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Voltei pra casa com o gosto do vinho ainda grudado na boca e a cabeça girando, mas não era por causa da bebida, não.

Era o turbilhão que Biel tinha deixado em mim com aquele papo de poder e sentimento. Tava tudo quente ainda, recente.

O carro preto tinha me deixado na esquina da minha rua, e eu fui andando devagar, de salto, tentando não afundar no barro do beco. Favela tem dessas pode vir de Paris 6, mas sempre termina na laje.

Entrei em casa e a primeira coisa que ouvi foi o resmunguinho da Maria. Minha bonequinha. Tava com a fralda toda torta, mas dormindo gostosinha, agarrada no travesseiro da Moana. Bruna tinha olhado ela pra mim, quando eu cheguei guiou pra casa.

Olhei pra ela e dei aquele sorriso cansado, tipo: "mó doideira, filha. Tu nem sonha..."

- "Mamã... nham nham... não... não..." - ela murmurou, com a chupeta caindo da boca.

Dei um beijinho na testa dela, ajeitei a coberta e fui pra cozinha, precisava de um copão de água

. Encostei na pia e fiquei ali, parada, olhando pro vazio. Tipo assim: que que foi isso tudo? Um dia tava sendo arrastada por Relíquia num baile, no outro tava de vestido caro, sentada num restaurante de famoso com outro ronca, sou maluca mermo, bagulho tem que ser assim de agora em diante.

Não sou mais a Índia de tempos atrás não, mereço coisa melhor, bagulho de patroa mermo, e eu amo essa vida. Na moral? Eu nasci pra isso, tá ligado? Ser mulher de bandido é adrenalina, é respeito, é poder... eu amo essa porra, mermo, essa vida bandida corre no meu sangue.

Biel era charmoso, tava me tratando bem, mas... sei lá.

Peguei o celular. Grupo das meninas bombando.

Gaby💅🏾: "e aí, mona? deu oqueeee c aquele bofe? 👀"

Letícia💓: "Vai tomando amor da Índia da penhaaa"

Bruninha: "fala tudo, filhonaaaa nao esconde nada de nós, pro bagulho não ficar sinistro p teu lado mona!"

Ri sozinha. Elas me conhecem bem.

"Vou contar tudinho amanhã. Vamo se ver na praça? Levo a Maria, vcs levam o ice."

Mandei e larguei o celular. Coração tava apertado, mente bugada. Tinha curtido o rolê, sim.

Tinha achado o Biel um bofe maneiro, gostoso, pirocudo. Mas não conseguia esquecer do Relíquia, das porradas, dos erros, dos orgasmos misturados com ódio e saudade. E pra piorar tudo, ainda tinha a maldita da mandada grávida dele, que vivia soltando piada como se fosse a fiel dele.

Mas enquanto eu existir, isso nunca vai acontecer!

Apaguei a luz e deitei com a Maria, mesmo de vestido. A cabeça encostada na dela. E ali, no silêncio da favela, com os tiros ao longe servindo de ninar, cochilei.

No dia seguinte, praça do mandela.

Sol rachando, Gaby encostada num carrinho de açaí, Letícia e Bruna na mureta já queimando um beck fininho. E eu, empurrando o carrinho da Maria, que tava com um vestidinho rosa e o cabelo amarrado em dois coquinhos.

- "Ih, olha a primeira-dama da Penha chegando! Toda no glamour caralhooo" - gritou Letícia, debochada.

- "Conta logo, Bia. Tu jantou, né? Mas jantou o quê?" - Gaby falou, levantando uma sobrancelha.

- "Minha filha, Paris 6! Pedi um risoto de camarão que parecia ouro de tão chique. Mas o prato principal mesmo... vcs já sabem." - falei, mordendo o lábio.

As meninas gritaram rindo, a praça até parou. Até um nóia que passava ficou olhando.

- "Biel é um gostoso, né? Fala tu." - Bruna mandou.

BIANCA 🧿Histórias para pegar e não largar. Descubra agora