RELÍQUIA
Desde que a Bianca meteu o pé de vez, minha mente não teve mais sossego. O silêncio pesava. E cada vez que eu via a Maria Giulia, o peito apertava mais.
Só que tinha uma parada que não saía da minha mente: Vanúbia. Aquela puta, x9. Disse que era parceira, mas foi ela que botou pilha, ficou minando a cabeça da Bianca.
Acordei com vontade fazer maldade, tava sendo bom demais. Cavalo manso, nego monta em cima.
Criou um monte de caô, espalhou bagulho, fingiu que se importava. E eu? Fui burro. Caí no papo dela. Me afastei da mãe da minha filha por conta de uma mula que só queria me ter pra ela.
Mas agora era tarde. E o arrependimento tava me matando.
Puxei o radinho do bolso, já com a ideia formada.
— Fala tu, Fiel. Atividade aí na boca?
— Tá mec, Relíquia. Pode colar.
Botei o boné, e a pistola na cintura saí com a alma fervendo. Assim que desci, os cria já me olharam diferente. Sabiam que eu não tava pra resenha.
— Hoje é dia de cortar um mal pela raiz. A Vanúbia vai colar aqui, quero geral na atividade.
— Iih qual foi. Vai fazer o quê com ela, mano? — perguntou um menor, meio rindo.
— Cortar o cabelo dela, igual ela cortou meu barato com a Bianca. Sem agressão, mas se precisar vai ter porradeiro sinistro, mas ela vai aprender que o morro não é terra de x9.
Chamei ela no zap, daquele jeitinho doce que ela gostava:
"Cola aqui rapidão, tô querendo trocar ideia contigo. Tá rolando uma parada séria que preciso te falar olhando no teu olho."
Ela caiu feito uma pata. Marcou 10 e já tava aqui, saltitando escada abaixo, achando que ia ganhar presente.
— Oi, amor... nossa, tá bolado por quê? Que cara é essa? — falou vindo me abraçar.
— Senta aí, rapidão. Vamo resolver logo.
Ela sentou no caixote, sem entender nada.
Tirei a maquininha do bolso. Ela arregalou o olho.
— Gabriel?? Qual foi?! Tá ficando doido?!
— Doido eu fiquei quando tu destruiu o que eu tinha com a Bianca. Agora tu vai pagar, puta.
Antes que ela reagisse, dois cria encostaram de leve dos lados, só pra garantir.
Liguei a máquina e zzzzzzzzzz, comecei a raspar o muco dela sem dó. Ela gritava, chorava, tentava empurrar, mas não tinha jeito. Saí raspando tudo, deixando a cabeça dela lisa, lisa. Uma careca que nem sol ia querer bater.
— Tu fala demais, Vanúbia. Teu papel aqui era de marmita. Agora vai falar careca. Rala piranha, ainda tô sendo bom de não te expulsar daqui.
Ela saiu correndo aos berros, descabelada não, porque nem cabelo tinha mais.
Respirei fundo. A cabeça ainda tava cheia, mas o peito? Aliviado. Era tipo um passo pra limpar a sujeira.
Guardei a maquininha fiz toque com os crias que tavam rindo, peguei a moto e desci o morro.
Fui até a creche, o coração batendo diferente. Assim que entrei, Maria Giulia tava sentadinha, com a mãozinha no brinquedo. Quando me viu, abriu um sorriso banguela que desmontou meu mundo.
— Oi, meu amor... papai veio te buscar. Bora dar um rolê?
A tia da creche só olhou de canto, sabendo que eu não tinha avisado a mãe dela. Mas eu nem quis conversa.
Coloquei ela na minha frente e acelerei, uma mão nela e a outra no guidão. Pelo morro, descendo até o campinho, onde tinha umas crianças correndo. Sentei num banquinho, comprei um sorvetinho de morango e dei na colherzinha.
Ela ria, batia a mãozinha, lambuzava tudo. Eu ria junto.
— Tu é tudo que eu tenho agora, sabii? Tu e tua mãe, mesmo ela me odiando, são minha vida.
Depois do parquinho, dei mais um rolê com ela, fui numa lojinha, comprei um body rosa escrito "Pequena Princesa", e fui subindo pra deixar ela em casa.
Cheguei no portão da Bianca e bati. Ela demorou, mas atendeu com cara de poucos amigos.
— Gabriel... cê tá de sacanagem pegando ela sem avisar?
— Tava com saudade, Bianca. Fui dar um passeio com ela, comprei coisinha, dei bagulho pra ela comer, ela tá tranquila.
— Tu não pode simplesmente pegar a bebê assim, do nada. E se acontece alguma coisa? Tu esquece que ela é só um neném de 8 meses?!
Ela puxou Maria do meu colo, mas eu segurei a mão dela por um segundo.
— Eu tô tentando, Bianca. Eu sei que errei, mas tu também sabe que eu amo ela. Eu tô tentando aprender com meus erros.
Ela olhou no fundo dos meus olhos. Aquelas olheiras dela, o cabelo preso num coque torto, mas ainda assim, linda.
— Só não repete isso, Gabriel. Da próxima vez, me avisa. Ela precisa de rotina. Não é mais só sobre a gente.
— Demorô. Palavra de cria.
Fiquei ali na porta vendo ela entrar com a Maria Giulia no colo. Antes de fechar a porta, ela se virou:
— Ela tava com cheirinho de sorvete. Ela ama, né?
— Ama. Igual ama tu. Igual eu também.
Ela não respondeu. Só fechou o portão devagar.
Fui embora com a alma pesada, mas com o coração um pouco mais leve. Pelo menos por hoje, minha cria tinha sorrido comigo.
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BIANCA 🧿
Fanficela era uma poesia mas ele não sabia ler! ✨ 📍Jacarezinho •História de Bianca e Relíquia.
