Foi difícil dormir aquela noite. Muito quente, ruim de respirar, as calças que Owen havia me emprestado estavam apertadas e eu ficaria envergonhado de me despir para dormir ao lado dele. Ele também roncava, mas aquele não era o único barulho que me incomodava. Dava pra ouvir uma música estridente vindo do andar de baixo, e chegou um momento em que um casal começou a transar no quarto ao lado. Eles eram tão barulhentos que até mesmo Owen acordou para xingá-los.
— Que inferno! – Socou a parede. – Parem com essa porra ou eu vou enfiar um pedaço de pau no seu cu e empurrar até sair pela boca!
— Pelo amor de Deus, Owen… Pare de falar esse tipo de coisa.
— Esses filhos da puta não me levam a sério. – Eles realmente não levavam, tanto que continuaram o que estavam fazendo. – Viu? Um dia eu vou perder a paciência e vai ter um massacre nessa porra.
— Por que não vai embora?
— Pra onde?
— Tem o abrigo da igreja, você pode ir pra lá…
— Posso levar meus coelhos?
— Não, mas eu tomo conta deles pra você.
— Nem pensar, você vai acabar comendo a Jennifer.
— Então arruma um emprego e aluga um quarto, agora você tem documentos.
— Pra ter um emprego eu preciso de um endereço, pra ter um endereço eu preciso de um emprego… Então o que devo fazer?
— Eu vou te ajudar, só não quero que você volte a matar pessoas.
— Ok, valeu. – Ele bocejou. – Agora vamos voltar a dormir, essa noite ao menos não tem fantasmas me acordando com paralisia do sono…
— Por que os fantasmas vão embora quando eu to contigo?
— Sei lá. Mas só vão os que eu matei, tipo, o cara que fica pendurado no teto da sala ainda tava lá quando a gente saiu mais cedo. Ele deve ter morrido aqui bem antes de eu chegar. Agora vamos dormir, boa noite.
— Boa noite. – Ainda assim, eu não conseguia dormir, independente do quanto tentasse.
Lembro dele ter dito que os fantasmas que o assombravam eram três de suas vítimas, e eu me perguntava por que a mãe do Owen não era um deles. Deus não deve ter permitido que isso acontecesse, pois, se ela continuasse ao seu lado, ele não pararia de matar. Pelo jeito já era difícil pra ele se controlar… Talvez só consiga por causa dos fantasmas.
De qualquer forma, eu não podia deixá-lo continuar vivendo naquele lugar, e também não aguentaria mais uma noite ali. Mas eu não queria voltar… Na verdade, eu queria voltar pra minha casa, pra minha cama, meu ar condicionado, e todo o conforto que eu tinha lá. O que eu não queria era ter que encarar a Irmã Janice. Não queria a discussão, as lágrimas, os sentimentos… E também, discutir ia ser ruim pra ela, já que ela não podia falar muito. Cuidar dela era minha responsabilidade… Será que era?
Ela nunca quis realmente que eu cuidasse dela, fui eu que insisti. Tinha muita gente disponível pra tomar esse papel, eu não tinha obrigação alguma. Acho que… Acho que eu estava projetando nela a relação que eu queria que tivéssemos, de mãe e filho, só que o exemplo mais memorável que eu tinha era do Owen e da mãe dele. Mas a mãe dele era ruim pra ele, enquanto a Irmã Janice… Espera, ela também não foi tão boa assim pra mim.
Ela me enganou, me vendeu como gado, me entregou para ser devorado por leões e, quando eu estava machucado o suficiente, me trouxe de volta e fez eu me sentir culpado. Ela fez com que eu ferisse a mim mesmo. Então, me deu a liberdade, mas, por conta do que ela permitiu que os Neumann fizessem comigo, continuei sofrendo. Me tornei um assassino. E então me trouxe de volta para o lado dela… Por quê? Por amor? Não, foi pra me controlar.
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Sawdust
HorrorApós afogar as mágoas na bebida por conta do término de seu namoro, Elliot Taylor acorda nu em uma oficina de marcenaria. Ele tenta lembrar o que aconteceu e, ao conhecer o belíssimo marceneiro, tira a conclusão de que dormiu com ele na noite anteri...
