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O baile já tava fervendo quando a gente chegou. O som do paredão fazia o chão tremer, as rajadas de Glock cortavam o ar, anunciando que a tropa tava presente. As motos roncavam no meio da multidão, soltando aquele cheiro de gasolina misturado com pólvora. Era o meu mundo.

Assim que Gabriel desligou a moto, ele segurou minha mão, deixando claro pra todo mundo quem era a primeira-dama da noite. Os olhares vieram na hora. Tinha mona ali que me fuzilava com os olhos, desejando tá no meu lugar, mas a visão era uma só-eu que tava ali, ao lado dele, e isso não ia mudar.

- Vamo subir pro camarote, bebê? - ele falou no meu ouvido, apertando minha cintura.

Eu sorri de canto, ajeitando o cabelo.

- Bora, né. Quero minha bebida.

Subimos e logo de cara o cheiro de maconha bateu forte. Só tinha bandido na contenção-gerente, vapor, traficante brabo, os donos da pista. Gabriel foi cumprimentando um por um, aquele aperto de mão de cria. Eu já tava acostumada.

- Fala, Rlk! - um deles gritou. - Tá como, menor?

- Tô de boa, irmão. Só curtindo a noite.

Pegamos nossas bebidas. Whisky caro, energético importado, vodka que nem vende no mercado. Traficante não bebe qualquer coisa.

As meninas já tavam lá, jogando o avanço. Letícia, que já tava bebaça, me puxou pelo braço.

- Menor, esse baile tá sinistro! Olha isso aqui, tudo nosso!

Eu ri, levantando meu copo e brindando com ela.

Foi quando o DJ falou no microfone:

- SEGURA O JACARÉZINHOO QUE AGORA É SURPRESA! CAIO LUCCAS NA VOZ!

O baile explodiu. Quando ele puxou "Tudo que eu faço", senti Gabriel chegar por trás e me abraçar, colando o peito no meu.

"Gata, cê queria uma solução pros seus problema
Mas eu sou o maior problema que entrou na sua vida
Dia de operação, é pra você que minha mãe liga
A única novinha que se preocupa comigo"

Tudo que eu faço me lembra você
Tentei te esquecer, mas não consegui
Se perdeu por uma noite de prazer
Mas, pensando bem, é melhor assim..."

-Várias ligação sua pra atender tava no plantão, noites sem dormir, dia de operação e, se a bala comer. Vou pedir pra Deus pra olhar por mim -Gabriel, cantou no meu ouvido me deixando arrepiada, aquela era nossa música.

Encostei a cabeça nele, sentindo o momento. A vibe tava boa, ele parecia tranquilo. Era raro.

Depois entrou Filipe Ret. O baile inteiro cantou junto, só love. O Gabriel curtia, eu sabia.

-Filipe ret, me enforca, me arranha, me bota. GOSTOSOOO -Gaby, chegou do meu lado assim que tocou essa, e gritou eu só sabia rir.

-Vai, mandada -rir e ela riu junto.

Mas logo depois veio aquele minuto de silêncio. O DJ baixou o som e os tiros pro alto marcaram a homenagem pros irmãos que se foram.

Gabriel ficou sério, nem piscava. Sabia que isso mexia com ele.

O DJ voltou e agora era só funk!

Eu e as meninas descemos pra pista, jogando até o chão. Letícia tava gravando pros status, Gaby rebolando sem dó. Eu tava ali pra isso, meu primeiro baile depois de ser mãe.

Aí Gabriel chegou.

Me puxou pelo braço, colando a boca no meu ouvido.

- Se controla aí. Tô de olho.

Puxei meu braço de volta e revirei os olhos.

- Ah, me solta, Gabriel. Deixa eu curtir.

Ele me olhou sério, mas não insistiu.

Eu continuei. Peguei um lança, traguei devagar, sentindo a brisa subir, tá aproveitando a onda, tinha já f1 também.

Então Gabriel chegou de novo.

- Vou ali na boca resolver um bagulho.

Já sabia o que era, mas fiz o que sempre fazia: fingi que acreditava.

- Tá, cuidado.

Fiquei curtindo, mas sempre de olho.

-Bru, tira uma foto minha aqui por favor -pedi e assim ela fez, abrir meu twt e logo postei.

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O tempo passou, o sol começou a nascer e eu só coloquei o óculos escuro na cara, continuei curtindo o baile, heineken na mão junto com um bom baseado, tava na paz. Amém, ninguém me atazanou hoje.

Gabriel voltou e sussurrou no meu ouvido:

- Bora pra casa.

Eu aceitei. Já tinha curtido tudo que podia.

Subi na moto, segurei na cintura dele e deixei o vento bater no meu rosto. A noite foi minha. Agora era esperar o que mais ia vir.

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