Depois que ele pegou a Maria na creche, fui direto pro salão botar meu mega aquele tic tac só pra dar um voluminho, coisa pouca, só pra manter o cabelão no grau mesmo. Já cheguei dando papo pras meninas:
-Eae manas, Já separa o pretão aí com que eu tô como hoje... pique boneca da Barbie do Jacaré! -falei entrando no salão com aquela presença, e meu perfume da Prada tomando o ambiente.
A Mayara, que faz meu cabelo desde os 14, já veio rindo:
-Caraca, Índia, tu é toda malandra, né? Some do nada e volta com história de baile, ronca, e ainda quer cabelo de milhões?
-É sobre isso, filha. E nem me pergunta quem tá pagando não, que vai ser no @ mesmo! -falei, debochando, já sentando na cadeira e tirando o casaco da Nike toda cheia de brilho.
-Caralho tá abusada hein, e olha que não tô nem te dando confiança-me respondeu, gastando, e eu rir.
O assunto na cadeira do lado era só fofoca. Falaram que a fiel do Dono da Nova Holanda passou o rodo numa amante ali na Vila Cruzeiro, e que teve sangue até no beco.
As minas da pista tão se soltando, não tão mais aceitando qualquer migalha de fiel não, agora é guerra declarada.
-E a Júlia? -perguntei, puxando papo enquanto a Mayara separava as mechas.
-Tá sumida. Parece que foi parar na Rocinha com o Duda, cê acredita? -respondeu a Rayane, Júlia é a prima dela que estudou com a gente.
-Caô pô... Rocinha? A mona quer morrer mesmo. -falei rindo, já pegando o celular pra postar a publi dos biquínis, tá fluindo essa vida de bloguer kkkkk
Tirei logo aquela foto na frente do espelho do salão, a bunda empinada, a marquinha gritando.
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meu bebê 🖤🐈⬛
Postei e as reação foi na hora. Comentário de monte, gente querendo saber se eu tava solteira, o Biel só visualizou, falou nada ele, eu hein.
Depois que finalizei o cabelo, fui direto pra casa da tia Gisely. Ela já tinha mandado mensagem, mais cedo:
"Vem tomar sopa e trazer minha neta que eu tô com saudade!"
A tia abriu o portão com Maria no colo:
-Olha quem chegou Maria -disse.
-Mamãiiii!
Peguei minha filha no colo, cheia de saudade. Dei beijo nela, ela me agarrou pelo pescoço e ficou me fazendo carinho, coisa mais linda.
-Tia, tô vindo da manutenção do mega. Ó como ficou -falei, virando a cabeça pro lado mostrando as pontas.
-Tá linda, minha filha. Só cuidado com o olho gordo, tu anda muito visada, hein. -ela disse, servindo sopa pra mim.
Fiquei ali trocando ideia com ela, falando da vida, ouvindo ela reclamar do Gabriel.
-Ele anda estranho, Bianca. Muito calado. E quando tá com a Maria, parece outro. Eu hein, esse menino vai aprontar.
-Iih tia, a senhora sabe bem o filho que tem. Foi lá em casa do nada. Mal sabe ele que meu nome agora tá na pista. -falei rindo.
-Tu tem que se garantir mesmo. Homem é tudo igual, só presta enquanto tá no controle. Perdeu, surta.
-Ele fica me cobrando, mas vive comendo essas marmitas por aí, e só aparece quando quer. Foi ele que estragou a família dele, e agora fica nessa.
-É, eu sei filha, ele é igualzinho ao pai, sofri muito na mão dele, e essa mandada que diz que tá grávida dele, eu não acredito, sabe Bianca, mas vamos ver né, se vim, venha com saúde né, Gabriel da confiança demais pra essas garotas. -falou e eu só escutando concordando
Tomei a sopa e botei Maria pra brincar no tapetinho que tinha lá. Ela ficou pulando, cantando musiquinha, que só ela sabe kkkk:
-Taca, taca, taca... popôô! -ela ria, se jogando no chão.
-Tu ficou a noite toda onde, Bianca? -ele perguntou parando na porta da cozinha da tia Gisely, com aquela cara fechada que só ele sabe fazer, chegou do nada. O cheiro da sopa invadia o ambiente, mas o clima já tinha azedado geral.
-Qual foi, Gabriel? Vai começar de novo? Tô aqui, comendo com a tua mãe, brincando com a tua filha. Vai meter neurose agora? -falei, sentando de novo à mesa, fazendo questão de mostrar que eu tava plena, sem tempo pras paranoia dele.
Ele veio andando devagar, o olhar colado no meu. Não falou nada por uns segundos, só me encarando, enquanto Maria tava no chão, com um brinquedinho na mão, falando:
-Pa-pai!
-Oi, minha princesa -ele se abaixou rapidinho, deu um beijo na testa dela, mas o olhar voltou pra mim na hora.
Tia Gisely fingia que não tava ouvindo, mas dava umas olhadas de canto de olho.
-Tu mudou, Bianca. Tá diferente. Esse teu olho aí... tá com brilho de quem tá se envolvendo com outro.
Soltei uma risada debochada.
-Ah, pronto! Agora além de traficante virou sensitivo? Tá vendo aura? Para com isso, Gabriel. Vai cuidar do teu bonde e me esquece.
-Quem tá pagando esse cabelo aí? -ele perguntou do nada, com os olhos cortando.
-Ué, e desde quando tu pergunta isso? Tu sempre pagou tudo, e se tu não pagasse, eu mesma pagava. Mas pra te responder, foi publi, tá? Recebi o cabelo e divulguei, tá desatualizado hein nego.
Ele bufou, passou a mão no rosto, e se encostou na geladeira da cozinha da tia.
-Qual foi, tô bolado, Bianca. Desde aquele baile lá... tu mudou. Tu sumiu, tua rotina mudou, tu tá com olhar de quem tem segredo.
Me levantei da cadeira, fui até ele e parei na frente.
-Olha bem pra mim. Tá vendo algum arrependimento? Alguma insegurança? Não tem. Tu me perdeu, Gabriel. Tu me perdeu quando preferiu ser moleque ao invés de homem.
Ele ficou me olhando, com o maxilar travado, respirando fundo. Maria veio andando até a gente, meio tropeçando nos próprios pés, e agarrou na minha perna.
-Mamã... qué colinho!
Peguei ela no colo, abracei e fiquei fazendo carinho na cabeça dela.
-Tá vendo? Isso aqui é o que importa. Tu pode desconfiar o quanto quiser, pode achar o que quiser. Mas agora, o meu foco é ela.
Gabriel pegou o boné no bolso e colocou na cabeça.
-Mas se eu descobrir que tem alguém encostando em tu...
-Tu vai fazer o quê, Gabriel? Vai mandar matar? Vai bater?
Ele me olhou com raiva, virou as costas e saiu sem responder. A porta bateu com força, tia Gisely levantou a sobrancelha, mas não disse nada.
-Tá vendo, minha filha? Esse aí ainda vai se arrepender muito.
Eu respirei fundo, sentei com a Maria no colo e voltei a comer minha sopa.