58 - Bêbado

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As coisas perderam o rumo muito rápido. Em um instante eu estava na cozinha, e no outro conversava e ria de coisas estúpidas junto com os outros bêbados em volta da fogueira no quintal. Eu já tinha tirado meu clérgima e enrolado as mangas da camisa pois não sentia mais frio, e não acho que estava conseguindo disfarçar minha voz. Aaliyah havia colocado algumas músicas no celular e algumas pessoas estavam dançando, mas eu consegui me segurar até reconhecer a batida de uma música que eu costumava dançar bastante quando ia pra balada.

— Ai, meu Deus! – Berrei. – Eu amo essa música!

— Sério?! – Aaliyah gritou de volta, também estava muito bêbada. – É a minha favorita!

— Somos bffs musicais!

— Somos! – Nos abraçamos, e então começamos a cantar com a língua enrolada, rindo toda vez que cometíamos um erro. – Elli, você é o melhor!

— Você que é, Liyah! Eu te amo!

— Ai, eu também! Quero que conheça minhas amigas, elas vão te amar! Bora pro baile no próximo fim de semana!

— Pro baile? – Sorri. – Eu adoraria, faz tanto tempo… – Nos esbarramos, e isso fez a pequena cruz de ouro que eu carregava em volta do pescoço pular pra fora da minha camisa semi-aberta. – Que isso… Ah! Desculpa, eu não posso ir pro baile com você porque vou virar padre, eu não devia nem tá bebendo, mas esse vinho é tão bom! – Minha voz estava arrastada, e eu tive dificuldade pra colocar a cruz pra dentro da camisa e tentar fechar os botões. – Deus, me perdoe, eu tô encrencado…

— Calma. – Ela riu. – A gente só vive uma vez, né? Então antes de virar padre, bora se divertir porque quando você morrer, morreu, e você não é Jesus então não vai ressuscitar.

— Não, bobinha! – Ri também. – Eu sou imortal, Deus me fez assim. – Aproximei minha mão do fogo. – Olha, eu nem vou me machucar e…

— Tá bom, chega. – Alguém segurou minha mão. – Foi divertido ver sua personalidade vazando, mas já é hora de parar. – Olhei pra pessoa que falou, ele era tão bonito…

— Oi gato, vem sempre aqui? – Perguntei, mordendo os lábios.

— Para de graça. Sou eu, o Daryl.

— Quem é Daryl? Não conheço nenhum Dar… Ah! Owe- – De repente, colocou a mão sobre a minha boca pra que eu parasse de falar.

— É hora de ir pra casa. – Sua mão na minha boca tinha um cheiro tão bom, eu queria mordê-la… E assim o fiz, tomando um de seus dedos em meus lábios e cravando meus dentes nele. – Ai! Seu filho da puta!

— Eca, por que seu gosto é tão ruim…? – Falei, cuspindo pra tentar tirar aquele gosto horrível da minha boca. Parecia podre, nada como sangue humano. – Me dê mais vinho, preciso tirar isso da boca!

— De jeito nenhum, você tá bêbado demais e vai começar a falar merda! Onde você mora? Vou te levar pra casa. – Comecei a rir.

— Não, não e não! Acha que eu sou burro? Não vou cair nessa duas vezes. – Ele bufou.

— Não vou fazer nada contigo, só me fala onde você mora…

— Ei, se ele diz que não vai com você, então não vai. – Pablo surgiu atrás de mim, colocando uma mão no meu ombro e me puxando pra perto.

— Não se meta onde não foi chamado! – Owen segurou meu braço e me puxou de volta.

— Seu filho da…! – Pablo o segurou pela gola camisa.

— Uau! Adoro ver dois caras brigando por mim!

— Meninos, parem! – De repente, Shaniqua saiu de dentro da casa.

— Não, vai acabar com a diversão… – Reclamei, e ela correu até mim.

— Meu Deus, Irmão Elliot! – Falou, ajeitando minha camisa. – A Liyah te deu vinho demais, né? Eu disse pra ela cuidar de você!

— Eu não fiz nada… – Aaliyah reclamou.

— Não, nós somos bffs! – Falei.

— Você sabe onde ele mora, Shaniqua? – Owen perguntou.

— Não vou deixá-lo ir com você! – Pablo falou novamente, com a voz firme.

— Pablo, tá tudo bem. – Shaniqua disse. – Eles se conhecem, então é melhor que o Daryl lide com a situação.

— Tem certeza? Eu não confio nesse cara.

— Sim. Se não puder confiar nele, então confie em mim. – Pablo bufou.

— Tá bom.

— Ok, vamos. – Shaniqua e Owen me levaram até a porta da frente, e se não fosse por eles me guiando, eu teria tropeçado o caminho inteiro. Tudo estava girando, minhas pernas estavam bambas.

— Sabe, Shaniqua, você não devia confiar no Owen, ele é- – De repente, Owen bateu na minha bunda. – Ai, meu Deus! Seu safado!

— Só tô procurando o seu celular e as chaves do carro, onde você enfiou?

— Pra que, vai ligar pra mamãe? – Ri.

— Cala a boca, se começar com essa merda eu vou deixar você continuar envergonhando a si mesmo. – Colocou as mãos nos meus bolsos da frente, finalmente encontrando o que queria. Puxou o meu dedão, tentando desbloquear, sem sucesso.

— Haha, você nunca vai conseguir.

— Então me diz a senha, é bem óbvio que não vai conseguir digitar.

— A senha, qual era mesmo…?

— Elliot, para de graça!

— É por reconhecimento facial, já o vi desbloquear uma vez.

— Reconhecimento facial? Nunca iria imaginar…

— Ele não sabe dessas coisas porque tava na prisão!

— Na prisão?! – Shaniqua perguntou, surpresa. – Você é bandido?

— E daí? – Ele retrucou, balançando o celular na frente do meu rosto enquanto Shaniqua tentava me fazer sentar no banco do passageiro. – O Elliot também foi pra prisão e não, eu não sou bandido.

— Ei, não era pra contar!

— Você contou primeiro.

— Tá, eu vou manter segredo. Mas então foi lá que vocês se conheceram?

— Não. Mas não vou falar sobre isso, e também não diga meu nome verdadeiro pra ninguém. Cadê… Merda, eles mudaram tudo.

— O que você tá procurando?

— Um mapa, o endereço dele deve estar registrado lá.

— Deixa eu achar pra você, eles mudaram o ícone a alguns anos… – Ela pegou o celular da mão dele e ficou procurando e procurando. Enquanto isso, eu já havia ligado o rádio e estava trocando de estação. – Aqui, é só seguir que você chega lá.

— Tá bom, valeu.

— Mas peraí! – Chamou, enquanto ele entrava no carro.

— O que?

— Você tá bem pra dirigir? Estava bebendo…

— Tô sim, eu nunca fico bêbado.

— Então tá bom, você realmente parece estar sóbrio, então vou confiar. Mas, por favor, o deixe em casa são e salvo.

— Pode deixar.

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