BIANCA 🧿
A madrugada avançava silenciosa quando meu celular vibrou insistentemente na mesinha ao lado da cama. Meus olhos pesados custaram a focar o visor iluminado: "Bruna". O coração acelerou; ligações a essa hora nunca trazem boas notícias.
— Bianca... — a voz dela soava trêmula, quase irreconhecível.
— Bruna? O que foi?
— É a mamãe... Ele bateu nela. Tá na UTI do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari. 
Sentei-me de sobressalto, o sono dissipando-se instantaneamente.
— Mas... depois de tudo...
— Eu sei, Bia. Sei que vocês não se falam há meses, mas ela é nossa mãe. Preciso de você agora.
A hesitação me consumia. Minha mãe nunca escondeu a preferência por Beatriz, a caçula. Quando engravidei aos 15, fui expulsa de casa sem hesitação. Já Beatriz, grávida aos 13 de um traficante mais velho, foi acolhida, mesmo após o abandono do pai de sua filha. A injustiça sempre pesou em meu peito.
Mas, apesar de tudo, sangue é sangue.
— Vou me arrumar. Encontro você em 20 minutos.
Antes de sair, precisava garantir que Maria Giulia estivesse segura. Letícia morava a algumas casas de distância e sempre foi de confiança. Peguei uma mochila, coloquei algumas fraldas, mamadeira e um cobertorzinho.
— Princesa, vamos dar um pulinho na casa da tia Letícia, tá bom?
Maria Giulia, sonolenta, apenas resmungou em resposta.
A noite estava fresca quando bati na porta de Letícia. Ela atendeu de pijama, olhos semicerrados.
— Bia? Aconteceu algo?
Expliquei rapidamente a situação. Sem hesitar, ela estendeu os braços para pegar Maria Giulia.
— Vai tranquila. Cuido dela como se fosse minha.
Agradeci com um abraço apertado e corri de volta para encontrar Bruna. Ela já me esperava na esquina, olhos vermelhos de choro. Chamamos um Uber, já que nenhum motorista se arriscaria a entrar além das barricadas do morro.
Durante o trajeto, o silêncio era pesado. Finalmente, Bruna quebrou:
— Ela está entubada, Bia. As lesões foram graves.
Engoli em seco. Apesar de tudo, não desejava isso para ela.
Chegamos ao Hospital Municipal Ronaldo Gazolla. A fachada iluminada contrastava com a escuridão da madrugada. As luzes frias do hospital sempre me causaram arrepios.
Na recepção, após nos identificarmos, fomos conduzidas à UTI. A visão da nossa mãe, frágil e conectada a máquinas, foi um choque. A mulher forte que conhecíamos agora parecia tão vulnerável.
Sentei-me ao lado dela, segurando sua mão fria.
— Mãe... sou eu, Bianca. Estou aqui.
Seus olhos se abriram lentamente. Ao me ver, uma mistura de surpresa e algo que não consegui decifrar passou por seu rosto. Tentou falar, mas a máscara de oxigênio abafava suas palavras.
— Não se esforce. Estamos aqui por você.
Ela desviou o olhar, lágrimas escorrendo silenciosas. Mesmo naquele estado, parecia relutante em aceitar minha presença.
— Mãe, sei que tivemos nossas diferenças. Sei que você me culpa pela separação com o papai, mas agora isso não importa. Você precisa de nós.
Ela fechou os olhos, apertando minha mão levemente. Talvez fosse o máximo de aceitação que conseguiria naquele momento.
Bruna, do outro lado da cama, acariciava os cabelos dela, murmurando palavras de conforto.
Ficamos ali por horas, até que a exaustão nos venceu. Antes de sair, prometi a mim mesma que, independentemente do passado, estaria ao lado dela nessa recuperação. Afinal, laços de sangue são eternos.
VOCÊ ESTÁ LENDO
BIANCA 🧿
Fiksi Penggemarela era uma poesia mas ele não sabia ler! ✨ 📍Jacarezinho •História de Bianca e Relíquia.
