72 - Genética

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— Olha, eu não quero ser um babaca, mas eu te avisei. – Owen falou, após ler até pouco depois da minha ficha médica. – Tinha algo esquisito quando aquele seu advogado veio me procurar, ele não apenas enfatizou que eu não deveria falar sobre as suas mortes, como também tive que passar por uma porrada de exames depois da visita dele, aposto que foi pra checar se eu tava infectado.

— Se eles soubessem de antemão que você tava infectado, não teriam te deixado fugir depois da execução.

— Talvez não se importassem comigo… Ou talvez não soubessem.

— Como? Se fizeram exames, deveriam ter como saber.

— Talvez por não estar ativo. 

— Não. – Rolei a página, até onde mostrava um dos meus exames. – Viu? Aqui diz que eu testei positivo, e isso foi antes da minha morte.

— Hm… Então podem ter achado que eu não iria reviver.

— Hã? – Ele colocou a mão sobre a minha e rolou a página ainda mais, até a parte onde mostrava os outros candidatos.

— Olha só, todas essas crianças são brancas pra caralho, devem ser ao menos 80% européias, assim como você. – Ele rolou pra baixo, até a minha página. – 85% europeu, 7% africano, o que deve explicar seus belos lábios, 5% nativo-americano e 3% do leste asiático. Deve ter algum motivo pra terem feito esse mapeamento genético.

— E daí? – Eu tirei minha mão de baixo da dele, estava ficando desconfortável. – Você também é branco.

— Mas não o “branco” que estão procurando. – Ele colocou o notebook sobre a mesa de cabeceira, apenas para ficar cutucando a minha bochecha. – Meu avô era sul-italiano, não acho que eu tenha tantos ancestrais do norte europeu quanto você. E eu não sei quem é o meu pai, não tenho ideia de que tipo de genética ele pode ter me dado. Eu devo ser mestiço, pois minha mãe saía com mais latinos do que brancos. – Dei um tapa em sua mão e coloquei o coelho entre nós, então ele a pegou e começou a acariciar sua barriga.

— Não vejo como isso possa fazer sentido, é um vírus. Não dá pra escolher a quem vai afetar.

— Aposto que os geneticistas conseguem. Existem vírus que afetam apenas humanos, outros que afetam apenas alguns animais… Ai! – Eu ri quando o coelho mordeu o dedo dele. – Sua vadia! – Ele a colocou no chão e ela começou a pular por aí, então a peguei de volta.

— Mas por que iriam querer que afetasse só gente branca?

— Hm… O nome “Neumann” é alemão. Eles eram tão brancos quanto você?

— Sim… Diria que até mais.

— Devem ser nazistas.

— Que?!

— Pensa bem, não é a primeira vez que os nazistas mexem com genética, e se fossem criar uma raça imortal, certamente não iam querer que ela não fosse branca.

— Mas os nazistas não odeiam gays?

— Sim, mas também não gostas de cristãos.

— Então por que me escolheriam?

— Hm… – Ele alisou a barba, pensativo. – Parece que esse vírus ainda não é estável. Temos que comer carne fresca, morremos e voltamos ao invés de simplesmente não morrer, e também tem os fantasmas…

— Mas eu não vejo fantasmas.

— Talvez por você ter a genética certa, então eles já ajeitaram essa parte. Mas não o resto, eles te escolheram pois você poderia ser descartado caso não fosse perfeito.

— Você tá inventando.

— É uma teoria, só podemos confirmar se conseguirmos achar uma forma de fazê-los contar a verdade. Esse documento parece ser só uma parte de um todo, aposto que você não é a primeira cobaia e que não vai ser a última.

— Não tem como eu ver aqueles desgraçados de novo, não quero.

— Tá bom, então vamos continuar lendo pra ver o que a gente pode descobrir. – Ele estava prestes a pegar o notebook, mas percebeu que a tela estava apagada. Tentou ligar de novo, sem sucesso. – Merda… – Peguei o notebook e cliquei no botão de ligar, mas realmente não funcionou.

— Ah, não, eu deixei o carregador em casa!

— Mesmo que tivesse trago, eu não tenho eletricidade aqui. Vamos pra lá.

— Não quero voltar agora, ou eu terei que encarar a Irmã Janice, e não vou conseguir me calar sobre isso…

— Você vai ter que encarar isso uma hora ou outra, aquela velha escondeu as coisas de você.

— Não fale assim dela!

— Por que a está defendendo?

— É… Complicado.

— Tá, foda-se. Se não quer ir pra casa, vamos pra biblioteca. Eles devem ter carregadores pra emprestar.

— De jeito nenhum, eu não quero ir a um lugar público e arriscar encontrar alguém da igreja, os seminaristas estão sempre na biblioteca.

— Eu posso te emprestar uma roupa… Mas acho que as calças devem ficar apertadas.

— Não é isso, é que… – Suspirei e me deitei, olhando para a tinta descascada do teto. – Eu me sinto usado, não quero ver ninguém. Preciso de um tempo pra pensar antes disso. – Ele se deitou ao meu lado.

— Então tá bom. – Ele me encarou, e eu encarei de volta. – Pode ficar o tempo que quiser… – Meu coração disparou. Ele estava sendo tão gentil, será que era a maconha que ele fumou, ou será que ele havia mudado? – Mas compra comida pra gente, eu tô com fome. E também preciso de material de limpeza, papel higiênico, água potável… – Não, esquece.

— Então é isso que você tá querendo, não é? – Reclamei, mas peguei meu celular pra pedir comida.

— Bem, não só isso. – Ele colocou a mão na minha coxa, subindo os dedos para dentro do meu short. Então eu soquei seu braço.

— Para com isso! – Ele riu. – Eu sou um padre, tenha respeito!

— Tá bom, eu não vou te tocar. Mas eu realmente preciso de papel higiênico.

— Se não ficasse gastando dinheiro com maconha, não precisaria!

— Mas se eu não fumar eu não consigo dormir, se eu não dormir eu não consigo trabalhar, e se eu não trabalhar eu não tenho dinheiro… – Suspirei, pesadamente.

— Vou comprar o que você precisa, então pare de arrumar desculpas!

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