BIANCA🧿
Fiquei parada... só sentindo a presença dele ali do meu lado no sofá, meio largado, meio quebrado... igual eu.
Olhei de canto, ele tava com aquele olhar perdido, mexendo na corrente de prata, apertando forte, como se fosse o próprio PT ali na mão dele...
Maria no canto, mexendo na bonequinha, nem sabia o peso que tava nesse ambiente. Ainda bem...
Dei aquela respirada funda... puxei o ar como se fosse o último, e soltei devagar, olhando pra ele:
— Relíquia... tu não vai se jogar nessa, né?
Ele nem me olhou... ficou só encarando o nada, igual quando fuma e fica viajando... só que dessa vez sem beck, só na brisa da dor.
— Pprt, eu não tenho escolha, Bia... eles tiraram meu irmão... se eu não faço, quem vai fazer cá?
Balancei a cabeça... nervosa, mas também entendendo. Não tem muito papo quando o bagulho é esse.
— Eu só... só não quero ter que te ver no caixão também, porra... — falei baixo, sentindo a garganta fechar.
Ele virou, me encarou, olho no olho, e eu senti aquele arrepio subir pela espinha:
— Eu vou me cuidar... tu sabe.
Dei uma risada irônica:
— Se cuidar? Tu fala isso desde que eu tinha 13, e tu com 16, e olha onde nós tá agora... Tu se esconde num buraco, teus amigos morrendo, eu aqui sozinha com nossa filha... e tu ainda me mete essa de "vou me cuidar"?
Ele abaixou a cabeça... ficou mexendo na corrente, em silêncio...
Aí não aguentei, levantei do sofá, fui até a Maria, peguei ela no colo... beijei aquele cabelinho fininho dela, e fiquei ali abraçada, como se fosse meu escudo.
— Eu não quero criar a Maria sozinha, Gabriel... não quero.
Ele levantou devagar, veio até mim... colocou a mão no ombro, meio sem jeito, meio querendo e não querendo me tocar.
— Tu não vai... eu só preciso resolver isso... depois eu... depois eu sumo dessa vida, juro.
Olhei pra ele, com a maior cara de quem não acredita mais em nada.
— Já ouvi essa história...
Ele sorriu, de canto, aquele sorriso safado, que me ganhou lá atrás... mas que hoje só me dá raiva.
Maria começou a se mexer, querendo descer do colo, aí botei ela no chão...
— Ela tá ficando sapeca, mane... — ele falou, meio emocionado.
— Tá... igual o pai.
Ele riu, mas com o olho cheio d'água...
Aí ficou um silêncio do caralho... só o barulho de passarinho lá fora, um cachorro latindo longe, e o coração batendo no peito... bum, bum, bum...
Até que ele puxou o celular, olhou a hora, fez aquela cara séria de novo...
— Tenho que ir... os menor tão me esperando.
Olhei, segurando o choro... mas não deixei cair, não... não na frente dele.
— Vai... faz o que tu tem que fazer...cuidado!
Ele chegou perto, botou a mão no meu rosto, me deu aquele beijo de despedida... um beijo demorado, cheio de coisa não dita...
— Cuida da Maria... e cuida de tu também.
— Sempre.
Ele virou, foi andando até a porta... abriu... ficou parado ali, como se quisesse voltar... mas não voltou. Só saiu.
Fechei a porta devagar... encostei a testa na madeira, respirei fundo... e aí não aguentei.
Desabei.
Chorei baixinho, pra Maria não ouvir... engoli o choro, como sempre faço...
Peguei ela no colo de novo, sentei no sofá... e fiquei ali... olhando pra porta fechada...
Pensando se ele volta inteiro... ou se a próxima blusa personalizada vai ser com a cara dele.
Depois que ele saiu... fiquei ali um tempo, olhando pro nada, com Maria no colo, sentindo aquele vazio, tá ligado? Aquele silêncio que grita...
Mas eu não podia ficar na bad o dia todo, não... peguei o celular, chamei logo as meninas:
— Desce geral, vamo fumar um e dar um lero, tô precisando...
Em menos de dez minutos já tava todo mundo na laje da Letícia. A vista de sempre... favela viva, molecada jogando bola no campo, rádio de pilha tocando um funkzão lá do outro lado, e nóis ali... só as cria, cada uma com sua dor, sua história, sua marra.
— Porra, Bia... tu tá com uma cara, hein colega! — falou Ju, prima da Letíciajá estendendo o beck, enquanto ajeitava o top.
— Qualé cara, como que fica rindo cm esses bagulho todos acontecendo? — respondi, pegando o baseado, dando aquele trago fundo, soltando devagar, sentindo o pulmão arder, mas o coração aliviar...
A Letíciapuxou logo:
— Vi o Relíquia passando mais cedo... bolado. Só de olhar já deu pra ver, a pista tá quente mesmo, né?
Balancei a cabeça, soltando a fumaça:
— Tá... e ele tá pá ódio... eu não sei mais o que eu faço, mané... não sei.
A Ju colocou a mão na minha perna, daquele jeitinho dela, carinhosa mas firme:
— Só segura a onda... como tu sempre fez, porra. Cê é braba, Índia.
Dei uma risadinha sem graça, olhando pra Maria brincando ali com a filha da júlia, as duas de fralda correndo pela laje.
— O problema é que... eu não sei até quando eu aguento ser braba, tá ligado? A gente cansa também...
Ju deu uma risadinha, meio amarga:
— Aqui ninguém tem esse direito, né... tu sabe. Tu é correria... mãe nova... ex mulher de bandido... tá achando que vai ter paz?
— Paz? Nem sei mais o que é essa porra... — respondi, olhando lá pro alto, céu azul, solzão batendo na cara, e nóis ali, falando de dor como se fosse rotina... e é, né.
— E o enterro do PT, então? — Gaby soltou, quebrando o silêncio que ficou depois.
Dei uma tragada funda, fechei o olho, lembrando...
— Foi foda... pior que a família dele nem quis falar com a Bruna, mané... mó clima escroto... e ainda teve aquela mina lá, fazendo a maluco... dizendo que tava grávida dele... pff...
Juh arregalou o olho:
— Sério? Nem sabia! nem respeita o luto dos outros, tá maluco!
— Sério, mano... mó confusão... e a Bruna? Desabou, né... até dormiu lá em casa depois... ficou só o pó. Mas ela tá tentando seguir né mesmo com a dor.
Ju balançou a cabeça, passando a mão no cabelo:
— Essa vida... um dia tá rindo, no outro tá chorando... e nóis aqui, fumando, vivendo... fingindo que tá tudo bem.
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BIANCA 🧿
Fanficela era uma poesia mas ele não sabia ler! ✨ 📍Jacarezinho •História de Bianca e Relíquia.
