87

534 23 0
                                        

BIANCA🧿

Acordei cedão, antes mesmo do despertador tocar. Tava com aquele peso na cabeça, tipo quando a mente não para de lembrar das paradas.

Fiquei olhando pro teto, pensando em tudo que rolou... a festa, o presente do Relíquia, a recaída. Caraca, como é que eu fui dar essa mole? Ainda fico nessa de "vou ser forte", e quando vê, já tô trancada com ele no quarto, caindo na lábia de novo. Mas já foi. Sacudi a cabeça, levantei da cama e fui pra função.

Maria Giulia ainda dormia toda jogadinha no canto da cama, parecendo um anjinho. Fui logo botando a casa no grau. Comecei pela sala, tirei os brinquedinhos dela que estavam espalhados, dobrei o paninho de boca, varri tudo, passei um pano com cheirinho de lavanda que trouxe lá do mercado.

Depois fui pra cozinha, dei uma ajeitada geral. Lavei a louça da janta de ontem, limpei o fogão que tava um só com aquele molho de macarrão. A casa tem que tá no esquema, né, ainda mais agora que tô morando só eu e ela.

Depois que tudo ficou no brinco, fui tomar aquele banho gelado que dá vida. Lavei o muco, botei uma roupinha simples: shortinho jeans, top branco, chinelo e minha bolsinha lateral. Botei a fralda e a roupinha da Maria Giulia, arrumei a mochilinha dela com as coisinhas da creche — mamadeira, troquinha, lenço, pomada. Já peguei minha chave, capacete e descemos.

Já tô manjando na moto, viu. Letícia que me deu o grau. No começo, quase bati na lixeira da rua, mas agora tô na atividade.

Subi na minha PCX toda metida, Maria na frente comigo, direitinha. Levei ela na creche, dei aquele beijão nela, e fui pro salão.

Hoje o salão tava tranquilo, poucas clientes, só duas sobrancelhas e uma manutenção de henna. Terminei tudo rapidinho, dei aquela organizada nos materiais e conversei um pouco com a Tia, que me elogiou de novo dizendo que tô desenrolando muito.

Saí antes do normal e aproveitei pra fazer o que? Supermercado.

Passei lá no mercadinho da Dona Célia e fiz umas comprinhas pra casa e pra Maria.

Peguei leite, fralda, biscoitinho de maisena que ela ama, e uma bandejinha de carne moída pra fazer um almoço no outro dia. Ainda deu tempo de pegar um Danone que tava na promoção. Voltei na moto, cheguei em casa, guardei tudo, comi rapidinho um arroz com ovo e fui bargar um pouquinho.

Acordei com o sol batendo na cara, suando que nem tampa de marmita. Olhei o relógio e já tava na hora de buscar minha princesa. Levantei voada, tomei uma água, peguei a chave da moto e fui.

Chegando na creche, me deu logo aquele gelo no coração. A tia que sempre entrega a Maria olhou pra mim e disse:

— Ué, o pai dela já buscou, não foi?

— Como assim? — perguntei boladona, já ficando sem ar.

Ela explicou que ele chegou lá mais cedo e levou a menina. Fui logo ligando pra ele, claro, né? Mas o cardique não atendeu. Liguei de novo, nada. Fiquei me tremendo de raiva, de preocupação, de tudo junto. Subi acelerada pra casa da Tia Gisely, minha ex-sogra.

Ela me recebeu até que suave:

— Ô, Bianca... o Gabriel passou aqui sim, mas já saiu faz um tempinho com a menina. Disse que ia dar um rolê.

— Rolê pra onde, tia? Sem avisar? Ele nem me respondeu!

— Fica tranquila, minha filha, ele disse que já traz.

Deixei o recado: "Quando chegar, manda ela pra casa direto." Dei um beijo nela e fui pra casa tentando manter o controle. Mas por dentro? Um vulcão.

Cheguei, tomei uma água com açúcar que a tia me deu e me joguei no sofá. Celular vibrou. Era o grupo das Faixas no zap.

Letícia: na rlk do manguinhos esse fds?

Bruna: Ainda irmã 😝

Gaby: Qualfoi vai ter oq lá?

Eu: Tão falando que oruam vai brotar

Letícia: Amoo, os roncas de lá é uma delícia 😋

Bruna: Tô afim de dar, a mo cota.

Eu ri, mas por dentro o coração ainda tava apertado. Tudo que tava acontecendo... o rolê com a Maria sem avisar, os babado do grupo, o medo de cair nas armadilhas do Gabriel de novo.

Mas tentei ficar tranquila. A Maria ama o pai, e ele também é doido nela. Só não pode ficar nesse bagulho de sumir com ela assim, sem palavra.

Deitei um pouco, botei um funk baixinho pra tocar, fechei os olhos... e fiquei ali, refletindo. A vida não tá fácil, mas tô tentando me manter de pé. Se ele não me respeitar como mãe, como mulher, aí vai virar saudade. Porque da próxima, eu vou ser linha dura mesmo.

BIANCA 🧿Onde histórias criam vida. Descubra agora