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BIANCA🧿

Gabriel chegou em casa com uma sacolinha preta discreta. Tava na dele, calado, com aquele sorrisinho de tralha de canto de quem tinha feito "algo bom" do jeito dele.

— Que foi, Gabriel? — perguntei, enquanto estendia uma toalha no varal.

Ele levantou a sacola.

— Toma aí. Pra tua coroa.

— Que isso?

— Celular. Um parceiro conseguiu pra mim. Zero bala. Daqueles que até a câmera é melhor que a dos blogueiros.

Arqueei a sobrancelha.

— No corre, né?

— Qualé, tu queria que eu passasse no shopping, fizesse crediário no nome de quem? No meu? — ele riu.

Revirei os olhos, mas o coração tava meio mole. Eu sabia que ele tava tentando ajudar, do jeito dele.

— Obrigada amor, ela vai gostar. —se aproximei dele e dei um beijinho.

— Só vê se ela da valor, Bianca. Porque se não valorizar... — ele falou, e fez aquele gesto com a mão no pescoço.

No dia seguinte, fui lá na casa da minha mãe. Beatriz e Bruna tavam dobrando roupa lavada no quarto. Entreguei o celular pra ela, que tava sentada vendo novela.

— Ó, mãe... trouxe um bagulho aqui pra tu. Agora tu para de usar aquele trambolho velho todo estourado.

Ela arregalou o olho.

— É sério isso?

— É pow, pega aí pra tu ver, tá maneirinho o celular.

Ela pegou o celular com brilho nos olhos. Até sorriu.

— Nem sei o que dizer...

— Diz "obrigada", já tá bom. — falei meio rindo, meio cansada.

— Obrigada, filha.

Até ali, parecia tudo bem. Agradecida, simpática... um clima de paz raro.

Mais tarde, Bruna tinha ido na padaria comprar um refrigerante e, quando voltou, pegou a coroa sentada na varanda, com o novo celular no colo, cochichando. E eu tava na sala, cuidado de Laurinha.

Curiosa, passou direto pro quarto, mas ficou de canto só observando. Viu de relance o nome salvo no topo da tela: "Amor". E não precisou pensar duas vezes.

— Quem é "Amor", mãe? — ela perguntou, do nada, já entrando na varanda.

Minha mãe quase deixou o celular cair no susto.

— Que isso, Bruna?! Tá maluca?

— Não tô maluca, não. Tô vendo tu falando com o traste que quase te matou, é isso?

— Não mete o bedelho, garota.

— Tu ainda fala com aquele desgraçado?! Depois de tudo?! E usando o celular que a Bianca deu?! Tá de palhaçada, né?

— A vida é minha. E quem comprou o celular foi o Gabriel, não foi ela. Eu falo com quem eu quiser!

Bruna não acreditava no que tava ouvindo.

— Cê prefere falar com um cara que quase te matou do que respeitar tua filha que cuidou de tu enquanto tu tava fodida?

Minha mãe levantou da cadeira, bufando.

— Respeito? Que respeito? Ela se mete com traficante! Vive na boca, com filho no colo, dorme com arma debaixo do travesseiro e vem me cobrar respeito?

Bianca, que tinha voltado da farmácia, escutou tudo da porta.

— Que que cê falou aí, mãe?

A velha não recuou. Pelo contrário, virou de frente pra mim, com os olhos frios.

— Falei que tu não é exemplo pra ninguém. Vive dizendo que me protege, que cuida de mim... mas quem cuida de verdade não se junta com bandido. Tu tá igual a ele! Daqui a pouco tá apanhando também, e vai voltar aqui chorando, como sempre!

Bruna entrou no meio, boladona:

— Cala a boca, mãe! Tu tá falando merda!

— Cala a boca você! Só vem aqui pra tumultuar! Se acha santa porque trabalha em loja? Vocês três são tudo cobra criada!

Fiquei em choque. Por um segundo, não consegui nem reagir. A única coisa que consegui dizer, com a voz trêmula, foi:

— Eu dei comida, roupa, dinheiro. Botei médico, comprei remédio, até celular no corre pra tu parar de depender dos outros... e tu usa pra isso? Pra falar com um lixo que quase te matou?

Ela deu um riso debochado.

— E tu acha que é melhor? Dormindo com traficante, metida num mundinho de arma, droga e morte? Isso não é vida, menina. Tu se perdeu faz tempo. Eu só finjo que não vejo pra não te perder de vez.

Eu não aguentei. Senti a lágrima quente escorrer no rosto.

— Tu já me perdeu, mãe. Faz tempo. Eu só tava tentando fingir que ainda dava pra voltar.

Virei as costas e fui embora. Bruna veio atrás de mim, Beatriz também. Ninguém falou nada no caminho. Só o silêncio, denso, cruel, grudado na pele da gente.

Chegando em casa, Gabriel percebeu que eu tava esquisita.

— Qual foi?

— Ela me comparou com o cara que espancava ela. Disse que eu sou igual, porque me envolvi com tu.

Ele ficou mudo por uns segundos. Depois disse baixo:

— Que ela fale o que quiser. Mas tu sabe quem tu é. Tu tem tua filha, tu tem tua força. Não deixa ela apagar isso, não.

Me joguei na cama. Maria Giulia dormia no bercinho, agarrada com a naninha. A imagem dela me deu um pingo de esperança.

Ali, deitada, com o peito rasgado de mágoa, eu entendi que nem sempre a gente perde as pessoas. Às vezes... elas se perdem da gente.

BIANCA 🧿Onde histórias criam vida. Descubra agora