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BIANCA 🧿

O sol nem tinha dado as caras direito, mas o movimento já era quente no morro. Tava aquele vai e vem de sempre: criançada indo pra escola, dona de casa no mercado da ladeira, moto passando rasgando. E eu ali, me arrumando na calma pra mais um dia de trampo no estúdio.

Maria já tava de banho tomado, cheirosinha, pronta pra creche e eu também. Tava de lacinho vermelho e tudo, coisa mais linda da minha vida.

Tô na porta de casa, organizando a bolsa, quando escuto o grito:

— Iih qualfoi, índia! A patroa do morro, manda a boa.

Era o PT, lógico.
Ele veio descendo a rua já todo doido, com aquele sorrisão torto e a camisa do Vasco manchada de tinta, e um baseado entre os dedos.

— Tu tá com a cara boa hoje, hein — falei rindo.

— An, é pra impressionar a Bruna, né, ca! Mesmo ela fazendo doce, sei que pensa em mim — ele disse, tentando bancar o marrento, mas os olhos dele entregavam. Ele ainda tava todo dela.

— Tu devia parar com esse orgulho besta, PT. Vai falar com ela, pô. Tu sabe que ela é doida por tu.

—Olha quem fala, tu e o relíquia ainda volta cá, e eu vou tá aqui pra ver. Pprt

—Ta maluco, eu hein -falei rindo

Ele suspirou fundo, riu, passou a mão na cabeça, e abaixou até a Maria.

— E aí, princesinha do morro? Tu vai ser artista igual tua mãe, hein? Se não for, vai ser chefe do tráfico... tô brincando, Bia! — ele disse rindo, levantando as mãos. — Relaxa.

—Brinca demais tu cara —rimos

—Cuida bem da minha branquela marrenta, hein, Índia... ela é cheia de marra, mas meu coração ainda é dela. Se um dia eu não tiver mais por aqui, tu lembra ela disso.

—Vocês ainda vão voltar cara, relaxa —disse e ele sorriu.

Ele deu um beijo na testa da Maria e seguiu o rumo, ainda zoando com os moleque no beco.

Fui deixar a Maria na creche com aquele aperto bobo no peito que às vezes dá e a gente nem entende.

Depois fui direto pro estúdio. A agenda tava cheia e eu tava focada. Liguei o ring light, abri o app e comecei a gravar pro meu Insta.

— Eae, irmãs! Dia cheio por aqui, vamos de sobrancelha, café, e muita paciência com cliente chata, né?

Até aí, tudo na paz. Mas era 14h cravado quando o morro virou caos.

Primeiro foi o silêncio. Aquele silêncio que só quem mora aqui sabe reconhecer. Depois o zunido. Um zummmmmmm lá no céu.

— Mosquito fofoqueiro, certeza — falou uma das clientes, olhando pela janelinha.

Quando eu fui ver, o drone da Record já tava no alto, rodeando o céu. Bastou um segundo e o estúdio começou a tremer com o barulho do cara de lata.

— Ai, meu Deus... é operação!

— Bianca, pelo amor de Deus, tranca essa porta! — gritou uma das meninas.

Corri, fechei tudo e botei a trava da grade. Ficamos presas. Três horas de tensão, escutando tiro, grito, sirene. A cabeça a mil. Só vinha Maria e Gabriel no pensamento.

Mas eu sabia que a pequena tava segura, lá na creche, guardada por Deus. Já o Gabriel... era sorte e sangue frio.

Não dava pra ver nada direito. O mosquito fofoqueiro ficou rodando ali por um tempão. E a porra do Tino Júnior já devia tá preparando o plantão da tragédia.

O som do helicóptero parecia perfurar o crânio. A cidade toda assistindo, e a gente aqui, trancada com medo de ser mais um número.

Quando tudo deu uma trégua e os tiros cessaram, escutei o boato:

— Disseram que o BOPE alvejou um dos nossos. Corpo tá coberto, não divulgaram quem é ainda.

Senti meu sangue gelar.
— Meu Deus, Gabriel... — murmurei, pegando o celular e correndo escada acima, no meio da fumaça, no meio da confusão.

Corri até a entrada da rua principal, onde tava o povo aglomerado. Um pano branco no chão, polícia pra todo lado, os canas fazendo pose como se tivessem feito grande coisa.

Me aproximei devagar, o coração martelando na garganta.
E aí... eu vi.

— NÃO! — gritei com tudo que eu tinha.
Era o PT.

A camisa do Vasco manchada de sangue. O rosto dele ainda com um traço de sorriso. Como se tivesse indo embora rindo da vida. Aquilo me derrubou.

Letícia chegou logo depois, desfigurada. Quando ela viu o corpo, caiu de joelhos, chorando que nem criança.

— Meu irmão, meu parceiro... PT não, caralho! Ele era tudo, porra!

Fiquei abraçada nela no chão, as duas em choque. Ele era nosso. Era do beco, da madrugada, do baseadinho embaixo da escada, das conversas sobre o nada e o tudo.

Letícia ainda tava em choque, sentada no meio-fio, com o rosto coberto de lágrima, olhando pro vazio. E eu ali, do lado dela, com a alma doendo, sentindo o peso de um adeus que ninguém pediu.

— A Bruna ainda tá dormindo, nem sonha... — falei baixo, com a voz embargada. — Vai ser eu que vou ter que falar. Vai ser minha voz que ela vai ouvir quando souber que ele se foi.

Fechei os olhos por um segundo, lembrando do PT mais cedo, me dando aquele papo doido dele:

— "Cuida bem da minha branquela marrenta, hein, Bia... ela é cheia de marra, mas meu coração ainda é dela. Se um dia eu não tiver mais por aqui, tu lembra ela disso." — repeti em voz baixa, como se fosse uma promessa.

Letícia me olhou, com os olhos marejando de novo.

— Ele sabia, né? — ela perguntou, como se quisesse ouvir que não, mas no fundo sentia que sim.

Eu só balancei a cabeça, engolindo o choro.

— Não sabia não... mas sentiu. E deixou pra gente as palavras certas.

RELÍQUIA 🚂

No rádio já tavam falando desde meio-dia: movimentação estranha, mosquito fofoqueiro no céu, cara de lata no asfalto.

— Meu fuzil vai cantar hoje. — eu falei pro menor que tava na laje.

Organizei a barricada, dei sinal pros cria, tirei os pivete da rua. Tava tudo pronto, esquema montado. Mas a verdade é que quando o BOPE quer subir, não tem quem segure.

14h e já tão metendo o pé na porta. Os canas chegaram com tudo, metendo o louco. Helicóptero rugindo, caveirão descendo que nem tanque de guerra.

A gente revida, lógico. Mas ninguém entra querendo conversar.
Os tiro comeram solto.

Mas foi quando o rádio avisou que tinha caído um dos nossos que eu travei.
— Quem?

Demorou pra vir a resposta. Mas veio.

— PT.

Meus olhos ficaram secos na hora. O moleque era doidão, mas fiel. Era família, porra. Era um dos únicos que ria da minha cara mesmo eu sendo o Relíquia.

Subi até a laje mais alta pra ver o corpo, não podia ver de perto, cheio desses filhos da puta, vermes do caralho. De longe vi a Bianca ajoelhada, chorando. Letícia desabando. Bruna nem sabia ainda.

— Vou cobrar um por um, vermes — falei, vendo o drone filmar tudo e os canas lá embaixo— O morro chora hoje, e não tem mídia que entenda, chei de ódio judaria do caralho vai toma no cu.

A favela perdeu um dos seus. Mais um. Mas tem nada não, eles pensam que vai passa batido, morre 1 e entra mais 3. Nojo do sistema!

E amanhã? Amanhã é mais um dia, fingindo que dá pra seguir.

BIANCA 🧿Onde histórias criam vida. Descubra agora