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BIANCA

Mano... depois que a Bruna soltou aquela bomba que tava grávida, Eu e as meninas ficamos naquela, meio chocadas mas rindo, porque né, Bruna sempre foi enrolada com bofe de fuzil, então não era surpresa total... mas ainda assim, ouvir dela mesma que tinha um bebê na barriga dava um peso.

A gente ainda tava na Letícia, que já tava no pique de fazer uma comidinha.

Tava aquele calor do cão, pow sol ta dando mo moca, música rolando baixinho, e nós tudo jogada na cozinha, cada uma metida numa função. Letícia picando cebola, eu mexendo a panela, Gaby com a função de provar o tempero, e Bruna sentada no balcão, com a mão na barriga e fumando um cigarrinho. Ela disse que não tava bebendo nada por causa da gravidez, mas o cigarro ainda não largou.

E aí começou a fofoca... minha filha, se tem uma coisa que mulher de favela sabe fazer bem, é fofocar. Letícia soltou:

— Vocês viram que a Jaqueline foi expulsa do baile lá no Mandela semana passada?

Eu não sabia de nada, claro que já fiquei ligada.

— Expulsa? O que que ela fez? — perguntei, já com a colher de pau na mão.

— Mona, falaram que ela foi com aquele bofe novo, o tal do Dg, só que quem tava lá também era a fiel, a Vanessa. E tu sabe como é a Vanessa, né? Não deita pra nenhuma amante. — Letícia falou, dando aquela risadinha.

— Pow ela é casca grossa, tem fiel que senta pra ver o bofe comendo a amante ... — Gaby comentou, mexendo a salada.

—Nos acha que essas fiel são otaria, mas só elas sabem oque engole calada na mão dos bofes. -Bruna falou —A Bianca mesmo, se deixar até hoje senta pro Relíquia.

—Ah tá maluca Bruna, mas nenhuma aqui pode me julgar, porque nós é tudinho igual, bofe desce a madeira e depois nós tá com ele de novo fazer oque né, fazendo a linha maluca. -falei.

Letícia continuou:

— Pois é... Vanessa ficou só olhando de longe, mas quando a Jaqueline foi no banheiro, ela entrou atrás e trancou a porta. Só sei que teve grito, barulho de tapa, e quando abriram, a Jaque tava com o cabelo todo puxado, a roupa rasgada...

— E os vapor não fez nada? — perguntei.

— Lógico, botaram a Jaqueline pra ralar. E a Vanessa ficou lá, plena, dançando com o Dg como se nada tivesse acontecido.

Eu e Gaby caímos na gargalhada, enquanto Bruna revirava os olhos.

— E da em nada né, no final da noite é na cama dela que ele deita. Bofe nenhum vale a pena, ainda mais de baile... — ela falou, e todo mundo concordou.

—Coragem colega, Biel eu conheci no baile tá valendo a pena até hoje. -disse

—Beleza que o bofe da visão de futuro, mas só fala contigo quando quer euhein -b Gaby falou

—Ele tem que saber administrar as amantes com a fiel né, é só um pente rala filha. -falei, elas riram

— Tu jura, daqui a pouco tá indo morar com ele e esquecendo de nós. -Letícia disse, eu rir negando com a cabeça.

Depois de comer, a gente foi pro banho. E tu sabe como é casa de amiga... pegamos shampoo, creme, até hidratante da Letícia, como se fosse nosso.

Gaby reclamando que o creme dela tinha acabado, então tacou logo o da Lê no cabelo. E eu ali, de toalha, ajeitando a Maria, que tinha feito aquele cocô que só quem é mãe sabe... Meu Deus, o cheiro parecia que tinha tomado conta da casa. Fui lá, troquei a fralda dela, limpei direitinho, botei outra, dei uma aguinha pra ela e deixei brincando no tapete.

Já na boquinha da noite, Letícia jogou a ideia:

— Bora bebermorar lá na praça?

—Ainda -respondemos em coral.

Aí a gente se dividiu: Letícia e Bruna foram comprar umas cracrudinhas, levaram a JBL e os baseados. Eu, Gaby e Maria no colo (porque essa menina não queria chão nem a pau) fomos no mercadinho buscar uns petiscos.

—Marca um 10 lá na praça -gritei pra Bruna.

Chegando lá, a gente já foi no automático: linguiça calabresa fatiada, amendoim torrado, aipim frito, umas azeitonas, e ainda pegamos uns pacotinhos de torresmo. Tudo que combina com cerveja e resenha de favela.

Quando a gente tava na fila, encontramos por acaso a mãe do Relíquia — vó da Maria — e a mãe da Gaby. Rolou aquele climão educado.

— Bia, tá tudo bem? Nunca mais deixou Giulia lá comigo que que houve? — ela perguntou, olhando pra Maria no meu colo.

— Tudo sim, graças a Deus, tô nem saindo direito tia, por causa disso. — respondi, forçando um sorrisinho.

—Se precisar já sabe né? pode deixar ela lá.

Ela começou a falar dos últimos acontecimentos. Comentou por cima sobre o Relíquia, como quem não quer nada, mas eu senti aquele tom de respeito e tensão misturado. Falei pouco, só concordando. Não é assunto que eu queira estender.

Na saída do mercadinho, Maria começou a gritar "papai, papai" e eu olhei... tava o Relíquia, do outro lado da rua, encostado na moto com os parceiros. Ele viu, atravessou a rua e veio na nossa direção. Eu coloquei a Maria no chão pro pai pegar, mas não dei confiança nenhuma.

Ele pegou ela no colo e ficou ali, falando. Eu virei as costas e fui andando.

Gaby ficou pra escutar, e depois veio correndo me alcançar.

— Ele falou assim: 'Depois levo a Maria lá, pede pra essa maluca parar de marra. Se fosse pra ter raiva, eu que teria da fuça dessa mandada. Cuidado na vida, Gabrielly.' — ela repetiu, rindo nervosa.

No caminho pra praça, a gente ouviu uns comentários dos bofes que tavam na esquina, uns traficante, uns vapor, até uns cracudo gritando gracinha. A gente só riu e continuou, porque quem vive aqui já tá acostumada com esse tipo de abordagem.

BIANCA 🧿Onde histórias criam vida. Descubra agora