco…
— Enfim, vá pro seu quarto e se alimente.
— Você não vai subir comigo?
— Não, eu tenho que ir brincar com as crianças.
— Mas tem uma coisa que eu quero te dar, acho que você vai gostar.
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Sawdust
HororApós afogar as mágoas na bebida por conta do término de seu namoro, Elliot Taylor acorda nu em uma oficina de marcenaria. Ele tenta lembrar o que aconteceu e, ao conhecer o belíssimo marceneiro, tira a conclusão de que dormiu com ele na noite anteri...
