- Você não precisava ter comprado nada pra mim. - Reclamei, o seguindo pelas escadas. Mas então, conforme ele abria a porta, parei.
Eu não podia confiar nele. Afinal, por que Owen se daria ao trabalho de comprar algo pra outra pessoa enquanto estava vivendo na pobreza? Ele podia estar me atraindo pra poder me atacar. E também, o quarto dele era sempre nojento... Ou nem tanto. Quando a porta se abriu, pude notar que estava um pouco limpo. Ainda bagunçado, com madeira e ferramentas em todo canto, mas não via nenhum lixo.
- Você limpou...
- Sim. Meu nariz tá mais sensível, daí o cheiro tava me irritando, assim como as moscas. - Ele olhou pra trás, erguendo uma sobrancelha. - Não vai entrar?
- Uh... - Será que eu deveria? - Vou esperar aqui fora. - Ele olhou pra mim e suspirou, então começou a fuçar as gavetas de uma cômoda reformada.
- Eu escondi bem pra ninguém roubar... Ah, tá aqui. - Tirou uma caixa em formato de coração de dentro da gaveta inferior. - Espero que goste. - Hesitantemente, peguei a caixa de sua mão e a encarei. Aquilo era... Chocolate? Sério? E de uma marca cara, ainda por cima...
- Por que chocolate?
- Eu perguntei por aí que tipo de presente deveria dar pra alguém que eu gosto... - Espera, o que? - A maioria disse flores, mas achei que chocolate seria mais a sua cara, já que você gosta de comer. - O encarei, com os olhos arregalados, sem ter certeza de como reagir. - Olha, suas bochechas estão vermelhas. Isso é tão fofo, posso apertar? - Sorriu, e foi aí que eu percebi. Ele tava tirando uma com a minha cara.
- Se quer me chamar de gordo, é só dizer! - Joguei a caixa de chocolate em cima dele e me afastei.
- Espera, Elliot! - Ele me seguiu. - Por que ficou com raiva? Eu acabei de dizer que gosto de você!
- E espera que eu acredite? Como disse, eu te conheço melhor que ninguém, né? Então sei que você é manipulador e mentiroso.
- E você disse que não me conhece, então será que pode apenas aceitar que eu tô sendo sincero?
- Como posso ter certeza disso? Eu lembro das coisas que você disse no meu julgamento, e foram horríveis!
- Eu fiz o que tinha que fazer, foi a única forma de te soltarem! Não era tudo verdade!
- Então você admite que é um mentiroso? - Suspirou.
- Elliot, quando eu soube o que aconteceu com você na prisão, não quis que você ficasse lá por nem um minuto a mais. Naquela época não sabia o motivo, mas eu senti como se... Sei lá, era como se alguém tivesse entrado na minha oficina sem minha permissão e gastado minhas ferramentas. - Mas que merda ele tá falando?! - Então sim, eu tive que fazer você me odiar pra te proteger.
- Sua oficina? Você tá me comparando com as suas ferramentas?!
- Elas eram importantes pra mim, ainda tô puto por ter perdido tudo.
- Owen, eu não sou uma ferramenta! Sou uma pessoa, e tenho sentimentos!
- Sei disso, é que... Sentimentos são complicados, eu... Eu já te disse, nunca os entendi direito. - É, ele havia dito algo do tipo no dia de sua execução. Mas eu não entendo, ele não é completamente sem emoção... - Tenta entender, por favor.
- Você diz que são complicados, mas pode sentir medo. Não só agora que está com medo dos fantasmas, mas mesmo antes, você sentia.
- Você tem razão! Eu tenho medo de fantasmas, zumbis e essas coisas desde que era criança, então consigo identificar esse sentimento. Raiva também, é fácil de lidar com ela. Mas você sabe do que mais eu tenho medo?
- Não, e não tô nem aí.
- Mas eu vou dizer mesmo assim. Eu tenho medo de você, e das coisas que me faz sentir. - Parei para encará-lo, confuso.
- Por que você teria medo de mim? Eu não sou perigoso.
- Não é? Você é mais forte do que pensa, até mat-
- Ha! Te achei! - O pequeno Ben gritou, da escada, apontado pra nós. Então, correu pra voltar para o quintal.
- Espera, não corra nas escadas! - Pedi, indo atrás dele. Eu fiquei aliviado por ter sido interrompido, pois sabia o que Owen estava prestes a dizer e não queria que ninguém ouvisse sobre o meu passado.
- Elliot! - Owen chamou, e eu olhei pra ele novamente. - Pode aceitar meu presente?
- Por que eu deveria?
- Porque eu ralei muito pra comprar.
- E daí? Eu não te pedi nada.
- Ok, porque eu gosto de você e quero que você goste de mim. - Suspirei.
- Você não consegue dizer nada sem se colocar em primeiro lugar, não é?
- Eu sou assim mesmo... Mas estou sendo sincero, eu juro.
- Tá bom. - Puxei a caixa de sua mão. - Mas só vou aceitar porque eu gosto desse chocolate. - Ele riu.
- É bom ver que você ainda tá aí. - Eu realmente queria mostrar o dedo do meio pra ele, mas, ao invés disso, soltei um rosnado frustrado e saí.
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Sawdust
Kinh dịApós afogar as mágoas na bebida por conta do término de seu namoro, Elliot Taylor acorda nu em uma oficina de marcenaria. Ele tenta lembrar o que aconteceu e, ao conhecer o belíssimo marceneiro, tira a conclusão de que dormiu com ele na noite anteri...
