BIANCA
A noite tava quente, abafada, daquelas que a alma da gente sua antes do corpo. Eu nem sabia se era o calor ou o nervoso que me fazia tremer.
Biel tinha mandado o segurança me buscar em casa, num carro blindado que até o cheiro era diferente. Parecia que eu tava entrando num filme, mas o roteiro era de favela mesmo, e eu era a protagonista, com a cara lavada, unha feita, vestido justo colando na pele e salto alto pra pisar bonito.
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Quando eu cheguei no restaurante, já tinha gente olhando. É lógico que tinha, com essa beleza entrando no Paris 6 de mão dada com um dos caras mais temidos do Rio, é tipo novela, só que sem final feliz garantido.
Biel tava de camisa preta, relógio grosso no pulso, corrente de ouro pesando no pescoço e aquele perfume que gruda na pele e na memória. Quando me viu, abriu um sorriso de canto, daquele que não mostra dente, só malícia. Ele levantou da cadeira, puxou pra mim com educação de patrão e disse:
- Tá linda, pra caralho pprt. Assim tu me complica.
- Complico nada. Já tem mulher, né? Vai se complicar sozinho.
Ele riu, mas com aquele olhar sério por trás, como se cada palavra minha fosse um tiro de alerta.
- Esquece isso, Bianca. Se eu tô contigo aqui, é porque eu quero. E se eu quero, é lei.
Engoli seco. A forma como ele falava parecia que ele controlava até o ar. Biel não era qualquer bandido. Ele era O bandido. E eu? Só uma cria tentando sobreviver, com a alma cheia de cicatriz e a pele ainda cheirando a pólvora de ontem.
A gente pediu comida chique, que eu nem sabia pronunciar. Ele pediu vinho, me serviu como se fosse natural, mas ali não tinha nada normal. Enquanto eu cortava um pedaço da carne com a faca de prata, ele começou a soltar o verbo:
- Pow Bia, vou te passar a visão... Eu já vi muita mulher nesse corre. Muita. Mas nenhuma que me deixasse pilhado igual tu. Tu tem um bagulho diferente, não sei explicar. Tu fala com o olho, com o corpo. Tu me afronta, me enfrenta, mas não abaixa cabeça.
- Nunca abaixei. Só pro meu Deus. - respondi, encarando ele de volta, com o queixo erguido.
Ele balançou a cabeça com um sorriso de canto, como se respeitasse minha coragem.
- E tu só tem 16, né?
- Uhum.
- Caralho... É a idade da minha filha.
O silêncio veio com gosto de tapa. Fiquei parada, sem saber se engolia o vinho ou a vergonha. Mas aí eu pensei: que se foda. Se ele tá aqui, é porque quer. E se ele quer, eu vou deixar claro quem eu sou.
- E daí, amor? Idade não define vivência. Eu já passei por coisa que mulher de trinta não aguentava. Já enterrei amiga, já fugi de tiro com a minha filha no colo, já fui traída, espancada... Eu sou cria. Não sou brinquedo.
- Por isso mesmo, porra - ele disse, se inclinando pra frente -. Eu tô tentando sair dessa vida, India. Tá ligado? Eu sei mexer com dinheiro, sei investir. Já fiz meu pé de meia. Mas sair com mulher de bandido... parceiro do Relíquia ainda... isso dá merda.
- Não sou mulher de ninguém. Tô solteira. Quem quiser que banque. E tu bancou, né? - respondi, encarando ele com ousadia.
- Caralho... tu é a própria confusão mané. Mas quer saber? Eu gosto.
O garçom apareceu do nada, meio sem graça, perguntando se tava tudo certo. Biel dispensou ele com um gesto, e depois se virou pra mim de novo.
- Tu sabe o que tão falando de tu por aí, né?
- Sei. Tô acostumada a ser assunto. Desde novinha. A diferença é que agora eu sou notícia quente. E eles leem.
Ele soltou uma risada rouca, e aquele clima que tava tenso virou fumaça de desejo. O olhar dele queimava. Era como se ele dissesse tudo sem abrir a boca. Ele queria. E eu também. Mas segurei.
- Tu é problema, menina.
- E tu é o perigo. Igualzinho. A gente se merece.
Ele pegou na minha mão, acariciando com os dedos firmes. Senti um arrepio subir pela espinha. A comida ficou de lado. O papo ficou mais baixo. Os olhos disseram tudo.
- Depois daqui, vamo pra onde?
- Onde tu quiser, Biel. Mas tem uma coisa...
- Fala.
- Tu sabe que eu tenho uma filha, né? Maria. E ela é prioridade.
Ele ficou em silêncio por uns segundos. Depois, olhou fundo nos meus olhos e disse:
- Eu respeito. De verdade. Se tu tiver comigo, tua filha tá comigo também. Relaxa índia aqui é sem estresse.
Senti os olhos marejarem. Mas segurei. Cria não chora em restaurante caro. Cria engole e transforma em força.
- Tu é diferente, Biel.
- E tu é a tentação, Bianca.
O celular vibrou na bolsa. Era mensagem do Relíquia. Nem abri. Apaguei direto. Aquela noite era minha. E de ninguém mais.
Saímos do Paris 6 como dois chefes kkkkkk. E por mais que a cidade estivesse cheia de guerra, naquela noite, no carro blindado, com a mão dele na minha coxa e o perfume dele grudado em mim... eu me senti segura.
Mesmo sabendo que era só por um tempo.
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BIANCA 🧿
Fanfictionela era uma poesia mas ele não sabia ler! ✨ 📍Jacarezinho •História de Bianca e Relíquia.
