BIANCA🧿
O dia tava passando arrastado. Eu tentava me manter ocupada: dei banho na Maria, fiz almoço, lavei roupa, arrumei a casa. Tudo no automático, com aquele silêncio pesado que só a favela sabe ter quando a mente tá carregada. Mas por dentro eu tava fervendo.
O rosto ainda ardia do tapa do Gabriel, e a humilhação me corroía.
As meninas tinham passado a tarde comigo, revezando cuidado e conselhos. Quando deu por volta das cinco da tarde, ouvi o portão bater devagar. Era Bruna.
— Biiiiii, abre logo! — me gritando do beco.
Fui abrir. Bruna entrou com um sorriso malicioso no rosto e uma sacola na mão.
— Que que é isso? — perguntei, desconfiada.
Ela puxou a caixa da sacola e mostrou: um iPhone 16 Pro Max, lacrado.
— Teu presente.
— Presente? Tá maluca, Bruna? Eu nem tenho como te pagar isso.
Ela riu e jogou a caixa no meu colo.
— Não é meu não, feinha. Quem mandou foi o Biel.
Meu coração disparou na hora.
— Como assim o Biel?
— Ele já tá sabendo de tudo. Que o Gabriel te juntou, o celular quebrado... geral comentou no morro. Ele ficou puto e mandou isso pra tu. Disse que não era pra tu ficar sem ligue, pra tu não perder contato com o bofe né, lógico.
Fiquei sem reação, só olhando a caixa nas mãos. Gaby e Letícia, que tavam sentadas no sofá, se entreolharam.
— Caralho, Índia... esse bofe pinta. — Gaby falou, rindo de nervoso. — O cara te mandou logo o top de linha.
— Mas como ele ficou sabendo? — perguntei ainda sem acreditar.
Bruna sentou do meu lado e falou mais baixo:
— Deixa de ser boba garota, esses bofes sabem até o segundo que tu respira. Ele não gostou nada do que o Gabriel fez contigo. Disse que quando te ver, vai trocar um lero.
Senti o estômago embrulhar. Era tudo que eu não queria: Biel e Gabriel cruzando caminho por minha causa. Mas ao mesmo tempo, tinha uma parte de mim que se sentia protegida por saber que Biel não ia deixar passar.
— E ele falou mais alguma coisa? — perguntei.
— Só que pra tu ficar tranquila, porque ele tá cuidando de tudo.
Suspirei fundo, passando a mão no cabelo.
— Tranquila? Com o Gabriel doido me vigiando e o Biel pronto pra explodir? É impossível.
Letícia pegou a caixa da minha mão, abriu e me entregou o celular já na configuração inicial.
— Feinha, instala tudo e volta pro jogo. Tu não pode ficar incomunicável.
Peguei o aparelho, ainda meio atordoada.
— É... vou ter que desenrolar. Mas papo reto, se esses dois se baterem de frente, o bagulho vai ficar feio.
Gaby se aproximou, me olhando nos olhos.
— A gente não vai deixar isso acontecer. Mas,mona... não dá mole. O Relíquia, tu sabe como é.
Assenti devagar.
— Eu sei. Mas eu também não sou qualquer uma.
No fundo, eu sabia que a entrega daquele celular era só o começo. O Biel já tava no meu mundo, de um jeito que eu não sabia se conseguia parar.
Já era noite, a Maria dormia tranquila no berço, depois de eu ter dado o tete dela, e eu ainda tava processando o presente do Biel.
O novo iPhone brilhava na mesa como se fosse uma bomba-relógio prestes a explodir minha vida de vez. O Gabriel já tinha me colocado no radar, e agora Biel me puxava cada vez mais pra perto. Eu tava no olho do furacão.
De repente, o celular novo vibrou, já tinha instalado tudoo, fiz até um twitter novo e privado pra ninguém me perturbar.
Mensagem do Biel.
Biel: "Desce, Índia. Tô te esperando fora do Jaca."
Meu coração acelerou, pedi pra Bruna ir lá pra casa ficar com a Maria, se eu levasse pra vó o Relíquia ia saber que eu sair. Bruna rapidinho chegou, fiz uma bolsa rapidinho.
—Qualquer coisa tu liga, amanhã tô de volta -falei pra Bruna, que assentiu, ela é meu plano B com a Maria, nunca faz questão de ficar com ela, afinal ela amanhã essa garota, e às vezes ela nem aceita mas sempre mando pro pix dela uma donte zinho.
Sair de casa, peguei minha nave só pra não descer andando, deixei a moto na entrada do morro, e já avistei de longe o carro do Biel.
Quando cheguei no carro, ele abriu a porta e me olhou sério, mas com aquele brilho de quem tava aliviado de me ver.
— Entra logo, Bianca. — falou baixo, a voz firme.
Entrei e ele arrancou devagar, saindo do Jacaré sem fazer barulho. O cheiro do perfume dele misturado com o couro do carro me dava uma mistura de segurança e medo.
— Tá bem? — ele perguntou, sem tirar os olhos da rua.
— Tô... mais ou menos. Gabriel me arrebentou, E quebrou meu celular.
Ele cerrou o maxilar, os dedos batendo no volante.
— Eu sei. E foi por isso que eu te dei o novo. Mas papo reto, Índia, isso não vai ficar assim, vai chegar a hora desse arrombado.
— Biel, não. — falei rápido. — Tu sabe que se peitar ele agora, vai ser guerra. E eu tô no meio.
Ele me olhou de lado por um instante.
— Eu não tenho medo desse cuzão, se ele brota na pista vai tomar só rajadão, dos menor do ódio. Mas não quero que tu se sinta pressionada.
— Eu só quero paz.
— É isso que eu tô tentando te dar, Bianca. Paz. Mas do meu jeito.
Ele acelerou e a gente subiu pro asfalto, direção Barra. Ficamos em silêncio até chegar num condomínio de luxo, daqueles com guarita, segurança, tudo. Ele passou direto pelo porteiro, que só acenou com a cabeça.
Estacionamos numa cobertura surreal, vista pro mar. Biel me puxou pela mão até a varanda, onde dava pra ver as luzes do Rio inteiro.
— Eu queria te trazer aqui pra tu ver o que eu quero pra tu e pra tua filha. — ele falou, me abraçando por trás. — Tu acha que merece viver nesse bagui, nessa pressão de morro, sendo destratada por moleque?
Suspirei.
— Não... mas é a minha realidade.
— Só até tu decidir que quer mais.
Ele me virou de frente, segurou meu rosto com as mãos grandes e falou olhando nos meus olhos:
— Bia, eu quero mudar tua vida. Quero tu longe desse caos. Tu já tá no meu nome mina.
— Biel... — sussurrei, sem saber o que falar.
— Eu quero futuro contigo. Quero botar tua filha pra estudar num colégio bom, quero te ver segura, acorda contigo todo dia . Mas eu preciso que tu confie em mim.
Meu coração tava acelerado, e as palavras dele batiam fundo. Ele me passava segurança, algo que eu nunca tinha sentido de verdade. Mas ao mesmo tempo, a ideia de largar tudo me assustava.
— Eu não sei se consigo, Biel. É muita coisa.
Ele sorriu de canto.
— Tu não precisa decidir agora. Só deixa eu te mostrar que é possível.
Ele me puxou de novo pra perto, me beijou devagar, sem pressa. O beijo foi ficando mais quente, as mãos dele deslizando pelas minhas costas, até eu esquecer do mundo lá fora.
Naquela noite, ali na cobertura com vista pro mar, eu me senti livre por algumas horas. Mas no fundo, sabia que a liberdade tinha preço.
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BIANCA 🧿
Fanfictionela era uma poesia mas ele não sabia ler! ✨ 📍Jacarezinho •História de Bianca e Relíquia.
