114

400 25 4
                                        

BIANCA🧿

Acordei com a cabeça latejando, a boca seca e um gosto amargo de cerveja velha. A luz que entrava pela fresta da cortina parecia me cegar. Maria já tava brincando no berço, falando alto e jogando os brinquedos no chão.

- Shhhh, garota... calma, mamãe tá morta hoje. - falei com a voz arrastada.

Levantei devagar, sentindo o corpo pesado. Passei pela sala e vi as latinhas e bitucas de cigarro que as meninas deixaram quando me deixaram em casa de madrugada. Só de lembrar o pagode da laje me deu um sorriso torto: tinha sido bom. Dancei, bebi, fumei... mas a ressaca tava me cobrando com juros.

Fiz um café forte, coloquei Maria na cadeirinha pra comer um biscoito e sentei no sofá. Peguei o celular pra ver as mensagens: nada do Biel. Ele tinha sumido de novo. Respirei fundo e tentei não me estressar com isso.

Mas não deu nem tempo de terminar o café. O portão bateu seco, forte, três vezes.

O coração gelou.

Levantei e fui até a porta, com Maria já chamando "mamãaa" atrás de mim. Quando abri, dei de cara com Gabriel. Relíquia.

Ele tava transfigurado. O olhar carregado, a mandíbula travada, a respiração pesada. Todo trajado: camisa colada no corpo, corrente grossa, o cheiro de perfume forte misturado com suor.

- Qual foi, Gabriel? Tá batendo aqui desse jeito cardique? - perguntei tentando manter a marra.

- Cala a boca, Bianca. - ele falou baixo, quase sussurrando, mas com aquela voz que arrepiava. - Tu tá achando que eu sou otário? piranha

- Oxe, tá maluco? Do que tu tá falando?

Ele entrou sem pedir licença, fechou a porta com força e me olhou de cima a baixo.
- Tu acha que eu nasci ontem? O morro todo tá falando. Tu tá se jogando pro Biel.

Meu corpo gelou.
- Que porra é essa? De onde tu tirou isso?

- Tudo chega nos meus ouvidos, tu pisa o pé fora de casa eu já sei, tu que pensa que eu não sei de nada, tá ligado?! - Ele foi chegando mais perto. - Tu tá se achando esperta, né? Eu dando moral pra tu, cuidando da nossa filha, e tu me desmoralizando na favela?

- Gabriel, para com isso. - tentei manter a calma. - Tu não tem prova de nada, tu tá se deixando levar por fofoca.

Ele respirou fundo, os olhos vermelhos de raiva.
- Fofoca é o caralho, Bianca!

Antes que eu pudesse reagir, senti o tapa ardido no meu rosto. Meu corpo virou de lado com a força. Maria começou a chorar na mesma hora.

- Gabriel, para por favor! A Maria tá vendo! - gritei, tentando me proteger.

- Tá vendo mesmo! Pra aprender a não ser puta que nem a mãe. - Ele me empurrou contra a parede, colocou a mão no meu pescoço apertando. - Tu acha que eu vou aceitar tu me tirando pá maluco pow.

As lágrimas já desciam, mas eu não ia implorar.
- Eu não fiz nada, Gabriel. Tu tá louco.

Ele pegou meu celular da mesa com um movimento rápido.
- Se tu não tem nada a esconder, então não vai precisar dessa porra aqui.

- Não, Gabriel!

Ele jogou o celular no chão com toda a força. O aparelho se espatifou, a tela voou em pedaços.

- Tu tem sorte que eu NÃO ESTOUREI ELE NA TUA CARA, PIRANHA! - Ele falou, a voz fria.

- Tu tá maluco... - sussurrei, com a mão no rosto ardendo.

Ele respirou fundo e foi até a porta.
- Se eu souber que tu tá se envolvendo com ele... tu vai me encontrar de um jeito que tu não quer.

Saiu batendo o portão tão forte que Maria soluçou de susto. Corri e abracei ela, tentando acalmar.

- Calma, meu amor... mamãe tá aqui. - falei baixinho, engolindo o choro.

Depois que Gabriel saiu batendo o portão, a casa ficou um silêncio pesado, só o choro engasgado da Maria. Eu abracei ela com força, sentindo o corpo inteiro tremer.

O rosto ardia do tapa, o coração disparado. Eu sabia que ele tava descontrolado, mas a ficha de que ele descobriu sobre o Biel doía ainda mais.

Sentei no sofá, botei a Maria no colo e fiquei ali abraçada nela, tentando segurar o choro. Até que ouvi os passos apressados no beco e o barulho da porta sendo aberta:

- Índia?! Tá viva, filha? - era Gaby, já entrando.

- Irmã, que cara é essa? - Letícia veio logo atrás, os olhos arregalados.

Assim que me viram no sofá, elas pararam. Gaby largou a bolsa no chão e correu pra mim.

- Caralho... o Gabriel te bateu?

Assenti com a cabeça, sem conseguir falar nada. Letícia olhou pro celular todo quebrado no chão e soltou um palavrão.

- Esse filha da puta quebrou teu ligue ainda por cima!

- Ele sabe que eu tô com o Biel. - consegui falar baixinho. - Disse que o morro todo tá falando.

Gaby respirou fundo, passando a mão no rosto.
- Pow, bagulho tá escaldado pro teu lado agora papo reto, tu tem que ficar quieta agora.

- Ficar quieta? Ele me bateu na frente da minha filha, Gaby!

- Nojento vai se fuder, como que esse cuzao saiu da buceta da tia Gisely. -Letícia falou, indignada.

- Eu sei... mas tu sabe como é, Índia. Ele é o de frente do morro. Não tem muito o que tu fazer contra ele.

Letícia sentou do meu lado e segurou minha mão.
- Se tu for peitar ele agora, pode ser pior. O Gabriel tá com a mente virada. Ele te ama doente, filha, mas tu sabe como esse bofes são quando tão com o ego ferido.

Engoli seco, sentindo a raiva crescer.
- Eu não vou ficar me humilhando pra macho nenhum.

- Ninguém tá falando pra tu se humilhar. - Gaby rebateu. - Mas tem que ser estratégica. O Biel? Some um pouco. O Gabriel? Fica na tua. Paz é sobrevivência.

Maria se mexeu no meu colo, o olhinho ainda vermelho de choro. Letícia ajeitou o cabelo dela e falou baixo:
- Pensa na tua filha. Tu não pode se colocar em risco agora.

- E o Biel? - perguntei, sentindo o peito apertar. - Se o Gabriel trombar ele...

Gaby balançou a cabeça.
- Isso é outra treta que tu não pode deixar acontecer. Biel é pesado também, mas aqui quem ronca é o Gabriel. Se eles baterem de frente, vai ser guerra.

Suspirei fundo, passando a mão no rosto machucado.
- Eu tô cansada. Cansada dessa vida, dessas fofocas, desses bofes achando que me controlam.

Gaby me abraçou forte.
- Índia, Tu já passou por muita coisa. Mas agora, mais do que nunca, tu tem que ser sagaz.

Letícia completou:
- Se fortalece primeiro, mona. Fica quieta, mas não deita. E a gente tá contigo pra tudo.

Fechei os olhos, segurando as lágrimas. Eu sabia que elas tavam certas. Eu tinha que respirar, pensar, esperar. Mas dentro de mim, a vontade era de explodir o mundo.

VOTEM 🌟
COMENTEM💬

BIANCA 🧿Histórias para pegar e não largar. Descubra agora