Acordei com o barulho da Maria gargalhando no quarto, um riso solto, daqueles que até no mau humor bate diferente. Pisquei os olhos e vi o Relíquia sentado no chão, mexendo num bonequinho dela, falando fino, fazendo voz engraçada.
- Ó, Maria, teu pai é lindo, né? Fala pra mamãe parar de marra e voltar pro papai... - ele fez um bico, olhando pra mim de rabo de olho.
Eu só resmunguei, virando pro lado.
- Ih, vai começar cedo com papinho, maluco? Nem tomei meu café.
Ele deu um riso de canto, levantou e veio até a cama com a menina no colo.
- Qual foi. Tô falando sério. Olha aqui, ó... a gente tá de família, bonito, todo mundo junto. Tu não sente falta? - me encarou com aquele olhar de quem sabe que pega meu ponto fraco.
- Sinto falta de ter paz - respondi, seca, mas não consegui segurar um sorriso vendo a Maria tentando enfiar a chupeta na boca dele.
Ele sentou na beira da cama, colocou a pequena no meio e ficou alisando o cabelo dela.
- Tu é marrenta, mas eu te conheço... tu fica nessa pose só pra me ver correndo atrás.
- E tá correndo, né? - provoquei, me esticando pra pegar o celular no criado-mudo. - Só não esquece que quem corre demais cansa.
- Cansar? - ele soltou um riso abafado. - Por tu, eu corro até o fim da minha vida.
Fiquei quieta. Ele sabia a hora de jogar a frase que me desmontava. Peguei o celular pra mudar de assunto, mas a Maria começou a bater na minha perna, pedindo colo. Peguei ela, já sentindo aquele cheirinho inconfundível.
- Ih, garota, tá com o "presentinho" pra mamãe, né? - falei, levantando.
- Deixa que eu troco - Relíquia disse, se levantando também. - Tu se arruma, toma teu banho. Vou cuidar da nossa cria.
Fiquei só observando. Ele levou a Maria pra cima da cama e, entre resmungos dela e uns "fica quieta, filha", conseguiu trocar direitinho.
- Ó, aprendi, hein? Agora tu não pode mais falar que eu sou pai de internet - ele se gabou, voltando com a fralda limpa.
- Parabéns, medalha pra ele! - ri. - Agora vê se não some.
Terminei de arrumar ela, e tirei uma fotinha.
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minha vida❤️🩹
Ele ignorou, me puxou pelo braço de leve.
- Fica comigo, Preta... a gente já se fudeu tanto junto, já se perdoou tanto... agora podia ser diferente.
- Diferente como? - cruzei os braços. - Tu vai parar de me bater? Vai parar de sumir e me deixar sem notícia? Parar de me trair?
- Eu... - ele desviou o olhar por um segundo. - Eu posso tentar. Por vocês duas.
A Maria gritou "papa" e bateu palminha, quebrando o clima. Ele riu, me olhando como se ela tivesse dado a resposta que ele queria.
- Tá vendo? Até ela quer.
Eu revirei os olhos.
- Vou no shopping com a Gaby, comprar o look da Maria pro Natal. Tu fica com ela, aguenta?
- Claro que eu aguento. E outra, melhor que ela ficar com o pai do que com qualquer um aí. Só não demora.
Assenti e fui pro banho. Quando saí, ele tava no sofá, Maria deitada no peito dele, vendo Galinha Pintadinha no celular.
Cena bonita, mas perigosa pro meu coração. Peguei a bolsa, dei um beijo na testa da pequena e, antes de sair, ele puxou minha mão.
- Pensa no que eu falei, preta. Eu não sou perfeito, mas tu sabe... tu é minha fraqueza.
Saí sem responder, porque já sabia que se olhasse muito ia acabar cedendo.
Peguei minha moto, e desci o morro, Gaby já tinha avisado que ia guiar pra lá, pra nos ir pegar o uber.
Eu e a Gaby descemos do 483 e já fomos entrando no shopping na maior empolgação. O ar-condicionado bateu no rosto e eu já falei: - Ai, amiga, que delícia... lá fora tá o sol do Saara. Aqui parece até que a gente é rica de verdade.
Gaby riu. - E tu não é, não? Olha a unha, olha o cabelo, olha a bolsa. Quem te ver pensa que tu é patroa de Zona Sul.
- Patroa do Jacarezinho, amor - falei, jogando o cabelo pra trás. - Agora vambora, que a Maria Giulia tem que passar o Natal mais chique que muita madame aí.
A gente entrou na loja de criança e já começou a surtar com os vestidos. Eu mostrava um todo brilhoso, ela já vinha com outro cheio de tule. - Olha esse, Gaby! - peguei um rosa claro, cheio de pedra. - Imagina ela entrando na ceia com isso, um lacinho branco no cabelo...
- Hum... bonito é, mas é rosa demais. A menina vai parecer um cupcake. Eu voto nesse dourado aqui, que combina com o sapatinho que tu comprou mês passado.
Enquanto ela falava, meu celular vibrou. Olhei a tela e quase deixei cair: Biel.
Biel: "Sumida... qlf tá me evitando?" Biel: "Sonhei contigo ontem. Não era nada de inocente não 😉"
Eu mordi o lábio, sem querer sorrir. Gaby percebeu na hora.
- Quem é? - ela se aproximou, espiando. - Ihhhh... Biel? O ronca da Penha?
- Cala a boca, garota - empurrei ela de leve. - Não começa.
- Não começo nada... mas já digo logo: se tu tá falando com ele, é porque ainda não esqueceu.
- Esqueci mesmo não, bofe me trata como uma princesa.
O celular vibrou de novo. Biel: "Queria te ver hoje. Só nós dois."
Eu bloqueei a tela rápido.
- Bora pagar logo esse vestido antes que eu faça besteira.
Gaby pegou o dourado e o vermelho e falou:
- Leva logo os dois, mona. É Natal, é só uma vez no ano. E tu tem que tirar foto da Maria Giulia como a mais mais, lógico.
No caixa, meu celular tocou de novo. Dessa vez era áudio. Coloquei no ouvido e ouvi a voz dele, Gabriel baixa, arrastada:
- Fico pensando se tu ainda lembra de como era bom a gente junto.
Meu coração acelerou. Gaby percebeu de novo. - Tu vai responder, né? - ela arqueou a sobrancelha. - Se não responder, eu respondo por ti.
- Não vai, não. - sorri, pegando as sacolas. - Agora bora no salão marcar cabelo, make e bronze. Quero ficar impecável amanhã.
No caminho, ela ainda cutucou: - Mas tu tá ligada que Biel e Relíquia no mesmo Natal vai dar merda, né?
- Gaby, amanhã é Natal... quem briga no Natal? Ano novo eu passo com um, e natal eu passo com outro.