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BIANCA 🧿

Acordei com o sol batendo na cara e o cheiro do café da Bruna subindo pela casa. Maria Giulia ainda dormia, toda emboladinha no colchão do meu lado, com o punhozinho na boca, fazendo aquele barulhinho fofo que só ela fazia.

Levantei devagar, passei a mão no rosto, e a realidade bateu. Era hora de virar a página de vez. Já tinha chorado, surtado, quebrado tudo. Agora era agir.

Desci pra cozinha e a Bruna já tava de avental, mexendo o café com uma mão e olhando o celular com a outra.

— E aí, mana... dormiu nada, né? — ela perguntou, servindo duas xícaras.

— Dormi na marra... pensando em como vai ser agora. Quero botar a Maria na creche. Se eu for trampar, não dá pra ficar com ela o dia todo, né.

— Isso aí, Vai na fé. Se organiza, corre atrás. Hoje mesmo, já vê isso aí.

— Hoje mesmo eu vou lá — falei, decidida, dando o primeiro gole no café amargo. — Cansei de viver na sombra dele.

O celular vibrou. Mesmo com tudo bloqueado, a notificação chegou:

"Pix recebido: R$ 9.000,00. Mensagem: 'Compra as coisinhas da Maria. Me perdoa. Me responde, por favor, amor. Sinto tua falta.'"

Olhei pra tela com nojo.

— Até parece que dinheiro compra caráter, né? — murmurei, mostrando pra Bruna.

— Tu ainda vai ter que aguentar isso aí um tempo... esses bofe não sabe perder, ainda mais quando é traficante. Quer tudo no nome dele. Mas tu já venceu, colega. Já saiu. Isso é coragem.

Respirei fundo, botei a blusa mais leve do armário, short jeans, Maria no colo, bolsa atravessada e o coração na mão.

Na rua, o sol fritando o asfalto, a favela já pulsando. Desci o morro com o mototáxi, que já me deixou na frente da creche.

Entrei.

A diretora era uma senhora simpática, sorridente, dessas que olha no olho e escuta.

— Oi, bom dia. Meu nome é Bianca. Tô querendo vaga pra minha filha. Maria Giulia. Tem quatro meses. Eu tô recomeçando agora, quero trabalhar, e preciso muito de uma vaga aqui.

Ela olhou a bebê, sorriu, e chamou pra sentar.

— Entendo, minha filha. Muitas mães passam por isso. A gente tem uma fila, mas vamos ver o que dá pra fazer.

Enquanto preenchia os papéis, ouvi meu nome.

— Bianca?

Virei. Era a Cláudia, uma mulher que morava na parte de cima do morro, conhecida da minha mãe. Tava com o uniforme da creche.

— Tô trabalhando aqui agora. Se quiser, eu fico de olho nela. A gente dá um jeito!

Senti uma paz invadir o peito.

— Papo reto? Tu faria isso?

— Claro! Tua filha é linda. E eu sei o que tu passou. Tá certa em seguir tua vida.

Na saída, o sol tava ainda mais quente, e meu corpo leve. Parecia que a vida tava abrindo os caminhos, mesmo no meio da bagunça.

Mas é claro que a paz dura pouco, né?

Quando virei a esquina pra subir de volta, quem tava encostado na moto dele, parado no portão da creche, me esperando?

Gabriel.

Camisa preta, cordão grosso, cara de doente. A barba por fazer, o olho fundo, como se não dormisse há dias.

— A gente precisa conversar, Preta

— Não temos nada pra falar. Eu vi tu com a Vanúbia. E eu sou Bianca, mas não sou palhaça.

— Aquilo foi um erro. Eu tava bolado, tu sabe como eu fico. Mas eu te amo, porra. Eu amo tu e nossa filha. Deixa eu voltar...

— Volta pro teu inferno, Gabriel. Aqui não tem mais espaço pra tu. — falei, firme, ajeitando a Maria no colo.

— Tu tá com outro, né? Fala a verdade. Tá dando mole pra esses mané ? — ele veio pra cima, voz aumentando.

— Tu acha que o mundo gira em torno do teu ego, né? Eu tô com eu mesma. Pela primeira vez.

— SE EU PEGAR ALGUÉM DANDO EM CIMA DE TU, EU MATO! EU JURO, BIANCA! TU É MINHA, PORRA!

Nesse momento, o mototáxi da ida apareceu vindo na contramão.

— Ei, ei! Quer que eu chame alguém, Bia? — ele perguntou, vendo a tensão.

— Só me leva embora, irmão. — falei rápido, subindo com a Maria no colo, tremendo por dentro.

Gabriel ficou parado, com o olho cheio de lágrima, cuspindo no chão, puto. Mas dessa vez ele não me seguiu.

Na garupa da moto, com o vento batendo no rosto da minha filha e as lágrimas escorrendo do meu queixo, eu percebi: a liberdade pesa, mas é linda. Não tem volta.

Eu vou recomeçar. Por mim, e por ela.

BIANCA 🧿Onde histórias criam vida. Descubra agora