63 - Flagelo

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Meu coração acelerou, minhas mãos começaram a suar mesmo com o frio que fazia. Eu mal conseguia respirar. Jamais esperei ver aquilo novamente, por isso não consegui desviar o olhar daquela corda de couro trançada, tão manchada por sangue que sua cor marrom já estava quase preta. Era o meu sangue. Achei que tivesse me livrado daquele chicote há anos, então por que o estava vendo novamente?

— Você precisa se lembrar do sofrimento que Jesus suportou para nos salvar.

— Não, Irmã, por favor! Eu já passei por muita coisa, sei bem o que é sofrimento!

— Sim, e eu te tratei com carinho pois sei o quanto você sofreu, mas parece que esqueceu!

— Eu juro, não esqueci!

— Se não tivesse esquecido, não estaria deixando aquele assassino voltar pra sua vida! Não teria esses desejos pecaminosos por ele!

— Eu vou rezar! Prometo, vou rezar o dia inteiro pra que Deus tire esses sentimentos de mim. Mas por favor, o chicote não.

— Rezar não basta! Agora pegue o chicote e se ajoelhe em frente à cruz.

— Irmã, por favor…! – Tentei abraçá-la, mas ela me empurrou.

— Se não fizer o que estou mandando, terei que informar o Vigário. Você não vai se formar nem tão cedo e provavelmente terá que voltar ao programa de reabilitação, e aquele que está tentando defender vai ser levado pelas autoridades. – Engoli a saliva. – Agora, eu quero confiar que você não vai ser seduzido por essas tentações demoníacas sem que eu tenha que tomar medidas tão drásticas, mas terá que provar seu mérito. – Encarei o chicote, minha respiração ainda estava pesada, mas tentei me acalmar. Ia ficar tudo bem, dessa vez só ia doer por um tempinho.

— Tá bom, eu… – Peguei a corda de couro, hesitantemente. Minhas mãos estavam tremendo. – Vou mostrar que pode confiar em mim. – Me levantei e voltei para a sala de estar, me ajoelhando em frente ao pequeno altar que tínhamos. A bíblia estava sobre a mesa, junto a um rosário, e pendurado na parede havia uma imagem de Jesus crucificado. As lágrimas começaram a cair, mesmo antes de começar. – Qual passagem, Irmã?

— Vamos começar com Mateus 26:41. – Folheei as páginas, encontrando facilmente. Já estava acostumado com a bíblia. – Você sabe o que fazer.

— “Vigiai…” – Hesitei. Estava tremendo muito, eu não tinha como fazer aquilo!

— Vamos, Elliot! Absolva o pecado! – Respirei fundo, tentando me acalmar, pois já estava arfando alto. Não adiantou muito, mas ao menos pude segurar o couro em minha mão com mais firmeza.

— “Vigiai…” – Prendi a respiração, e minha mão finalmente se moveu. O som do couro quebrando o ar me fez tremer, mas a trança pesada, reforçada pelas pequenas bolas de chumbo embutidas, inevitavelmente atingiram minhas costas. Gritei de dor, e minha voz quase não saiu mais. – “...e orai…” – Hesitei novamente, trêmulo. Como eu pude fazer isso com tanta facilidade no passado? Mesmo que agora eu fosse capaz de me curar, era difícil.

— Continue. – Respirei fundo novamente, e o fiz. Doeu da mesma forma, e eu gritei. Mas continuei.

— “...para que não entreis em tentação.” – Com cada palavra, sentia minhas costas serem dilaceradas pelo chicote, mas também podia sentir as feridas se curando. – “Na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca.”

— Marcos 7:20. – Procurei pela passagem na bíblia, e continuei com as chicotadas. Não sei quantas horas se passaram, ou quantas passagens eu li. Tiago 1:13, Lucas 4:1, Romanos 13:14 e muitas outras. Chegou um ponto em que eu mal sentia as chicotadas, estava ficando anestesiado. – Tiago 1:12. – Quando ela disse aquilo, suspirei de alívio. Já sabia que seria o último.

— “Feliz é o homem que persevera na provação; porque depois de aprovado receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu aos que o amam.” – Terminei, e agora eu não sentia mais dor.

— Descanse.

Quando ela falou aquilo eu caí, ofegante, e meu corpo foi tomado por um alívio imensurável. Um prazer diferente correu pelas minhas feridas enquanto elas se curavam, e quando aquela sensação finalmente passou, ao invés de ter medo como quando comecei, eu queria mais. Porque eu senti que meus pecados estavam sendo perdoados através da minha dor.

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