78

589 26 1
                                        

BIANCA 🧿

Uma semana se passou desde que minha mãe recebeu alta do hospital. A casa dela, antes silenciosa e um pouco fria, voltou a ter vida — risos, vozes, cheiro de café recém-passado e panela no fogo. A gente se organizou pra ajudar como dava. Beatriz, ainda no colégio, saía cedo e deixava a filha dela com a nossa mãe.

Bruna, que tava no trampo o dia todo de segunda a sexta, fazia o corre pra ajudar no final da tarde. Eu era a que tinha mais tempo livre, então fiquei com a responsa de segurar o rojão das 9h às 19h. Minha vida não para.

— Bia, traz o feijão do fogo pra mim, minha perna ainda tá meia bamba — minha mãe pediu, sentada na cadeira da cozinha.

— Já levo, calma aí, tá querendo fazer graça já, né? — falei com um sorriso no canto da boca.

Ela riu fraco.

— Tô me sentindo meio inútil aqui, parada desse jeito.

— Relaxa. Tu tá viva, mãe. E isso já é muito.

Ela desviou o olhar, ficou mexendo na alça da blusa.

— Achei que tu não vinha mais aqui, depois de tudo...

Parei ali na frente dela, com o pano de prato no ombro, e olhei firme.

— Eu também achei que tu não ia querer me ver nunca mais. Mas tu é minha mãe, pô. Isso não muda. Pode ter mágoa, bronca, tudo... mas é sangue.

Ela engoliu seco, e eu percebi que segurou uma lágrima. Mas do jeito dela, né? Sempre durona.

Mais tarde, Bruna chegou com umas sacolas de mercado.

— Comprei o suco que ela gosta e uns biscoitos pra Beatriz levar pro colégio — disse, colocando tudo na mesa.

— Qualé, vcs tão me mimando, hein... — disse nossa mãe, com um sorrisinho.

— Aproveita que é raro — Beatriz respondeu, entrando na cozinha com o uniforme da escola já todo amarrotado, com Laura que tava de lado na sua cintura.

Rimos todas.

Naquele mesmo dia, quando deu a hora, eu me despedi das meninas e fui buscar Maria Giulia na casa da tia Gisely. Cheguei lá e minha filha tava deitada no colo da vó, segurando uma mamadeira como se fosse dona do mundo.

— Olha quem chegou! — disse tia Gisely, abrindo a porta.

— E aí, tia... deu muito trabalho?

— Que nada. Essa aí é tranquila, igualzinha ao pai dela quando era bebê. Só chora quando tem fome, igualzinho o Gabriel.

— Ihhh, até nisso puxou ele? — brinquei, entrando.

Enquanto arrumava a bolsa da pequena, sentei no sofá com a tia, e puxei papo.

— Sabe o que é... às vezes eu acho que minha mãe mudou. Mas ao mesmo tempo, fico com medo de ser só fachada, sabe?

Ela me olhou séria.

— Tu é forte, Bianca. Forte a beça. E eu vejo tua dor quietinha... mas tu continua indo. Sabe quantas meninas viram as costas depois do que tua mãe fez contigo?

Assenti, engolindo seco.

— Tô tentando não criar expectativa.

— É isso. Fica firme, que a tua parte tu tá fazendo, e muito bem.

Fiquei mas um pouquinho ali conversando com ela, Gaby chegou e ficamos fofocando, novidades kk

Até que Gabriel, me ligou pedindo pra eu ir pra casa, eu fui. Chegando, fiz uma janta pra a gente, dei pra Maria uma sopinha que eu fiz, depois de todo mundo alimentado, fomos pro quarto.

Naquela noite, deitada com Gabriel, depois de dar banho na Giulia e botar ela pra dormir, comentei sobre a rotina cansativa.

— Tô morta. Mas fico pensando: se eu não for, quem vai?

Gabriel me puxou pra perto, deitado com a cabeça no travesseiro.

— Tu é  forte, preta. Isso que me fez me apaixonar por tu. Mas fica ligeira também, porque quem fere uma vez, pode ferir de novo.

Suspirei.

— A tua mãe falou a mesma coisa hoje.

— Tá vendo? Duas sabedorias. Se cuida. Qualquer bagulho da tua mãe contigo de novo, eu mermo não deixo barato. Já botei o marido dela pra sentir a madeira, agora é só ela não abusar também.

— Relaxa... por enquanto ela tá de boa.

— Só lembra que tua prioridade é tu e a Giulia. O resto a gente resolve com o tempo.

E assim dormimos, Maria no ninho dela do lado da parede da cama, com sua chupeta e naninha. Não quer guerra com ninguém, eu no meio agarrada com meu bofe.

Na manhã seguinte, fiz café e levei pra minha mãe na cama.

— Ó... com açúcar do jeito que tu gosta — falei, colocando a xícara no criado-mudo.

— Obrigada, filha.

— De nada.

— Olha, eu tenho pensando muito, sabia?

— Sobre o quê?

— Sobre você... e tudo que passou.

— Ah mãe, deixa isso pra lá...

— Não. É importante. Tu é forte. Mais do que eu fui. Mais do que eu sou. Só queria te dizer que, apesar de tudo, eu tenho orgulho de tu.

Aquilo me desmontou por dentro. Mas não deixei mostrar. Só sorri.

— Valeu, mãe. Agora bebe logo esse café antes que esfrie.

Ela riu.

A família é isso aí... um bagulho doido, quebrado às vezes, mas que ainda segura no peito, se tiver amor de verdade.

Mas uma parte de mim ainda tava em alerta. Porque eu sabia que o pior inimigo às vezes é quem a gente mais ama.

E ali, no fundo da alma, algo me dizia... essa paz talvez fosse só uma pausa.

BIANCA 🧿Onde histórias criam vida. Descubra agora