50 - Coelho

76 16 4
                                        

Depois daquele dia, tive que voltar a tomar meu antipsicóticos pois via o rosto de Owen em todo lugar. Parece que não importava o tempo que havia passado, não importava o fato de que ele já estava morto, eu nunca ia me recuperar completamente. Ainda assim, minha terapeuta recomendou que eu não mudasse o local onde eu fazia meu trabalho de caridade. Ela disse que da próxima vez que eu visse o Daryl, eu ia perceber que ele não se parecia com o Owen nem um pouco… Mas isso não aconteceu.

Passei mais uma semana indo até aquela ocupação para entregar comida e suprimentos, mas quanto mais eu olhava pro Daryl, mais ele parecia o Owen. Não apenas seu rosto, que eu pude ver com mais clareza sob a luz do poste, mas também a forma como ele falava, a escolha das palavras, a maneira que ele andava… A forma como mudava na frente das pessoas comparado com como ele agia quando eu o via sozinho, as microexpressões. Mas era muito provável que eu estivesse mudando a maneira que Owen se parecia na minha cabeça, apenas porque meu cérebro havia associado os dois.

— Padre, você consegue umas madeiras pra mim? – Fiquei chocado quando ele pediu aquilo quando eu estava dando sua sopa. – E uma serra, um martelo e uns pregos.

— Você sabe usar uma serra? E não me chame de Padre, ainda não.

— Mas tem mais graça te chamar assim.

— Hm? – O que ele queria dizer com isso?

— Enfim, eu era marceneiro antes de ficar lelé.

— Sério? – Owen também era marceneiro… – Posso te ajudar a arrumar um trabalho, sempre estamos precisando de alguém no orfanato.

— Ah, o orfanato! Claro. Mas não, eu já tentei arrumar um emprego mas aqueles desgraçados não calam a boca e eu não consigo me concentrar.

— Quem, os fantasmas?

— É, não dá pra fazer um trabalho perigoso enquanto eu tô sendo assombrado. Mas olha que interessante, sempre que você tá por perto eles vão embora. Deve ser a sua presença divina. – Riu. – Ou minha consciência, se é que eu tenho alguma. Aliás, para de forçar a voz. Eu gosto quando você fala mais suavemente. – E assim, ele simplesmente saiu. Aquele cara era tão…

— Ele é esquisito.

— Ah, oi Shaniqua. – Eu a conhecia bem, Shaniqua estava morando lá a alguns meses. Ela e suas duas crianças estavam fugindo do marido abusivo e, já que eu tinha experiência com esse tipo de relacionamento, estava sempre dando conselhos. – Tudo bem com você?

— Tudo, sim.

— E as crianças, onde estão?

— Eu falei pra elas ficarem lá dentro, tá muito frio.

— É verdade, esse tempo não é bom pra elas. Vou te dar comida pra você levar.

— Obrigada, Irmão. Sobre aquele rapaz, o Daryl…

— Eu sei, ele é esquisito mas parece ser um cara legal.

— Sim, todo mundo diz isso, mas… Eu ouvi que ele tá sempre naquele prédio perto do bosque, o que tem uma colônia de gatos. Algumas pessoas o viram correndo atrás deles.

— Ah, ele deve gostar muito de gatos.

— Não acho que esse seja o caso, ou ele já teria pego um pra criar a essa altura. Mas aconteceu uma coisa, meus filhos foram lá pra brincar com eles. Você sabe, eu não deixo eles trazerem pois a mais nova é alérgica, mas não vejo problema em irem lá brincar de vez em quando…

— Sim, e o que tem?

— Eles chamaram, mas um dos gatos não apareceu. Mais tarde, eles me perturbaram tanto que eu pedi ao Pablo pra ir lá comigo procurar e… Ele achou o gato, morto, com a barriga aberta e sem os órgãos. – Ah. Isso… Soa familiar. Mesmo assim…

— Shaniqua, eu sei que você está preocupada, mas pode ter sido qualquer um. Até mesmo outro animal.

— Mas algumas pessoas viram o Daryl voltar com sangue nas mãos e no rosto na noite anterior. Ele disse que se meteu numa briga, mas não estava machucado. – Não estava machucado…? É, parando pra pensar, o Daryl não tinha nenhuma cicatriz. Pra alguém que entra em brigas, isso é raro… Até mesmo o Owen tinha cicatrizes e calos nas mãos, por causa do trabalho. Como marceneiro, ele deveria ter também.

— Entendo sua preocupação, mas o máximo que posso fazer é chamar a polícia para investigar.

— De jeito nenhum! Se a polícia vier aqui, vão levar os imigrantes.

— Eu sei, e não vou fazer isso. Vou tentar falar com ele, tudo bem?

Ok, aquilo era mesmo estranho. Eu não apenas precisava falar com o Daryl sobre os gatos, como também precisava descobrir se ele era como eu. Eu definitivamente não era o único morto-vivo dos Estados Unidos, do contrário Owen não teria achado tanta informação na internet… Na verdade, se o Daryl era imortal, então… É, talvez eu não tivesse alucinando. Só tinha uma forma de descobrir.

No dia seguinte eu fui lá, como sempre. Dei sopa a todos e então, ao invés de voltar pra casa, peguei uma bolsa dentro do carro e subi para o quarto do Daryl.

— O que foi, tá pegando fogo no prédio? Se não estiver, não me incomode. – Ele gritou assim que eu bati na porta.

— Sou eu, o Irmão Elliot. Trouxe algo pra você.

— Tá bom, um minuto. – Tive que esperar um pouco, mas ele acabou abrindo a porta. – O que você trouxe, um martelo? Eu peguei algumas madeiras e móveis velhos no lixo. – É, aquele cômodo estava diferente de antes. Haviam pedaços de madeira e móveis quebrados em todo canto, assim como alguns livros velhos, lixo e roupas sujas no chão. Bem bagunceiro, igual ao Owen.

— Eu te trouxe isso. – Coloquei minha mão dentro da bolsa, gentilmente retirando aquela bola de pelos de dentro dela. O rosto de Daryl se iluminou, surpreso.

— Olha, um coelho?! Então esse era o cheiro que eu tava sentindo. – Evidência número um, uma pessoa normal dificilmente sentiria o cheiro de um coelho assim, nem mesmo do cocô deles. – Mas pra que, tá me dando um bichinho?

— Não, um coelho não consegue sobreviver num lugar assim. Eles precisam ficar numa gaiola ou sendo supervisionados, ou vão acabar achando uma forma de se matar.

— Assim como algumas pessoas. – Riu. – Então, por que trouxe isso?

— Está com fome?

— Não, acabei de comer sua sopa. Tava boa, aliás.

— Sabe, às vezes eu fico com muita fome. É uma fome que nenhuma comida no mundo consegue satisfazer, a não ser um tipo específico de carne. – Eu também peguei um martelo dentro da bolsa e dei a ele. Ele encarou a ferramenta, então o coelho, depois olhou para mim e sorriu de lado. Sim, aquele sorriso malicioso que eu conhecia bem. Então, a garra do martelo atingiu a cabeça do coelho, o matando instantaneamente. Ele passou os dedos no sangue que escorreu do ferimento e lambeu, olhando fixamente em meus olhos. – Pode parar de fingir agora, Owen. Eu sei que é você.

SawdustOnde histórias criam vida. Descubra agora