BIANCA 🧿
Chegando na praça, já tava aquele movimento do morro... criançada correndo pra lá e pra cá, as monas sentada no banco fofocando, e os caras tudo espalhado em volta dos isopores.
A JBL da Letícia já tava gritando um Poze misturado com Funk, e o cheiro de churrasquinho do tio do espetinho tava me matando.
Letícia e Bruna já tinham montado o "point": isopor com cracrudinhas gelando, saquinho de gelo pra manter, uns copos descartáveis e, no meio, os baseados que a Bruna enrolou antes de sair de casa.
— Ihhh, até que enfim! — Letícia gritou quando viu a gente chegando. — Achei que vocês tinham se perdido no mercadinho.
— Perdeu nada, minha filha... foi o Gabriel que apareceu lá. — Gaby já soltou, rindo.
Letícia arregalou o olho.
— Ihhhh, o Relíquia? Falou o que?
— Depois te conto... — falei, porque não tava com saco de repetir aquele papo.
Bruna já foi abrindo as cervejas, enquanto Letícia montava os petiscos na mesa de concreto que tinha ali na praça. Peguei uma calabresa.
E aí começou outra rodada de fofoca. Dessa vez, sobre a Laysa, que tava demorando pra chegar.
Laysa é uma amiga nossa, que estudou com a gente.
— Aposto que tá se arrumando pra algum bofe — Letícia disse, mexendo no celular.
E não deu outra: quando a Laysa chegou, veio toda produzida, roupa colada, unha feita e cabelo escovado.
— Ihhh, olha ela... — Gaby falou, já maldosa. — Veio pra caçar, né?
Laysa riu e deu logo um gole na cerveja.
— Caçar nada, filha. Mas se aparecer um peixe bom, quem sou eu pra recusar?
—Lógico, que a preta num é fraca né! -falei, batendo nas mãos dela.
A gente riu, mas Letícia não perdeu a chance de provocar:
— Tu acha que eu não sei? Falaram que tu tava no baile sábado passado com o Robinho...
— Mentira! caralhooo. — Laysa fingiu indignação. — Eu fui, sim, mas não fiquei com ele. Ele tava lá, me ofereceu gelo, mas eu não dei confiança. E se eu sentasse da em nada, a mulher dele é corna igual.
Todas riram, porque era verdade.
—Essa mal comidas fica espalhando fofoca e nem pra ser a certa né, eu hein. -falei negando
—Né foda, ainda tem aqueles fakes perturbando a vida alheia, meu sonho é saber quem é, pra eu descer a madeira pprt. —Leticia falou.
Só que a gente já sabia que era história mal contada, porque, na favela, notícia corre mais rápido que áudio de zap.
No meio da resenha, o Relíquia apareceu de novo camisa no ombro, bigodinho fininho, cabelo com reflexo, pistola na cintura, baseado na olheira, dessa vez com a Maria no colo. Ele veio andando devagar, olhando pra mim, mas não disse nada. Só me entregou ela, fez um carinho rápido na cabeça dela e subiu na moto, e ralou com os parceiros dele.
Maria já catou um pedacinho da calabresa e ficou ali no meu colo mastigando, toda feliz, com meu celular assistindo.
— Ihhh, ele tá de marra contigo, Bianca... — Bruna falou, baixinho, pra não dar bandeira.
— Problema é dele, só não ficou de graça porque vocês tão aqui.
Eu só dei de ombros. Não queria dar conversa, muito menos na frente de todo mundo.
— Mas tu ainda se amarra no preto, fala tu Índia. -Laysa falou gastando.
—Pow, me deixa fraca, mas tá maluca quero aquele vida denovo não, ele fica com papo que quer volta, que vai mudar, mas eu fico com pé atrás tá ligado? -falei dando um gole na bebida.
— O bagulho não fica mais o mesmo, sei bem como é isso. Mas eu sinto falta, eu acho que se ele tivesse aqui seria tudo muito diferente. -Laysa falou, marido dela morreu na troca de tiro com os canas.
— Papo reto, o Patrick se foi e por mas que a gente brigava, ele metia chifre, mas final de conta nos sente falta mesmo fazer oque né. -Bruna falou.
— É, né... Ele era casca grossa, mas era meu faixa, só que agora... só ficou a mídia e a saudade. Que Deus o tenha. — falei, puxando Maria no colo.
— Ih, monas tá o puro gongo isso aqui! Relaxem, bora apertar a braba e esquecer um pouco esse sofrimento. — Gaby deu uma risada, puxando um baseado.
A noite foi seguindo... a gente bebendo, rindo, revezando na JBL
um pouco de Cabelinho, depois MC Poze, e mais uns funks de baile que faziam os bebel da praça dançar. As crianças brincando, os homens gritando no dominó, e a gente ali, só curtindo o momento.
Passou uns menor, dando grau, uns na moto, uns no quadriciclos.
—Caralho, bebel deve ter uns 9 anos. —Leticia falou, observando eles, gravando o grau.
— Pow se eu faço isso, eu meto a fuça no chão. —Laysa falou —Meu irmão tava fazendo isso por aí, minha mãe viu deu uma coça nele, mas nem adianta.
— Por isso quando o Relíquia fazia as merdas dele eu falava, mas depois ele me juntava todo abusado, nunca teve jeito, desde menor ele falava que ia ser traficante, só não apanhou de perna de 3 mas de resto, dona Gisely deu de tudo. —Gaby falou, negando.
— Caralho eu lembro, o sonho dele era pegar um fuzil, lembro dele falando que ia tá trajado no baile, cheio de mídia, base cheia, botando terror nos cana — Letícia falou rindo, mas era risada de quem lembra das merdas.
— Ainda, ele não sabia nem apertar a braba direito, ficava lá panguando na laje dos cria, querendo pagar de casca grossa. — Laysa riu, lembrando.
— Caralho, papo reto, Mas quando aprendeu, esquece... virou mó sagaz. Tava no rolé, tu piscava ele já tava marcando mandado pros outros, cheio de marra. — Bruna completou, mexendo no cabelo.
— Né segredo que ele sempre foi assim, mas quando encostava na Bia virava um manso... só até ela falar algo que ele não gostava, aí já ficava pá ódio. — Gaby falou, fazendo careta.
Fiquei quieta só ouvido, pow mo saudade do meu preto mesmo, acho que já é o álcool fazendo efeito.
—Manso até mostra as garrinhas né —Letícia falou.
— Pow, uma hora dessa, vocês falando desse bofe, af daqui a pouco vou ter que mandar mensagem pra ele. — falei rindo, cruzando os braços.
—Te manca, Bianca —Bruna falou, eu e todas riram.
— Ele fazia a linha, mas era apaixonado. — Laysa deu um gole na cerveja e riu. — E tu, Bia, sempre com aquele jeitinho de "sou alguma safada" quando te acusavam que tu queria ele.
— Ah, irmã, é igual eu falo: eu dou mídia quando eu quero, e se não quiser, dizaa filhaa! — falei, levantando a sobrancelha.
A resenha seguiu, cada uma lembrando de um babado diferente.
Lá pra mais tarde, quando o álcool já tinha deixado todo mundo mais solto, Letícia se levantou e começou a dançar no meio da praça. Bruna ficou rindo, Gaby foi atrás, e até Laysa entrou na brincadeira. Eu fiquei sentada, Maria dormindo no meu colo, observando tudo.
Era aquele tipo de noite que, por mais simples que fosse, dava uma sensação boa... de pertencimento, de estar cercada pelas minhas.
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BIANCA 🧿
Fanfictionela era uma poesia mas ele não sabia ler! ✨ 📍Jacarezinho •História de Bianca e Relíquia.
