BIANCA
Acordei com a cara amassada, olho ainda pesado, mas a alma já tava em alerta.
Desde que o Biel me chamou de canto naquele rolê e começou a bancar umas paradas minhas, o clima na favela não era mais o mesmo, depois do escândalo do relíquia no baile. Gabriel pode até não ter visto nada... mas homem sente, né? O bagulho muda no ar, o olhar pesa.
Me espreguicei ali na cama com a Maria roncando do meu lado, quentinha, agarrada na boneca que o pai dela tinha dado.
Dei um beijo na testa dela, levantei devagar pra não acordar a cria e fui logo pegar o celular. A notificação de grupo já veio cravada na minha cara:
"Fake Favela RJ: será q foi ele q pagou o cabelo da Índia? 👀"
"Ela tava no estúdio da menina segunda-feira, e adivinha quem passou por lá antes?"
—Puta que pariu, me deixam em paz nunca... —resmunguei sozinha, com o coração já começando a bater mais acelerado.
No mesmo minuto, outra notificação do Twitter:
"Não sei quem tá mais otária, a fiel do Biel ou a grávida do Gabriel kkkkk"
"Alô Jacarezinho, o dia promete 😭😭"
Travei. Senti o sangue descer quente pelas veia. Já saquei tudo. Alguém jogou o nome do Biel na roda como se ele tivesse me bancando tudo, como se eu fosse uma qualquer que se vendia por um cabelo. O cabelo que, inclusive, EU paguei. Com MEU @, minhas publi, minha imagem. A única coisa que o Biel pagou foi o jantar no Paris 6, e ainda assim porque ele quis.
—Ai, meu Deus do céu... —falei já indo pra cozinha, cabeça fervendo, sem nem lembrar que não tinha tomado café.
Nem deu tempo de processar tudo. Ouvi a buzina do Gabriel na frente da minha casa.
—Vish... lá vem merda.
Desci e ele já desceu do carro no veneno. Cara trancada, semblante fechado, jeito de quem passou a noite sem dormir.
—Que porra é essa que tão falando de tu por aí? —ele perguntou com a voz grossa, mão na cintura, camisa encharcada de suor.
—Não sei, pergunta pra quem tá espalhando —falei seca, cruzando os braços.
—Tô perguntando pra tu! Biel pagou teu cabelo, foi?
—Claro que não, né Gabriel. Se liga! Tu denovo com essa parada aí, se manca.
—Então por que tão dizendo que foi ele? Hein? Tu acha que eu sou otário?
—Tu tá me chamando de mentirosa? Tá duvidando de mim por causa de fofoca? —bati de frente, sentindo meu peito se inflar.
Mas ele não escutava. O sangue subiu. Ele tava cego.
—Tu tá se achando demais, Índia. Esqueceu quem botou tu aqui? Quem te tirou do zero? Quem bancou fralda da tua filha? Hein?
—Minha filha é tua também, idiota! E tu não fez nada sozinho. Tu não manda em mim, não!
Não deu tempo nem de terminar. Ele veio com tudo, mão pesada no meu rosto.
—Filho da puta! —gritei, tropeçando pra trás.
Maria começou a chorar no quarto, escutando a confusão. Peguei a chave do portão e empurrei ele pra fora com força.
—Sai da minha casa, Gabriel! Antes que eu enfie essa chave no teu pescoço!
Ele ainda ficou ali bufando, murmurando, mas foi embora. As vizinhas já tavam tudo na janela. E os fakes, claro, não iam perder.
Entrei correndo, coração disparado, peguei o celular e fui direto na garota que colocou meu mega:
—Tu falou pra alguém que o Biel pagou meu cabelo?
—Claro que não, Bianca. Eu não sou dessas, tu me conhece. Mas eu ouvi sim a Carla falando isso lá no ponto.
—Carla... quem?
—Aquela mesmo. A barriguda do Gabriel.
Fiquei em silêncio. Tremi. A raiva tomou conta de mim, mas foi fria, calculada. Fui no banheiro, lavei o rosto, amarrei meu cabelo num coque alto, passei um gloss, botei meu cropped branco, short jeans e chinelo Rider. Nem precisei dizer nada. Eu já sabia o que ia fazer.
—Hoje essa porra vai pegar fogo, porque eu sou Bianca, não sou bagunça não.—falei olhando meu reflexo no espelho.
Desci a ladeira sem olhar pra trás. Quando cheguei perto da casa da Carla, ela tava sentada na escada com a mãe dela, barriga de fora, toda metida, rindo alto.
—Qual foi, fofoqueira? —berrei, já chegando na voadora.
Ela levantou assustada, mas não teve chance. A primeira foi na cara, a segunda puxei o cabelo. A mae dela tentou separar, mas tomou também. Foi dedo na cara, tapa, puxão. O barrigão dela balançava, mas ali quem falou da minha honra ia ter que arcar.
—Fala agora, desgraçada! Fala que foi o Biel! Fala, porra! —eu gritava descontrolada.
Os caras tiveram que me segurar, os vizinhos separaram. A favela inteira tava assistindo. No Twitter? Já tava viral:
"Índia deu na barriguda do Relíquia, meu pai amadooooo 😭😭😭😭😭"
"Grávida? Só se for de problema, porque ela apanhou foi bonito"
E claro, a resposta da Bianca não ia demorar.
Abri o Twitter, escrevi só:
"Se eu quisesse esconder algo, não faria publi. E grávida que fala o que não deve, leva o que merece. Me respeita que eu sou mãe também. Fala de quem vive, não de quem ouviu. 😉"
Postei, fechei o app, e acendi um cigarro.
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BIANCA 🧿
Fanfictionela era uma poesia mas ele não sabia ler! ✨ 📍Jacarezinho •História de Bianca e Relíquia.
