BIANCA
- Índia, vamo? - ela riu. - Já botei a pequena pra dormir com a minha mãe.
- Isso mesmo, tu não queria ser tia? agora sustenta o b.o mona. -falei olhando ela acabada, depois que conseguiu colocar a Maria pra dormir.
- Titia ama, mais titia não cuida! -falou e eu rachei.
Eu dei uma última olhada na Maria, esparramada de bruço na cama da vó, cheirinho de mamadeira ainda na boca... coisa mais linda.
- Tá, vambora, antes que a fila do salão encha. - ajeitei minha bolsa, o cropped e parti com as meninas.
- Coitada mona, salão reservadíssimo pra nós três.
A Letícia já tava toda falante:
- Mano, eu amo vir pro Jacaré nesses dias, menor... clima de virada, sol rachando, todo mundo na pista... só falta as piranha pararem de secar a gente - fez careta, olhando pro bonde que tava do outro lado da rua, a Paloma tava lá, Letícia odeia ela kkkk
A Gabi gargalhou:
- Ih, Lê, quebra ela mona. - ela bateu no braço dela. - Essas marmita do morro sabem nem andar de salto, tão achando que vão disputar com a gente? A gente vive no luxo, porra. Mega em dia, cílios em dia... os cara tudo de olho.
Eu ri também, descendo a ladeira com elas. O calor batendo na cara, criançada soltando pipa, moto passando com funk estourando... aquele cheirinho de churrasquinho perdido no ar. Vivência, né? A gente caminhando toda na marra, igual donas do lugar.
Chegando na porta do salão, já dava pra ouvir o falatório das mina lá dentro. A Jô, dona do salão, abriu sorriso quando viu a gente.
- Olha quem chegou! As mais mais do Jacaré! - ela disse rindo. - Vem, senta logo que o movimento hoje tá o cão.
Entramos. O ar-condicionado batendo no rosto deu até alívio. O cheiro de laquê, progressiva e unha de acrigel sendo lixada... clássico.
Sentamos nas cadeiras. A Jô pegou meu muco primeiro. A Carla o da Letícia, que tava do meu lado e a Willy pegou o muco da Gaby.
- Caralho, Índia, teu mega tá pedindo socorro, hein? - ela disse rindo. - Mas é normal... tu tá sumida, né? Nem vi tu passando esses dias.
- Também né gente, depois da noite que a bonita teve ontem, não tem cabelo que aguente! -Letícia linguaruda soltou e eu rir, morta de vergonha, colocando a mão no rosto e abaixando.
- Iih mona, soltou o anjo do bofe? - Carla, perguntou escovando o muco da Gaby.
- E esse bofe me solta mona? Nem com rezar braba, é a cruz que eu carrego. -falei rindo.
- Ah então quer dizer que voltou a ser a primeira dama do jaca? -Jô falou.
- Nunca deixou de ser né. -Gaby falou
- Vou te contar hein, tu amarrou o bofe mesmo né, todos esses anos que eu conheço Relíquia, nunca vi ele assim, se humilhando por mulher nenhuma. -Carla falou
- Ela não é qualquer uma né mores, a preta tem o molho. -Let falou e eu rir.
- Ele meteu logo uma cria em tu, pra não perder o vínculo. - Gaby falou, pior viu que foi verdade.
A Jô tava puxando meu mega quando a Carla jogou a pergunta:
- Índia... tu não se arrepende não de ter sido mãe tão novinha assim, não?
Carla me conhece desde menor.
O salão deu aquela pausa de leve, igual quando todo mundo quer ouvir.
Eu respirei fundo antes de falar.
- Pior que não, amiga... mas também... foi foda. Tipo... eu tinha O QUÊ? 15 pra 16 anos... tava começando a viver. Minha cabeça era de criança ainda, não que eu ainda tenho maturidade né. Eu queria era baile, rua, escola... nem sabia nada da vida.
Letícia assentiu forte.
- Tu virou adulta do nada, menor.
- Papo reto. - falei, mexendo no cabelo. - Em menos de UM ANO, minha vida virou de cabeça pra baixo. Engravidei, o Gabriel sumindo e aparecendo, depois voltava... minha mãe me botou pra fora. Eu nem tinha terminado o ensino médio, eu nem sabia trocar uma fralda...
Gaby abriu um sorriso triste:
- A gente viu tudo. Foi rápido demais, porra.
Eu concordei.
- Eu tava na escola outro dia... e no outro tava na maternidade com um recém-nascido no colo. Olha isso. - balancei a cabeça. - Nem eu entendi direito.
Carla virou pra mim:
- Mas tu segurou tudo, Bia. Tu deu conta de um bagulho que muita adulta não dá.
Eu ri fraco.
- Dei porque tive que dar, amiga. Não tinha opção. Ou eu amadurecia... ou minha filha ficava na mão dos outros.
- E tua mãe? - Jô perguntou, sem rodeio.
Eu senti aquela pontada.
- Minha mãe, um caso perdido pow. - falei direto. - Até um tempo atrás tentei ajudar ela, pensei que a relação de nós ia melhorar, mas não. É ódio mesmo. Ela sempre teve raiva de mim, minha vó falava que era por cardique do meu pai, deixou ela, e ela tinha raiva minha e da Bruna.
- E Bruna, como ela tá? - Willy perguntou.
- Tá bem, vivendo a vidinha dela, casou, tá grávida. -comentei.
- Ainda bem que ela conseguiu amar de novo né, porque não é fácil a pessoa conseguir lidar com a morte de alguém que você ama muito, ainda mais da maneira que foi. - Jô falou.
- Papo reto, ela ficou destruída, mas a Bruna sempre foi forte e seguiu em frente né, viveu o luto dela e agora tá vivendo, mas ela ainda sempre falta dele, é notável. - Willy falou.
- Mas tu virou mãe, né. - Letícia disse. - Virou mulher rápido. Mesmo sem querer.
- É... mas minha cabecinha ainda é de menina, mano. - admiti. - Eu tenho uma bebê de um ano... e às vezes eu ainda ajo como se tivesse 14. Eu surto, fico com ciúme à toa, faço birra... é porque eu não tive tempo de viver nada. A vida me empurrou pra frente na força.
Gaby riu de leve:
- E mesmo assim tu virou referência, mona. Todo mundo no Jacaré te respeita.
- Mas é por causa do Relíquia também, né - Willy soltou. - Ele te bota no topo.
Eu revirei os olhos.
- É... mas ele também foi motivo de muita lágrima. - confessei. - Muita mesmo.
- E agora vocês voltaram, né? - Gaby provocou. - Tá na vibe romântica...
Eu ri, tímida.
- A gente voltou... mas vcs sabem. Ser mulher de bandido não é conto de fada. Tem luxo? Tem. Tem respeito? Tem. Mas tem operação, tem caveirão entrando 6h da manhã, tem eu botando a Maria no chão e me jogando por cima dela...
- Eu já passei por isso. - Jô falou, séria. - É um bagulho que marca pprt.
- Marca. - repeti. - Mas sei lá... eu olho pra Maria e penso: "valeu a pena". Eu não mudaria nada nela, nada. Ela foi a melhor coisa que aconteceu em um ano inteiro de caos, e confesso que eu amo essa vida, pow adrenalina maneira.
Letícia sorriu emocionada.
- Tu virou mãe de uma princesa, mona. E virou mulher cedo... mas não virou fraca.
- Nunca, tá maluca. - respondi. - Mas também... virei cansada cedo kkkk.
Todo mundo riu.
Gaby completou:
- Mas tu ainda tem idade pra errar, pra cair, pra levantar... tu ainda é bebel, Bianca. Só que tu virou mãe - e isso pesa.
Eu assenti. Essa parte doeu, mas era verdade.
Carla bateu palminha:
- Agora chega de chororô, bora botar esse mega pra gritar que amanhã tu vai descer brilhando igual fogos da virada.
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BIANCA 🧿
Fanfictionela era uma poesia mas ele não sabia ler! ✨ 📍Jacarezinho •História de Bianca e Relíquia.
