BIANCA🧿
Respirei fundo, o coração pesando mais que o corpo todo. Olhei pra Letícia, ainda ali, largada no meio-fio, os olhos cheios d'água, a cara de quem perdeu mais que um amigo, perdeu um pedaço da infância. A cena do PT estirado no chão, com a fita da polícia cortando o ar, não saía da minha cabeça, parecia filme que não para de repetir.
— Vou lá falar com ela... — falei num fio de voz, quase sem ar.
Letícia só balançou a cabeça, sem conseguir nem dizer "vai". Eu sabia que ela queria tá comigo nessa, mas não tinha força nem pra levantar.
Me levantei devagar, as pernas falhando, e comecei a descer o morro, com aquele silêncio barulhento, que só quem vive sabe.
As ruas, que de manhã tava cheia de criança brincando, agora tava vazia, só os olhares pesando em cima de mim. Tiazinha do boteco, os moleque, todo mundo já sabia. Menos ela. Menos minha irmã.
Cada passo parecia um soco no peito. Passei pelo bar do Naldo, a barricada tava lá, quebrada, porque os cana arregaçou tudo. Mais pra baixo, o beco onde a gente sempre ficava fumando com o PT... vazio. Só o vento levando as lembranças.
Cheguei na frente da casa da Bruna. O portãozinho de ferro tava encostado, como sempre. Não tive coragem nem de bater, só empurrei de leve, ele rangeu, entregando minha chegada.
Subi as escadinhas de cimento, sentindo meu pé pesar. O barulho do ventilador de teto girando preguiçoso vinha lá de cima, misturado com o silêncio mórbido da casa. Tudo tão calmo... e eu ali, levando a pior notícia que ela podia receber.
Cheguei na porta do quarto, ela tava deitada, o lençol puxado até o peito, uma perna pra fora da cama, cabelo espalhado no travesseiro, respirando tranquila... Como se o mundo não tivesse acabado. Mas tinha.
Encostei na beirada da cama, sentei de leve, sem fazer barulho. Fiquei olhando pra ela, um segundo, dois... dez. Como que eu ia falar isso? Como?
— Bru... — chamei baixinho, botando a mão de leve no braço dela. — Bru, acorda... é sério...
Ela virou de lado, soltou aquele gemidinho de quem tá com sono.
— Que foi, garota? Que cara é essa? Aconteceu alguma coisa com a Maria?
Na hora meu coração deu um pulo.
— Não... Maria tá bem, tá na creche... tá guardada...
Ela coçou o olho, sentou na cama devagar, já percebendo que tinha alguma coisa errada.
— Que que houve então? Tu tá branca, maluca
Segurei a mão dela, minha voz saiu toda falhada.
— É... é sobre o PT, Bru.
Na hora ela arregalou os olhos, o coração dela percebeu antes da cabeça.
— O que que tem ele?
— Hoje... hoje teve operação. O BOPE subiu... pegou geral de surpresa... e... — respirei fundo, mas a palavra não queria sair. — Mataram ele...
Ela ficou muda, os olhos arregalados, a respiração acelerou.
— Não... não... não... Tu tá brincando, né?
Balancei a cabeça devagar, com o olho já cheio d'água.
— Eu vi, Bruna... ele... ele tá lá ainda... não resistiu...
Ela soltou um grito abafado, botou as duas mãos no rosto.
— NÃO! NÃO! NÃO!
Se levantou de um pulo, começou a andar pelo quarto, puxando o cabelo, a respiração toda descompassada.
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BIANCA 🧿
Fanficela era uma poesia mas ele não sabia ler! ✨ 📍Jacarezinho •História de Bianca e Relíquia.
