64 - Adeus

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- Você vai nos deixar? - Dona Shirley perguntou quando, após ficar ausente por alguns dias, fui até a ocupação para me despedir.

- Não se preocupe, vocês não ficarão sem assistência. Outra pessoa vai ser responsável por essa área.

- Mas nós realmente gostamos de você, Irmão Elliot. É como se fosse da família.

- Agradeço muito, Dona Shirley, e sinto o mesmo por vocês. Mas no momento, não posso continuar.

- É por causa do que aconteceu na festa de aniversário do Ben? Me desculpe, eu não devia ter insistido pra você tomar meu quentão...

- Não, de jeito nenhum! - Sorri, tentando disfarçar o nervosismo por ela ter mencionado aquilo. - Tenho só alguns meses até minha ordenação, preciso me dedicar aos estudos. Mas ainda irei ajudá-los, através de doações.

- Não pode vir nos visitar de vez em quando?

- É difícil prometer, mas vou ver o que posso fazer.

- Venha ao menos no Natal. - Ela insistiu.

- No Natal eu estarei muito ocupado com as cerimônias, mas vou ver se consigo vir em alguma outra data. - Era uma pena, eu tinha me afeiçoado àquelas pessoas, mas precisava ficar longe do Owen e não podia simplesmente fazê-lo ir embora. Caso fosse por conta própria, então eu os visitaria, mas não enquanto ele vivesse lá. Ainda assim, eu tinha que acertar as contas com ele. - Aliás, o Daryl tá em casa?

- Ele deve estar no quarto, não tem saído muito nos últimos dias... - A agradeci e fui até o meu carro pegar as coisas que precisava dar a ele, antes de subir as escadas. Bati algumas vezes, e levou um tempo pra ele aparecer.

- Ah, é você. - Falou, esfregando os olhos. - Entra.

- Desculpe, te acordei?

- Sim. - Bocejou, coçando as costas. - Eu tenho trabalhado muito ultimamente.

- Posso vir outra hora...

- Você já me acordou, não foi? - Respirei fundo, tentando não responder à grosseria, embora ele tivesse razão. Aquilo ia acabar logo, eu não precisaria mais lidar com ele. - Então fala, o que você quer?

- Vim me despedir. - Ele me encarou, piscando duas vezes, evidentemente surpreso.

- Vai se mudar ou algo do tipo?

-Não, mas não virei aqui novamente. Não acho que vá ser bom pra nenhum de nós se continuarmos a nos ver.

- Hm? Tem sido bom pra mim, eu gosto de ficar perto de você.

- Mas não pra mim. Preciso focar no meu sacerdócio e você é uma tentação. Não posso mais ficar perto de você. - Ele suspirou, revirando os olhos.

- Foi aquela velha que te disse isso?

- "Velha"?!

- É, aquela freira fedorenta. Você nunca se perguntou se ela não tá escondendo alguma coisa de você? - Do que ele tá falando...? - Porque assim que ela me viu, não parou de tagarelar sobre ter cometido um erro ao te deixar sair pro mundo quando você fez 18 anos, que você não deveria ter me conhecido e que, por causa disso, ela era responsável por deixar um "monstro", como ela se referiu a mim, viver. Isso fez eu me perguntar se ela não tem alguma coisa a ver com essa doença. - Como assim? Ele mesmo disse, foi o Grayson que me infectou... Não foi? Não, ele só tá tentando me colocar contra a Irmã Janice.

- Owen, eu conheço a Irmã Janice desde que eu era criança, e confio nela. Mesmo que ela esconda algo de mim, sei que é pro meu bem. A única pessoa em quem eu não posso confiar é você.

- Eu não mentiria sobre isso, já que também me afeta.

- Talvez não sobre a doença, mas sobre todo o resto, sim, você mentiria. Até pra me fazer te amar, você mentiria, você tentaria me manipular porque é assim que você é.

- Elliot, a única vez que eu menti pra você foi quando o povo da sua igreja me pediu, quando seu advogado me visitou na prisão e disse pra eu te tratar mal, só pra você parecer traumatizado o suficiente pra poder ser solto. Não vejo outro motivo pra precisar fazer isso, você sabe quem eu sou de verdade.

- Olha, mesmo que o que você está dizendo seja verdade, eu não acredito. - Ele sentou na cama, suspirando pesadamente e esfregando o rosto com a palma da mão.

- Quer saber? Foda-se! Faz o que você quiser, joga o jogo deles, vira padre pra tentar esconder quem você é de todo mundo, ou o caralho que for! Eu não tô nem aí!

- Que bom que entendeu. Não quero que me procure, muito menos que me persiga.

- Perseguir?! De onde você tirou essa merda?! Eu nunca persegui você!

- Apenas me esqueça, ok? Trouxe cinco coelhos dessa vez, uma das fêmeas está grávida, então você vai ter mais em breve. Mantenha duas fêmeas e um macho e coma o resto. Tem um guia de como criá-los e dinheiro o suficiente pra um mês de ração.

- Tá, tanto faz, vai embora logo.

- Tudo bem. - Ele estava certo, eu não devia prolongar aquela conversa. Mesmo hesitando, sabia que era apenas o demônio me tentando a quebrar minha santidade, então me virei e andei até a porta.

- Mas Elliot. - Chamou, e eu parei pra ouvir o que ele tinha a dizer. - Quando você descobrir a verdade, sei que não terá em quem confiar além de mim, então estarei esperando. Mas não demore, ou posso mudar de ideia.

- Adeus, Owen.

- Até logo.

Sem falar mais nada, fui embora. Foi impossível não chorar, durante o caminho pra casa e durante a noite inteira, que passei em flagelação. Aquela despedida me destruiu, mas foi o melhor a se fazer. Mesmo que eu ainda carregasse aquele sentimento em meu peito, sempre que me fazia querer vê-lo, eu pegava meu chicote para expulsar aqueles pensamentos da minha mente.

Poucos meses depois, terminei meu seminário sem problemas, e logo o dia da minha ordenação chegou.

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